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O DIA PROMETIDO CHEGOU


Shoghi Effendi


Como escritor, deixou livros marcantes, como a história dos primeiros cem anos da Fé Bahá’í (1844 / 1944), intitulado A PRESENÇA DE DEUS; e longas mensagens dirigidas às comunidades Bahá’ís publicadas em livros, como O ADVENTO DA JUSTIÇA DIVINA, a ORDEM MUNDIAL DE BAHÁ’U’LLÁH, e o presente livro, O DIA PROMETIDO CHEGOU. Existem inúmeras obras, publicadas em inglês principalmente, com coletâneas de suas cartas e telegramas ao mundo Bahá’í e a comunidades nacionais em particular, como: A ADMINISTRAÇÃO BAHÁ’Í, PRINCÍPIOS DE ADMINISTRAÇÃO BAHÁ’Í, CHAMADO ÀS NAÇÕES, MENSAGENS À AMÉRICA, MENSAGENS AO MUNDO BAHÁ’Í, MENSAGENS À ÍNDIA, MENSAGENS AO CANADÁ, e muitas outras.


Shoghi Effendi


O DIA PROMETIDO CHEGOU


Tradução portuguesa de
LEONORA STIRLING ARMSTRONG


EDITORA BAHÁ’Í – BRASIL
MOGI MIRIM, SP
1998


© 1998
Todos os direitos reservados pela
EDITORA BAHÁ’Í DO BRASIL
Caixa Postal 198
13800-000 Mogi Mirim, SP
1a edição: 1960


Título Original:
The Promised Day is Come


ISBN
85-320-0033-9


Tradução:
Leonora Stirling Armstrong


Revisão:
Coordenação Nacional de Tradução e Revisão


Composto em:
Times 12/14


Impressão:
Abaeté Copiadora e Gráfica Ltda.
São Paulo, SP


ÍNDICE


Introdução .................................................................................................. 3

= Falta Introdução de Shoghi Effendi

1. O Dia Prometido Chegou:
Aos amados de Deus e às servas do Misericordioso em todo
o Ocidente .............................................................................................. 5
2. Este Juízo de Deus ................................................................................ 7
3. Qual a Resposta a Seu Chamado? ......................................................... 10
4. Feições deste Drama Comovente? ......................................................... 18
5. Um Mundo que Dele se Afastou ............................................................ 23
6. Os Receptores da Mensagem ................................................................. 27
7. Epístolas aos Reis .................................................................................. 30
8. Revelada a Maior Lei ............................................................................ 36
9. Epístola Revelada ao Papa .................................................................... 44
10. Outras Epístolas aos Governantes do Mundo ..................................... 46
11. Que o Opressor Desista ....................................................................... 55
12. O Vigário de Deus na Terra ................................................................. 61
13. Humilhação Imediata e Completa ....................................................... 69
14. O Surgir do Bolchevismo .................................................................... 77
15. Fim do Sacro Império Romano ........................................................... 82
16. Qual o Destino da Turquia e da Pérsia? ............................................. 83
17. O Lúgubre Destino da Turquia Imperial ............................................. 86
18. A Retribuição Divina na Dinastia de Qájár ........................................ 90
19. O Declínio nas Fortunas da Realeza ................................................... 97
20. Reconhecimento da Realeza ................................................................ 98
21. O Desmoronamento da Ortodoxia Religiosa ....................................... 103
22. Palavras Dirigidas aos Eclesiásticos Muçulmanos .............................. 117
23. As Minguantes Fortunas do Islã Xiita ................................................ 125
24. O Colapso do Califado ........................................................................ 132
25. Uma Advertência a Todas as Nações .................................................. 137
26. Suas Mensagens aos Dirigentes Cristãos ............................................ 138
27. Nações Cristãs contra Nações Cristãs ................................................. 145
28. A Continuidade da Revelação ............................................................. 148
29. Os Três Falsos Deuses ......................................................................... 156
30. O Enfraquecimento dos Pilares da Religião ........................................ 157
31. O Desígnio de Deus ............................................................................ 160
32. A Grande Era que Está por Vir ............................................................ 161
33. Religião e a Evolução Social ............................................................... 164
34. A Lealdade mais Larga, Inclusiva ....................................................... 168
35. Comunidade Mundial .......................................................................... 169
36. Notas Explicativas ............................................................................... 172
37. Índice Remissivo ................................................................................. 184


INTRODUÇÃO


A primeira edição deste livro em português ocorreu em 1960. Com o decorrer dos anos, e agora às portas do novo milênio, os temas tratados por Shoghi Effendi voltam a ser pontos cruciais da sociedade humana em sua transição para uma nova era, que se descortina com a entrada do novo século. O público brasileiro, portanto, enfrentando também desafios sociais cada vez mais preocupantes, tem o máximo interesse em conhecer as soluções Bahá’ís para os problemas básicos da sociedade, os quais são tratados de forma objetiva pelo Guardião da Fé Bahá’í, com base nos ensinamentos do Mensageiro de Deus para os dias atuais.
Embora escritura durante a Segunda Guerra Mundial, e impulsionada pelos eventos que à época mais e mais obscureciam a visão momentânea de seus contemporâneos, a mensagem intitula “O DIA PROMETIDO CHEGOU” não perdeu, nem perderá, qualquer de seus pontos relevantes e seus significados. Mais pontualmente do que se poderia escrever, as seguintes palavras de Bahá’u’lláh, citadas por Shoghi Effendi, comprovam a importância do tema e de suas implicações na vida coletiva da humanidade: “E quando a hora designada vier, subitamente surgirá aquilo que fará tremer as estruturas da humanidade.”
Este livro extraordinário, dirigido abertamente aos Bahá’ís do Ocidente, é um desafio a todas as pessoas. Rápida e dramaticamente, conta a história do último dos Mensageiros de Deus que se dirigiu à humanidade inteira, mas que foi ouvido apenas por alguns poucos. Mostra as assustadoras conseqüências de tal recalcitrância: a queda da velha ordem e o nascimento, obscuro inicialmente, da nova era. Apresenta a escuridão dos dias atuais e prevê a alvorada de um novo e glorioso dia para a humanidade, que irá responder ao Chamado Divino. Mas, acima de tudo, com toda a clareza e seriedade, o livro relembra ao homem moderno não estar ele sozinho no universo, que sua existência não é algo sem significado, que seu destino é para uma vida muito superior à dos dias atuais, e que o caminho que conduz à verdade e a Deus está novamente aberto para ele.

a EDITORA BAHÁ’Í DO BRASIL
Junho de 1998.


= FALTA A INTRODUÇÃO DE SHOGHI EFFENDI =

1. O DIA PROMETIDO CHEGOU


Aos amados de Deus e às servas do Misericordioso em todo o Ocidente.
Amigos e co-herdeiros do Reino de Bahá’u’lláh:


Uma tempestade de inédita violência varre atualmente a face da terra, e não podemos prever seu curso. Os efeitos imediatos são catastróficos, mas as conseqüências finais serão gloriosas, além do que possamos imaginar. A força que a impele cresce impiedosamente em âmbito e rapidez. Seu poder purificador, se bem que despercebido, aumenta dia a dia. A humanidade, vítima desse inexorável ímpeto assolador, é abatida pelas evidências de sua fúria irresistível. Não percebe sua origem, nem pode sondar seu significado ou discernir seu fim. Perplexa, angustiada, impotente, vê esse grande e poderoso vento do castigo divino invadir as mais remotas e belas regiões, abalando a terra até os fundamentos e perturbando-lhe o equilíbrio; vê desintegrarem-se suas nações, sendo rompidos os lares de seus povos e arrasadas suas cidades; presencia o desterro de seus reis, a demolição de seus baluartes e o desmoronamento de suas instituições, sendo encoberta sua luz e atormentadas as almas de seus habitantes.
“Já veio o tempo da destruição do mundo e de seus povos”, declarou a pena profética de Bahá’u’lláh. E ainda afirma, mais especificamente: “Aproxima-se a hora em que terá aparecido a maior convulsão.” “Chegou o dia prometido, dia em que provações aflitivas surgirão sobre vossas cabeças e sob vossos pés, dizendo: - Saboreai o que vossas mãos fizeram!” – “Dentro em breve o vendaval de Seu castigo vos baterá, e o pó do inferno vos há de amortalhar.” E também: “Ao vir a hora predeterminada, haverá de aparecer subitamente o que fará tremerem os membros da humanidade.” “Aproxima-se o dia em que sua chama (a da civilização) devorará as cidades, em que a Língua da Grandeza haverá de proclamar: - O Reino é de Deus, o Onipotente, O de todos louvado!-” “Breve virá o dia”, escreveu Bahá’u’lláh, ainda, referindo-se aos insensatos da terra, “em que clamarão por socorro sem receberem resposta alguma.” “Aproxima-se o dia”, predisse também, “em que a ira do Onipotente deles se terá apoderado. Em verdade, Deus é o Todo-poderoso, o Predominante, o Supremo. Ele haverá de limpar a terra contaminada pela sua corrupção e dá-la àqueles de Seus servos que Dele se aproximarem.”

O Báb, por sua parte, afirma no Qayyúmu´l-Asmá: “Quanto aos que negam Aquele que é o sublime Portal de Deus, Nós lhes preparamos, segundo o justo decreto divino, um tormento angustioso. E Ele, Deus, é o Poderoso, o Sábio”. E ainda, “Ó povos da terra! Juro por vosso Senhor! Havereis de agir como agiram as gerações anteriores. Adverti-vos a vós próprios, pois, da terrível, da mais penosa vingança divina. Pois, em verdade, Deus é potente sobre todas as coisas”. E também: “Por Minha glória! Com as mãos de Meu poder farei que os infiéis saboreiem retribuições desconhecidas de todos menos de Mim, e sobre os fiéis farei manarem aqueles sopros perfumados de almíscar, nutridos no próprio coração de Meu trono.”
Queridos amigos! A poderosa operação deste titânico cataclismo é incompreensível a todos menos àqueles que reconheceram as Revelações de Bahá’u’lláh e do Báb. Quem Os segue, sabe donde esse cataclismo deriva, e aonde, afinal, nos haverá de conduzir. Embora não saiba a que ponto chegará, reconhece claramente sua gênese, percebe a direção que toma, admite sua necessidade, observa com confiança seus processos misteriosos, ora ardentemente pela mitigação de sua severidade, esforça-se com sabedoria a fim de lhe suavizar a fúria e, com visão inalterável, antecipa a consumação dos receios e das esperanças que deve forçosamente engendrar.


2. ESTE JUÍZO DE DEUS

Este juízo de Deus – segundo o vêem os que reconheceram em Bahá’u’lláh Seu Instrumento e maior Mensageiro na terra – não é apenas uma calamidade retribuidora; é, também, um ato de disciplina santa e suprema. É a um tempo uma visitação de Deus e um processo purificador para toda a humanidade. Seus fogos punem a perversidade da espécie humana, mas haverão de fundir suas partes componentes numa comunidade orgânica, indivisível, mundial. Nestes anos fatídicos que assinalam o término do primeiro século da Era Bahá’í, e ao mesmo tempo proclamam o início de um novo, a humanidade – segundo ordena Aquele que é seu Juiz e também seu Redentor – está sendo chamada a prestar contas de suas passadas ações e, simultaneamente, sujeita-se a uma purificação a fim de se preparar para sua futura tarefa. Não poderá escapar às responsabilidades anteriores, nem recuar das do futuro. Deus, o Vigilante, o Justo, o Amoroso, o Onisciente Ordenador, não poderá permitir, nesta Era Suprema, que os pecados de uma humanidade não regenerada permaneçam impunes, sejam eles de omissão ou de comissão, nem consentirá Ele em abandonar Seus filhos à própria sorte, negando-lhes aquela etapa beatífica e culminante em sua longa, lenta e dolorosa evolução através dos tempos, etapa esta que é seu direito inalienável como também seu verdadeiro destino.
“Despertai, ó povos”, - é por um lado a advertência ominosa do próprio Bahá’u’lláh, em antecipação dos dias da Justiça Divina – “pois já veio a hora prometida”. “Abandonando o que vós possuis, apoderai-vos daquilo que foi trazido por Deus – Aquele que faz curvar a nuca dos homens. Sabei de certo! Se não vos retirardes daquilo que cometestes, o castigo vos alcançará de todos os lados, e vereis coisas mais penosas do que vistes anteriormente”. E também: “Determinamos um tempo para vós, ó povos! Se, na hora designada, não vos volverdes para Deus, Ele, em verdade, vos apreenderá com violência e fará atacar-vos de todos os lados aflições penosas. Quão severo, de fato, o castigo com que vosso Senhor, nessa hora, vos punirá!” E também: “Deus seguramente domina as vidas dos que Nos injuriaram, e está bem consciente de suas ações. Com certeza absoluta, haverá Ele de apreendê-los por causa de seus pecados. Ele, em verdade, é o mais temível dos vingadores”. E finalmente: “ó vós, povos do mundo! Sabei, em verdade, que uma calamidade imprevista vos segue, e retribuição angustiosa vos espera. Não penseis que os atos que cometestes tenham sido apagados de Minha vista. Por Minha Beleza! Todas as vossas ações, Minha Pena as gravou em caracteres nítidos, sobre tábuas de crisólito.”
Bahá’u’lláh afirma enfaticamente, por outro lado, numa previsão do futuro feliz à espera do mundo hoje envolto de trevas: “Toda a terra se acha em estado de prenhez. Aproxima-se o dia em que terá produzido seus mais nobres frutos, em que as mais majestosas árvores, as flores mais encantadoras, as bênçãos mais celestiais dela se terão manifestado.” “Aproxima-se o tempo em que toda coisa criada terá parido. Glória a Deus, por haver Ele concedido esta graça que abrange todas as coisas, sejam vistas ou invisíveis!” “Essas grandes opressões”, escreveu Ele, ainda mais, prognosticando a Idade Áurea que espera a humanidade, “estão preparando-a para o advento da Suprema Justiça”. E, e fato, sobre esta Suprema Justiça, como base única, é que finalmente poderá, e deverá descansar a Suprema Paz, enquanto esta, a Suprema Paz, introduzirá por sua vez aquela Civilização Mundial Suprema que para todo o sempre há de ser associada Aquele designado pelo Nome Supremo.
Queridos amigos! Perto de cem anos já transcorreram desde que a Revelação de Bahá’u’lláh alvoreceu no mundo – Revelação esta, cuja natureza, assim como Ele Próprio afirma, “nenhum dentre os Manifestantes da antiguidade, salvo num grau prescrito, jamais apreendeu.” Já há um século, Deus dá trégua ao homem para que ele tenha oportunidade de reconhecer o Fundador de tão grande Revelação, esposar Sua Causa, proclamar Sua grandeza e estabelecer Sua Ordem. O Portador desta Mensagem já proclamou – como jamais o fez qualquer Profeta anterior – a Missão que Deus Lhe confiara, promulgando-a em cem volumes, todos os quais encerram preceitos de inestimável valor, poderosas leis, princípios incomparáveis e, também, apaixonadas exortações, reiteradas advertências, profecias extraordinárias, invocações sublimes e comentários notáveis. A imperadores, reis, príncipes e potentados, governantes e governos, clero e povos – quer do Oriente ou do Ocidente, cristãos, judeus, muçulmanos ou zoroástricos, dirigia Ele, por quase cinqüenta anos, e em circunstâncias as mais trágicas, aquelas preciosas pérolas de sabedoria que jaziam ocultas dentro do oceano de Sua inigualável expressão. Renunciando fama e fortuna, sofrendo prisão e desterro, indiferente ao ostracismo e opróbrio, sujeito a indignidades físicas e privações cruéis, Ele, o Vice-regente de Deus na terra, submeteu-se ao exílio de lugar em lugar, país em país, até que afinal, na Maior Prisão, ofereceu Seu filho martirizado como resgate pela redenção e unificação de toda a humanidade. “Nós, verdadeiramente”, Ele Próprio já testificou, “não faltamos em Nosso dever – o de exortar os homens e transmitir o que Me foi ordenado por Deus, o Onipotente, o Louvado de todos. Se Me tivessem escutado, teriam visto transformar-se a terra”. E também: “Restará a alguém qualquer desculpa nesta Revelação? Não, por Deus, o Senhor do Trono Poderoso! Meus sinais já envolveram a terra e Meu poder abrangeu toda a humanidade e, no entanto, os homens se deixam mergulhar num sono estranho!”


3. QUAL A RESPOSTA A SEU CHAMADO?

De que modo – bem podemos perguntar a nós mesmos – o mundo, objeto dessa solicitude divina, retribuiu Àquele que tudo sacrificou por sua causa? De que maneira foi Ele acolhido, e qual a resposta dada a Seu apelo? Com um clamor sem paralelo na história do islã xiita, foi recebida a nascente luz da Fé em sua terra natal, em meio a um povo notório por sua densa ignorância, seu feroz fanatismo, sua crueldade bárbara, seus preconceitos arraigados, e pelo predomínio ilimitado exercido sobre as massas por uma hierarquia eclesiástica firmemente entrincheirada. Uma coragem não excedida por aquela que os fogos de Smithfield evocaram – segundo atesta tão eminente autoridade como Lorde Curzon de Kedleston, - foi ateada por uma perseguição que, com trágica rapidez, ceifou nada menos de vinte milhares de seus heróicos seguidores resolvidos a não trocarem sua fé recém-nascida pela segurança e pelas honras efêmeras de uma vida mortal.
Às agonias corporais por eles sofridas, foram acrescentadas acusações inteiramente injustas, de niilismo, ocultismo, anarquia, ecletismo, imoralidade, sectarismo, heresia, partidarismo político, o que – embora cada acusação fosse refutada concludentemente não só pelos preceitos da própria Fé mas também pela conduta dos que a seguiam – aumentou, no entanto, o número dos que injuriavam sua causa, quer inconsciente, quer maliciosamente.
A pertinaz indiferença mostrada à Fé por homens proeminentes; o implacável ódio que lhe manifestaram os dignitários eclesiásticos da Fé da qual derivara; o escárneo extremo por parte do povo em cujo meio nascera; o desprezo completo com que foi tratada pela maioria daqueles reis e governantes aos quais seu Autor se dirigira; as condenações pronunciadas por aqueles sob cujo domínio a Fé primeiro surgira e se disseminara, as ameaças que fizeram e os degredos que decretaram; a interpretação errônea à qual os invejosos e malévolos sujeitaram seus princípios e suas leis, em terras e entre povos muito além do país de sua origem – tudo isto é apenas evidência do tratamento por parte de uma geração imersa na ufania, descuidada de seu Deus, e que não atende os sinais, as profecias, as advertências e as exortações reveladas pelos Seus Mensageiros.
Os pesados golpes desfechados desse modo sobre aqueles que seguiam uma Fé tão inestimável, gloriosa e possante, não lograram, porém, mitigar a animosidade que inflamava seus perseguidores. Nem foram suficientes as representações deliberadamente falsas de seus ensinamentos e objetivos fundamentais, de suas esperanças e aspirações, suas instituições e atividades, para contentar o opressor e o caluniador e lhes deter a mão; pelo contrário, por todos os meios possíveis, tentaram abolir seu nome e extirpar seu sistema. A mão que batera tão vasto número de seus amigos e humildes servos, embora todos inocentes, levantou-se agora para infligir sobre seus Fundadores os golpes mais cruéis.
O Báb – denominado por Bahá’u’lláh, “o Foco em Cujo redor gravitam as realidades dos Profetas e Mensageiros” – foi o primeiro a ser atirado na voragem que engolfou Seus apóstolos. Houve a súbita ordem de prisão mesmo no primeiro ano de Sua breve e espetacular carreira, seguida pela afronta pública infligida deliberadamente na presença dos dignitários eclesiásticos de Shiráz, e pelo estrito e prolongado encarceramento nas gélidas fortalezas das montanhas de Adhirbáyján. Notamos o desdém e o ciúme covarde mostrados respectivamente pelo magistrado chefe do reino e pelo primeiro ministro de seu governo; o interrogatório burlesco cuidadosamente preparado que se realizou na presença do herdeiro ao trono e dos eminentes eclesiásticos de Tabriz, e a vergonha inflição da bastonada na casa de oração pelas mãos dos Shaykhu´l-Islám dessa cidade. Seguiu-se, então o ato final: o de suspendê-Lo na praça do quartel de Tabriz e disparar contra Seu peito juvenil uma carga de cerca de setecentas balas na presença de uma insensível multidão de dez mil pessoas, culminando na ignominiosa exibição de Seus restos mutilados na margem do fosso além do portão da cidade. Foram estas as etapas progressivas no tumultuoso e trágico ministério Daquele Cuja Era inaugurou a consumação de todas as Eras, e Cuja Revelação cumpriu a promessa de todas as Revelações.
“Juro por Deus”, escreveu o próprio Báb, em Sua Epístola a Muhammad Sháh, “soubesses tu o que me sobreveio, no espaço destes quatro anos, nas mãos de teu povo e teu exército, conservarias suspenso teu hálito por temor a Deus... Ai, ai das coisas que a Mim tocaram! Juro pelo Senhor Supremo! Se te fosse dito em que lugar resido, a primeira pessoa a Me mostrar misericórdia serias tu próprio. No coração de uma montanha, está situada uma fortaleza (Mákú)... cujos habitantes se limitam a dois guardas e quatro cães. Imagina, pois, minha situação... Nesta montanha, permaneço só, e em tal estado que nenhum dos que Me antecederam sofreu o que eu tenho sofrido, nem qualquer transgressor suportou o que tenho suportado!”
“A que ponto estais veladas, ó Minhas criaturas!” - assim Ele, falando com a voz de Deus, revelou no Bayán – “...pois, sem direito algum, O relegastes a uma montanha cujos habitantes são indignos de menção... Não se acha com Ele, ou seja Comigo, pessoa alguma salvo aquela que é uma das Letras dos Viventes de Meu Livro. Em Sua Presença, ou seja em Minha Presença, nem sequer existe uma lâmpada à noite! E no entanto, nos lugares (de adoração), os quais se dedicam, em vários graus, à Sua busca, reluzem inúmeras lâmpadas. Tudo o que existe na terra foi criado para Ele, e todos participam com deleite de Seus benefícios, mas Dele se acham tão velados que Lhe negam até uma lâmpada!”
E que dizermos de Bahá’u’lláh, o germe de Cuja Revelação – segundo testemunha o Báb – é dotado de uma potência superior às forças reunidas da Era Bábí? Aquele por Quem o Báb sofrera e sacrificara a vida em circunstâncias tão trágicas e miraculosas – não foi Ele, durante quase meio século, e sob o domínio dos dois mais poderosos potentados do Oriente, objeto de uma conspiração sistemática dificilmente igualada – no que se refere aos seus efeitos e sua duração – nos anais das religiões anteriores?
“As crueldades que Meus opressores Me infligiram” – Ele Próprio, em Sua angústia, exclamou – “fizeram-Me curvar sob seu peso e Me embranqueceram o cabelo. Se te apresentasses ante Meu trono, não poderias reconhecer a Beleza Antiga, pois a frescura de Seu semblante se acha alterada e seu esplendor já esvaeceu, em conseqüência da opressão dos infiéis. Deus é Minha Testemunha! Dissolveram-se Seu coração, Sua alma e Sua vitalidade!” “Foste tu ouvir com Meu ouvido,” declara Ele também, “perceberias como Ali (o Báb) lamenta por Mim na presença do Companheiro Glorioso, como Maomé chora por Mim no Horizonte excelso, e como o Espírito (Jesus) se bate na cabeça, no céu de Meu decreto, por causa daquilo que sobreveio a este Injuriado, das mãos de todo pecador impiedoso.” E em outra Epístola escreve: “Diante de Mim se ergue a serpente da ira com maxilas estendidas para Me engolfar, e atrás de Mim com passo altivo vem o leão da fúria, ávido de me despedaçar, e acima de Minha cabeça, ó Meu Bem-Amado, estão as nuvens de Teu decreto, fazendo que caiam sobre Mim chuvas de tribulações, enquanto debaixo de Mim se acham fixos os dardos do infortúnio, prontos para Me ferir os membros e o corpo.” E afirma ainda: “Se te pudesse ser contado o que sucedeu à Beleza Antiga, fugirias à solidão para chorares com grande pranto. Em tua angústia te baterias na cabeça, exclamando como se tivesses sido aferretoado pelo aguilhão da víbora... Pela justiça de Deus! Toda manhã ao levantar-me do leito, eu descobria as incontáveis hostes de aflições aglomeradas atrás da Minha porta, e toda noite ao Me deitar, eis que Meu coração se dilacerava de agonia por causa daquilo que sofrera da crueldade diabólica de seus inimigos. Com cada pedaço de pão partido pela Beleza Antiga, vem o assalto de uma nova aflição, e, com cada gota sorvida, está misturada a amargura da mais lastimável das provações. Procede-a, a cada passo que dá, um exército de calamidades imprevistas, enquanto à retaguarda seguem legiões de tristezas agonizantes.”
Foi Bahá’u’lláh que, com a idade de apenas vinte e sete anos, se levantara espontaneamente, na qualidade de simples adepto, para defender a nascente Causa do Báb, e que, ao assumir a verdadeira direção de uma seita proscrita e atormentada, expôs Sua própria Pessoa, como também Seus parentes e bens, posição e nome, a graves perigos, a investidas sangrentas, à espoliação geral e às difamações furiosas tanto por parte do governo como por parte do povo. E embora fosse Portador de uma Revelação cujo Dia “cada Profeta anunciara”, pela qual “a alma de todo Mensageiro Divino tem ansiado”, e na qual “Deus pôs à prova os corações da inteira companhia de Seus Mensageiros e Profetas” – ainda que Portador de tal Revelação, Ele, à instância dos eclesiásticos xiitas e pela ordem do próprio Xá, foi aprisionado, durante quatro meses, em completa escuridão, na companhia dos piores criminosos e sob o peso de correntes esfoladoras, tendo de respirar o ar pestilencial de uma masmorra infestada de ratos, em Teerã, lugar que, segundo Ele mesmo declarou subseqüentemente, se converteu, de um modo misterioso, na própria cena do anúncio que Deus Lhe fez de Sua condição de Profeta.
Bahá’u’lláh escreveu em Sua Epístola ao Filho do Lobo: “Por quatro meses fomos relegados a um lugar horrendo além de comparação. Quanto à masmorra em que foram confinados este injuriado e outros semelhantemente injuriados, um abismo estreito e tenebroso era preferível... A masmorra estava envolta em densa escuridão, e Nossos companheiros de prisão eram umas cento e cinqüenta almas – ladrões, assassinos e salteadores. Embora encerrasse tão grande número, não havia saída, mas somente a passagem por onde entramos. Para retratar esse local, a pena falha, nem pode a língua descrever seu nauseabundo odor. A maioria desses homens não tinha vestimenta nem sequer um lençol onde se deitar. Só Deus sabe o que Nos sucedeu nesse lugar fétido e sombrio!” Segundo o escritor, Dr. J.E. Esslemont: “‘Abdu’l-Bahá conta que um dia obteve licença para entrar no pátio da prisão a fim de ver Seu querido Pai quando saísse para o exercício diário. Bahá’u’lláh estava horrivelmente mudado e tão enfermo que mal podia andar, com o cabelo e a barba em desordem, o pescoço ferido e inchado devido à pressão do pesado colar de aço, e o corpo curvado pelo peso das correntes”. “Durante três dias e três noites”, narra Nabíl em sua crônica, “não deram espécie alguma de alimento ou bebida a Bahá’u’lláh, não Lhe sendo possível nem sono nem descanso. O recinto todo estava infestado de ratos, e o fétido dessa tenebrosa morada bastava para esmagar os próprios espíritos daqueles condenados a sofrer seus horrores.” “Tal foi a intensidade de Seu sofrimento que os sinais dessa crueldade permaneceram gravados em Seu corpo durante todos os dias de Sua vida.”
E que dizermos das outras tribulações que O atingiram, não só antes como imediatamente após tão funesto episódio? Que dizermos de Seu encarceramento na casa de um dos Kad-Khudás de Teerã? Ou da violência selvagem com que foi apedrejado pelo povo iroso nas cercanias da aldeia de Níyálá? Ou de Sua prisão pelos emissários do exército do Xá em Mázindarán, e da bastonada ordenada por siyyids e mujtahids em cujas mãos fora entregue pelas autoridades civis de Amul, ordem esta executada em presença deles em assembléia? Ou dos brados de zombaria e abuso com que uma multidão de ferozes Lhe foi subseqüentemente no encalço? Ou da monstruosa acusação feita contra Ele pela Casa Imperial, pela Corte e pelo povo, na ocasião do atentado à vida do Xá Násiri´d-Dín? Que dizermos dos ultrajes infames, do abuso e escárneo amontoados sobre Ele, quando oficiais responsáveis do governo O conduziram preso de Níyávarán, “a pé e acorrentado, descalço e com a cabeça descoberta”, exposto aos raios impiedosos do sol de pleno verão, até o Síyáh-Chál de Teerã? Ou da avidez com que oficiais corruptos saquearam Sua casa, levando todas as Suas possessões e dispondo de Sua fortuna? Ou do edito cruel que veio arrancá-Lo do pequeno grupo de discípulos do Báb – perplexos, caçados e sem pastor – separando-O de parentes e amigos e, em pleno inverno, banindo-O, espoliado e difamado, para Iraque?
Embora fossem tão severas essas tribulações, sucedendo uma após outra com rapidez estonteadora, em conseqüência dos ataques premeditados e das maquinações consistentes da corte, do clero, do governo e do povo – foram, no entanto, apenas o prelúdio de um cativeiro, extenso e impressionante, iniciado formalmente por aquele edito. Prolongando-se por um período de mais de quarenta anos e levando-O sucessivamente a Iraque, Sulaymáníyyih, Constantinopla, Adianopla e, por fim, à colônia penal de ´Akká, este longo exílio terminou, afinal, com Sua morte, aos setenta e cinco anos, findando assim um cativeiro que, em seu âmbito, sua duração, e na diversidade e agudez de suas aflições, é sem paralelo na história das Eras anteriores.
Desnecessário é estendermo-nos sobre os episódios especiais que lançam uma luz nefasta sobre os anais comoventes desse período. Desnecessário é tratarmos minuciosamente do caráter e das ações dos povos, governantes e eclesiásticos que participaram deste maior drama da história espiritual do mundo e concorreram para tornar mais pungentes suas cenas.


4. FEIÇÕES DESTE DRAMA COMOVENTE

Se enumerarmos só algumas das feições que sobressaem neste drama comovedor, será o bastante para que, no leitor destas páginas já familiarizado com a história da Fé, desperte a memória daquelas vicissitudes pelas quais ela passou e que o mundo até agora olha com tão frígida indiferença. Entre estas destacamos: a obrigatória e súbita retirada de Bahá’u’lláh às montanhas de Sulaymáníyyih e as conseqüências angustiantes deste afastamento completo por dois anos; as intrigas contínuas dos expoentes do islã xiita em Najaf e Karbilá, em estreita e perpétua colaboração com os aliados na Pérsia; o aumento das medidas repressivas decretadas pelo Sultão ´Abdu´l-´Azíz, as quais levaram a seu clímax a defecção de certos membros proeminentes da comunidade em exílio; a execução de ainda outra ordem de desterro pelo mesmo sultão, esta vez para aquela longínqua e mais desolada das cidades, causando tamanho desespero que dois dos exilados tentaram suicídio. Notamos a vigilância inexorável à qual foram sujeitados, por oficiais hostis, ao chegarem em ´Akká, e o intolerável encarceramento, por dois anos, no quartel dessa cidade; o interrogatório ao qual o pashá turco submeteu seu prisioneiro, subseqüentemente, na sede do governo, e Sua prisão durante nada menos de oito anos, numa casa humilde rodeada pelo ar viciado dessa cidade, consistindo Seu recreio único em andar no estreito espaço de Seu quarto. Todas estas, bem como outras tribulações, proclamam por um lado a natureza das indignidades que sofreu e, por outro, apontam com o dedo da acusação aqueles poderosos da terra que tão penosamente O maltrataram ou que, ao menos, Lhe negaram seu socorro.
Não é de se admirar haver a Pena Daquele que suportou esta angústia com tão sublime paciência, revelado estas palavras: “Aquele que é o Senhor do visível e do invisível está agora manifesto a todos os homens. Seu abençoado Ser sofreu tal injustiça que, se todos os mares, visíveis e invisíveis, se convertessem em tinta, e tudo o que existe no reino se transformasse em penas, e todos os que estão nos céus e na terra se fizessem escribas, não lograriam, certamente, registrá-lo.” E também: “Durante a maior parte de Minha vida tenho Eu estado, assim como um escravo, sentado sob uma espada suspensa por um fio, não sabendo se cedo ou tarde cairia sobre ele.” E afirma ainda: “Tudo o que esta geração Nos poderia oferecer, foram feridas provenientes de seus dardos, e a única taça com que brindaram Meus lábios foi a taça de seu veneno. Em nosso pescoço temos ainda a marca das correntes, e sobre Nosso corpo se acham gravadas as evidências de uma crueldade inexorável.” “Passaram-se vinte anos, ó Reis,” escreveu Ele, dirigindo-se aos reis da cristandade, no auge de Sua missão, “durante os quais temos, cada dia, experimentado a agonia de uma nova tribulação. Nenhum dos que Nos antecederam suportou as coisas que Nós temos suportado. Oxalá pudésseis percebê-lo! Os que contra Nós se levantaram, mataram-nos, derramaram Nosso sangue, espoliando Nossas propriedades e violando Nossa honra. Embora cientes da maior parte de Nossas aflições, vós, no entanto, não detivestes a mão do agressor. Pois não é claramente vosso dever restringir a tirania do agressor, e tratar vossos súditos com equidade, a fim de que vosso alto sentido de justiça seja plenamente demonstrado a todos os homens?”
Qual governante, seja do Oriente ou do Ocidente – podemos perguntar com confiança – em qualquer ocasião desde o alvorecer de tão transcendente Revelação, se dispôs a levantar a voz para elogiá-la ou para repreender aqueles que a perseguiam? Qual o povo que, no percurso de tão longo cativeiro, se achou constrangido a erguer-se e estancar o fluxo de tamanhas tribulações? Qual o soberano, excetuando-se uma só mulher, radiosa em glória solitária, que se sentisse impelido a responder ao chamado percuciente de Bahá’u’lláh? Quem dentre os grandes da terra inclinou-se a outorgar, à recém-nascida Fé Divina, o benefício de seu reconhecimento ou apoio? Qual das multidões de credos, seitas, raças, partidos e classes, e das altamente diversificadas escolas do pensamento humano, considerou que fosse necessário dirigir o olhar para a nascente luz da Fé, contemplar seu sistema enquanto evoluía, ponderar seus processos ocultos, avaliar sua poderosa mensagem, reconhecer seu poder regenerador, abraçar sua verdade salutífera ou proclamar suas realidades eternas? Quem dentre aqueles versados nos conhecimentos do mundo, os chamados homens de percepção e sabedoria, pode afirmar com justiça – após haver decorrido quase um século – que tenha aprovado desinteressadamente seu tema ou visto com imparcialidade suas pretensões, que haja feito esforços suficientes para se aprofundar em sua literatura, empenhando-se assiduamente em separar os fatos da ficção, ou que tenha dedicado à sua Causa o tratamento merecido? Onde estão os que se sobressaem no campo das artes ou no das ciências – excetuando-se apenas poucos casos isolados – que tenham levantado o dedo, ou sussurrado uma palavra em defesa ou em elogio de uma Fé que proporcionou ao mundo tão inestimável benefício, sofreu por tanto tempo e tão intensamente, e encerra em seu âmago tão extasiante promessa para um mundo assim atribulado, de tal maneira lastimável e tão manifestamente falido?
Ao sempre montante fluxo de provações que acabrunhou o Báb, às prolongadas calamidades que choveram sobre Bahá’u’lláh, às advertências expressas tanto pelo Arauto como pelo Autor da Revelação Bahá’í, devemos acrescentar os sofrimentos pelos quais passou ‘Abdu’l-Bahá por nada menos de setenta anos, bem como Suas exortações e súplicas expressas no anoitecer de Sua vida relativas aos perigos que ameaçavam cada vez mais a humanidade inteira ‘Abdu’l-Bahá nasceu no ano exato em que testemunhou a etapa incipiente da Revelação Babí, sendo batizado com os fogos iniciais de perseguição que se enfureciam em volta dessa Causa ainda na infância; foi testemunha ocular, quando menino de oito anos, das violentas comoções que abalavam a Fé esposada pelo Seu Pai, com quem participou da ignomínia, dos perigos e dos rigores conseqüentes dos sucessivos desterros de Sua pátria para países muito além de seus confins; foi preso e forçado a suportar, numa cela sombria, a indignidade do encarceramento logo após Sua chegada em ´Akká, sendo objeto de repetidas investigações, alvo de ataques e afrontas incessantes sob o domínio despótico do Sultão ´Abdu´l-Hamíd e, mais tarde, sob a inexorável ditadura militar do suspeitoso e cruel Jamál Pashá. Assim também ‘Abdu’l-Bahá, Centro e Pivô do incomparável Convênio de Bahá’u’lláh e perfeito Exemplar de Seus Ensinamentos, teve de sorver o cálice da tribulação oferecido pelas mãos dos potentados, eclesiásticos, governos e povos – o mesmo cálice angustiante que fora sorvido pelo Báb e por Bahá’u’lláh, como também por muitos daqueles que Os seguiam.
Os que trabalham pela divulgação da Fé de Seu Pai no mundo ocidental bem conhecem as advertências procedentes da Pena de ‘Abdu’l-Bahá e de Sua voz, em Epístolas e discursos sem conta, durante a prisão de quase a vida toda, e no percurso de Suas extensas viagens no continente europeu como também no norte-americano. Quão freqüente e fervorosamente apelava Ele às autoridades, e ao público em geral, para que examinassem com imparcialidade os preceitos enunciados pelo Seu Pai! Com quanta precisão, e com que ênfase, desdobrou o sistema da Fé de que era expositor, elucidando-lhe as verdades fundamentais, frisando-lhe as feições distintivas, e proclamando o caráter redentivo de seus princípios! Com quanta insistência prognosticou Ele o caos que ameaçava, os distúrbios que se aproximavam, a conflagração universal que, nos últimos anos de Sua vida, apenas começava a revelar o âmbito de sua força e o que significaria seu impacto sobre a sociedade humana!
Sendo assim, pois, co-participante dos lastimáveis sofrimentos e das frustrações momentâneas que afligiram ao Báb e a Bahá’u’lláh; fazendo durante a vida uma colheita desproporcional a Seus esforços sublimes, árduos e incessantes; sentindo as perturbações iniciais da catástrofe mundial à espera de uma humanidade descrente; curvado de velhice, com os olhos ofuscados pela tempestade iminente, em conseqüência do mau acolhimento que uma geração sem fé dera à Causa de Seu Pai, e com o coração dilacerado ao avistar o destino imediato dos refratários filhos de Deus - ‘Abdu’l-Bahá sucumbiu, afinal, sob o peso de tribulações infligidas a Ele, justamente como a Seus predecessores, por aqueles que seriam chamados, muito breve, a um juízo temível.
“Apressa, ó meu Deus!” – exclamou Ele numa ocasião em que a adversidade O assediara penosamente – “os dias de minha ascensão a Ti, de minha ida para diante de Ti, de minha entrada em Tua Presença, a fim de que eu seja libertado das trevas da crueldade da qual sou vítima, e possa penetrar na atmosfera luminosa de Tua proximidade, ó meu Senhor, o Todo-Glorioso, e repousar à sombra de Tua grande misericórdia.” “Yá-Bahá´u´l-Abhá (Ó Tu, a Glória das Glórias)!” – Ele escreveu numa Epístola revelada durante a última semana de Sua vida – “Renunciei o mundo e seu povo, e meu coração está aflito e dilacerado por causa dos infiéis. Na gaiola deste mundo inquieto-me, assim como um pássaro assustado, e todo dia anseio pela liberdade de voar para Teu Reino. Yá-Bahá´u´l-Abhá! Faze-me sorber o cálice do sacrifício, e põe-me em liberdade. Livra-me destas tribulações e angústias, destes sofrimentos e dificuldades.”
Queridos amigos! Que lástima, mil vezes que lástima, uma Revelação de tão incomparável grandeza, infinito valor e tremenda potência, e tão claramente inócua, ter recebido, das mãos de uma geração tão cega e perversa, esse infame tratamento! “Ó Meus servos!” – assim o próprio Bahá’u’lláh dá testemunho – “Deus Uno e Verdadeiro é Minha Testemunha! Este oceano mais grandioso, insondável e encapelado, está perto, espantosamente perto, de vós. Vede, está mais próximo do que vossa veia vital! Celeremente, como um abrir e fechar de olhos, podereis – se apenas assim desejardes – atingir este favor imperecível, participar desta graça concedida por Deus, desta dádiva incorruptível, desta mercê potentíssima e indizivelmente gloriosa.”


5. UM MUNDO QUE DELE SE AFASTOU

Após o decurso de quase cem anos, com que deparam nossos olhos ao se dirigirem à cena internacional e ao verem, em retrospecto, os primórdios da história Bahá’í? Um mundo convulsionado pelas angústias da contenda entre sistemas, raças e nações, enredado na malha de suas falsidades acumuladas, afastando-se cada vez mais Daquele que é o Autor único de seus destinos, e abismando-se mais e mais profundamente numa carnificina suicida precipitada pelo seu desprezo e pela sua perseguição Àquele que é seu Redentor; e, por outro lado, uma Fé, ainda proscrita, mas que já rompe a crisálida, emergindo da obscuridade de uma repressão secular, e presenciando as terríveis evidências da ira de Deus, enquanto se aproxima de seu destino – o de se erguer acima das ruínas de uma civilização desmoronada. Apresenta-se um mundo desvalido espiritualmente, em estado de bancarrota moral, de desintegração política e convulsão social, economicamente paralisado, agonizante, sangrento, quebrando sob a vara vingativa de Deus; e vemos uma Fé cujo chamado continua desatendido, cuja mensagem foi rejeitada, e cujas advertências encontraram apenas escárneo; uma Fé que viu seus adeptos trucidados, seus objetivos e propósitos pervertidos e seu apelo aos governantes da terra recebido com menosprezo; uma Fé Cujo Arauto sorveu o cálice do martírio, sobre a cabeça de Cujo Autor se enfureceu um mar de tribulações inauditas e Cujo Expoente sucumbiu sob o peso dos desmedidos infortúnios e tristezas que sofrera por toda a vida. Apresenta-se um mundo desorientado, onde a brilhante chama da religião rapidamente se esvaece, enquanto as forças de um nacionalismo e um racismo estrepitosos usurpam os direitos e prerrogativas do próprio Deus; onde um secularismo flagrante – nascido diretamente da irreligião – ergue sua cabeça triunfadora, salientando-se suas feições repulsivas; um mundo em que a “majestade de rei” foi desonrada e os que se revestiam de seus emblemas foram, em sua maior parte, lançados de seus tronos, enquanto as hierarquias eclesiásticas do islã, outrora predominantes, e, em grau menor, as do cristianismo, caíram em descrédito; um mundo em que o vírus do preconceito e da corrupção está carcomendo as vísceras de uma sociedade já gravemente desordenada. E vemos uma Fé cujas instituições – padrão e glória culminante da era que há de vir – têm sido alvo de desprezo, sendo, em alguns casos, espezinhadas e destruídas, e cujo sistema, em vias de evolução, sofreu escárneo e foi em parte danificado e supresso; cuja Ordem nascente – único refúgio de uma civilização nos braços do destino – foi objeto de desdém e de desafio; cujo Templo-Matriz foi apreendido e desapropriado, e cuja “Casa” – “centro de atração de um mundo devoto” – por uma vergonhosa falha da justiça, assim como testemunhou o mais alto tribunal do mundo, foi entregue às mãos de seus inimigos implacáveis e por eles violada.
Vivemos numa era que, de fato – se fôssemos avaliá-la devidamente -, seria considerada testemunha ocular de um fenômeno dual. O primeiro assinala a última agonia de uma ordem gasta e atéia, que se recusou obstinadamente – apesar dos sinais e portentos de uma Revelação secular – a pôr seus processos em harmonia com os preceitos e ideais que lhe oferecera aquela Fé enviada do céu. O segundo proclama o nascimento doloroso de uma Ordem divina e redentora, destinada inevitavelmente a substituir a primeira, e dentro de cuja estrutura administrativa uma civilização embrionária, incomparável e de âmbito mundial, está amadurecendo, embora ainda de modo imperceptível. A primeira ordem está sendo posta de lado, ruindo em opressão, carnificina e destruição. A outra aponta o caminho para uma justiça, uma união, uma paz, uma cultura como jamais foram vistas por qualquer época anterior. A primeira já despendeu suas forças, demonstrou sua falsidade e sua esterilidade, perdeu irreparavelmente sua oportunidade e precipita-se para seu calamitoso fim. A segunda, viril e invencível, está rompendo suas correntes e reivindicando seu título de ser o refúgio único dentro do qual uma humanidade, de há muito alvo de perseguições mas, afinal, purificada de sua escória, possa atingir seu destino.
“Em breve,” profetizou o próprio Bahá’u’lláh, “se haverá posto de lado a Ordem atual e em seu lugar uma nova desdobrar-se-á”. E também: “Por meu próprio Ser! Aproxima-se o dia no qual teremos enrolado o mundo e tudo o que nele se acha, e desdobrando uma Nova Ordem em seu lugar”. Aproxima-se o dia no qual Deus terá feito levantar-se um povo que se lembre de Nossos dias, conte a história de Nossas provações e exija a restituição de Nossos direitos por aqueles que, sem partícula alguma de evidência, nos trataram com injustiça manifesta.”
Queridos amigos! Quanto às provações que afligiram a Fé introduzida por Bahá’u’lláh, uma responsabilidade assombrosa e inescapável cai sobre aqueles em cujas mãos foram entregues as rédeas da autoridade civil e eclesiástica. Tanto os reis da terra como os dirigentes religiosos do mundo, primariamente, haverá de encarar tão terrível responsabilidade. “Cada um bem sabe” – o próprio Bahá’u’lláh dá testemunho – “que todos os reis se afastaram Dele e todas as religiões Lhe fizeram oposição”. E declara: “Desde tempos imemoriais, os exteriormente investidos da autoridade têm impedido os homens e volverem a face para Deus. Não gostaram que os homens se reunissem em volta do Oceano Mais Grandioso, pois vieram a considerar, e ainda consideram que, assim fazendo, causariam a desintegração de sua soberania”, “Os reis,” escreve Ele, ainda mais, “reconheceram que não era de seu interesse admitir Minha declaração, como também os ministros e os sacerdotes, muito embora Meu propósito se tenha revelado do modo mais explícito nos Livros e Epístolas Divinas, e o Verdadeiro tenha proclamado haver esta Revelação Suprema aparecido a fim de melhorar o mundo e exaltar as nações.” “Deus Misericordioso!” escreve o Báb no Dalá´il-i-Sab´ih (Sete Provas) com referência aos “sete poderosos soberanos que regem o mundo” em Seu dia, “Nenhum deles foi informado de Sua Manifestação (do Báb) e, se informado, Nele não acreditou. Quem sabe, eles podem deixar este mundo inferior cheios de desejo e sem terem percebido que já se realizara o que esperavam. Foi o que aconteceu aos monarcas que se prenderam ao Evangelho. Embora esperassem a vinda do Profeta de Deus (Maomé), quando Ele apareceu, não O reconheceram. Vede que grandes somas despenderam esses soberanos, sem ao menos pensarem incumbir um oficial da tarefa de lhes tornar conhecido em seus domínios o Manifestante de Deus! Teriam assim cumprido o fim para que foram criados. Todos os seus desejos concentraram-se, e ainda se concentram, em deixar atrás de si traços de seus nomes”. O Báb, além disso, no mesmo tratado, censurando os sacerdotes cristão por não haverem admitido a verdade da missão de Maomé, faz esta afirmação iluminadora: “A culpa recai sobre seus doutores, pois tivessem estes acreditado, teriam sido seguidos pela generalidade de seus compatriotas. Vede, pois, o que sucedeu! Os sábios do cristianismo são assim considerados em virtude de salvaguardarem os ensinamentos de Cristo, e vede, no entanto, como eles próprios têm sido a causa de os homens deixarem de aceitar a Fé e atingir a salvação!”


6. OS RECEPTORES DA MENSAGEM

Não se deve esquecer de que foi aos reis da terra e dirigentes religiosos do mundo, acima de todas as demais categorias de homens, que tanto o Báb como Bahá’u’lláh dirigiram Sua Mensagem. Em numerosas e históricas Epístolas, foram eles deliberadamente convocados para responder ao chamado de Deus, e a eles se destinaram, em linguagem clara e enfática, os apelos, as admoestações e as advertências de Seus Mensageiros, alvos de tanta perseguição. E, quando a Fé nasceu e, mais tarde, ao ser proclamada sua missão, foram eles, ainda, em sua maior parte, que exerciam autoridade civil e eclesiástica sobre seus súditos e adeptos, de um modo inquestionável e absoluto. E esses dirigentes seculares e religiosos – quer gloriando-se da pompa e do fausto de uma realeza ainda pouco sujeita a limitações constitucionais, quer entrincheirados nas cidadelas de um poder eclesiástico aparentemente inviolável – foram os que assumiram a responsabilidade final por qualquer injúria de que fossem autores aqueles cujos destinos imediatos eles controlavam. Não seria exagero dizermos que, na maioria dos países dos continentes da Europa e da Ásia, o absolutismo por um lado e, por outro, a completa subordinação às hierarquias eclesiásticas, eram ainda as características sobressalentes da vida política e da vida religiosa das massas. E a estas, assim sujeitas a esse predomínio, assim acorrentadas, não era permitida a liberdade necessária para que pudessem avaliar as pretensões e os méritos da Mensagem que lhes fora oferecida, ou abraçar, sem reservas, sua verdade.
Não é de se admirar, pois, haverem o Autor da Fé Bahá’í e, em grau menor, seu Arauto, dirigido aos supremos governantes civis e religiosos do mundo a plena força de Suas Mensagens, enviando-lhes algumas de Suas Epístolas mais sublimes e, em linguagem a um tempo clara e insistente, convidando-os a atender ao Seu chamado. Não é de se admirar haverem Eles se empenhado em lhes aclarar as verdades de Suas respectivas Revelações, e se estendido sobre Suas tribulações e Seus sofrimentos. Não devemos admirar que Eles tivessem acentuado o inestimável valor das oportunidades ao alcance desses governantes, e os advertido, em tons agourentos, das graves responsabilidades que a rejeição da Mensagem de Deus acarretaria, predizendo-lhes, ao serem negados e sujeitados, as temíveis conseqüências de tal rejeição. Não devemos admirar que Aquele Rei dos Reis, Vice-regente do próprio Deus, ao ser abandonado, condenado e perseguido, tivesse pronunciado essa epigramática e momentosa profecia: “O poder foi tirado destas duas categorias dentre os homens: reis e eclesiásticos”.
Quanto aos reis e imperadores que não só simbolizavam em suas pessoas a majestade do domínio terreno, mas que, em sua maior parte, exerciam inatacável autoridade sobre as multidões de seus súditos, sua relação com a Fé introduzida por Bahá’u’lláh constitui um dos episódios mais iluminadores da história das Épocas Heróica e Formativa desta Fé. O Chamado Divino que abrangia dentro de seu âmbito tão grande número das cabeças coroadas não só da Ásia mas também da Europa; o tema e a linguagem das Mensagens que os puseram em contato direto com a Fonte da Revelação de Deus; a natureza de sua reação a tão estupendo impacto; e os resultados que se seguiram, e ainda hoje podem ser verificados – tudo isto – são as feições salientes de um assunto em que eu posso apenas inadequadamente tocar, mas do qual futuros historiadores Bahá’ís tratarão de um modo completo e digno.
O imperador dos franceses, Napoleão II, o mais poderoso governante de seu tempo no continente europeu; o Papa Pio IX, cabeça suprema da mais alta igreja da Cristandade e possuidor do cetro da autoridade temporal bem como espiritual; o onipotente tzar do vasto Império Russo, Alexandre II; a célebre Rainha Vitória, cuja soberania se estendia sobre a maior combinação política jamais vista pelo mundo; Guilherme I, Conquistador de Napoleão III, Rei da Prússia e recém-aclamado monarca de uma Alemanha unificada; Francisco José, autocrático rei-imperador da monarquia austro-húngara, herdeiro do afamado Santo Império Romano; o tirânico ´Abdu´l-Azíz, que incorporava todo o poder do qual foram investidos o sultanato e o califado; o notório Xá Násiri´d-Din, despótico governante da Pérsia e o supremo potentado do islã xiita – numa palavra, a maioria das proeminentes personificações do poder e da soberania em Seu tempo, foi, uma pós outro, objeto da especial atenção de Bahá’u’lláh, e teve de sustentar, em vários graus, o peso da força comunicada por Seus apelos e Suas advertências.
Devemos nos lembrar, entretanto, que Bahá’u’lláh não transmitiu Sua Mensagem exclusivamente a alguns soberanos individuais, por mais potentes que fossem seus respectivos cetros e vastos os domínios por eles governados. A todos os reis da terra, coletivamente, Sua Pena se dirigiu, apelando e advertindo, num tempo em que a estrela de Sua Revelação subia ao zênite, e enquanto Ele se achava preso nas mãos de Seu inimigo real, nas cercanias da corte deste. Numa Epístola memorável, designado o Súriy-i-Múluk (Súrih dos Reis), na qual foram especificamente mencionados e advertidos o próprio Sultão e seus ministros, os reis da cristandade, os embaixadores franceses e persas acreditados junto ao Sublime Porte, os principais eclesiásticos muçulmanos em Constantinopla, como também seus sábios e habitantes, o povo da Pérsia e os filósofos do mundo, Ele assim dirige Suas palavras à inteira companhia dos monarcas do Ocidente e do Oriente:


7. EPÍSTOLAS AOS REIS

“Ó Reis da Terra! Daí ouvidos à Voz de Deus, chamando desta Árvore sublime, cheia de frutos, que brotou da Colina Carmesim, sobre a Planície santa, entoando as palavras: - Não há outro Deus senão Ele, o Grande, o Todo-Poderoso, o Onisciente - ...Temei a Deus, ó assembléia dos reis, e não vos deixeis ser privados desta mais sublime graça. Rejeitai, pois, as coisas que possuis, e segurai-vos ao Amparo de Deus, o Excelso, O Grande. Volvei vossos corações para a Face de Deus e abandonai aquilo que vossos desejos vos tem mandado seguir, e não sejais dos que perecem. Relata-lhes, ó servo, a história de ´Alí (o Báb) quando Ele lhes veio com a verdade, trazendo Seu Livro glorioso e ponderado, segurando nas mãos um testemunho e uma prova concedida por Deus, e emblemas santos, benditos, por Ele enviados. Vós, porém, ó reis, deixastes de atender à lembrança de Deus em Seus dias e de ser guiados pelas luzes surgidas, brilhantes, por cima do horizonte do Céu esplendoroso. Não examinastes Sua Causa, mas se assim tivésseis feito, isso teria sido melhor do que tudo aquilo sobre o qual o sol brilha – pudésseis apenas perceber isto. Vós vos mantivestes indiferentes até que os sacerdotes da Pérsia – aqueles cruéis – pronunciaram sentença contra Ele e injustamente O trucidaram. Seu espírito ascendeu a Deus, e os olhos dos moradores do Paraíso e dos anjos próximos Dele prantearam por causa dessa crueldade. Guardai-vos de descuidar doravante, assim como tendes descuidado até agora. Voltai-vos, pois, para Deus, vosso Criador, e não sejais dos desatentos... Meu semblante saiu de trás dos véus e irradiou seu esplendor sobre tudo o que está no céu e na terra; e, no entanto, não Lhe volvestes a face, embora para Ele fosseis criados, ó assembléia de reis! Segui, pois, o que vos falo, e escutai-o com vossos corações, e não sejais dos que se desviaram. Porque vossa glória não consiste em vossa soberania, mas, antes, em vossa proximidade de Deus e em vossa obediência a Seu mandamento que baixou do céu em Suas Santas Epístolas preservadas. Se alguém de vós tivesse domínio sobre toda a terra, sobre tudo o que se acha dentro dela e sobre ela, seus mares, seus países, suas montanhas e suas planícies, mas, no entanto, não fosse lembrado por Deus, tudo isso proveito algum lhe traria – se apenas pudésseis saber isto... Levantai-vos, pois, e fazei firmes vossos pés e, em compensação por aquilo que vos escapou, dirigir-vos à Sua Santa Corte, à beira de Seu grandioso oceano, a fim de que as pérolas do conhecimento e da sabedoria guardadas por Deus na concha de Seu coração radiante, se vos possam revelar... Guardai-vos de impedir que os sopros de Deus emanem sobre vossos corações – sopros através dos quais se animam os corações dos que para Ele se volveram...”
“Não ponhais de lado o temor a Deus, ó reis da terra” – revelou Ele na mesma Epístola – “e guardai-vos de transgredir os limites fixados pelo Todo-Poderoso. Observai as injunções que vos foram impostas em Seu Livro, e acautelai-vos para que não ultrapasseis seus confins. Sede vigilantes, para não fazerdes injustiça a pessoa alguma, nem que seja nos limites de um grão de mostarda. Trilhai a vereda da justiça, pois esta, em verdade, é o caminho certo. Ajustai vossas diferenças e reduzi vossos armamentos, a fim de que seja diminuído o peso de vossos desembolsos, e vossas mentes e corações se possam tranqüilizar. Saneai as dissensões que vos dividem, e não mais necessitareis de armamentos, salvo o que for exigido para a proteção de vossas cidades e vossos territórios. Temei a Deus e guardai-vos de exceder os limites da moderação e ser incluídos no número dos extravagantes. Fomos informados de que aumentais vossos gastos cada ano e pondes o peso disso sobre vossos súditos. É, em verdade, mais do que podem suportar, e é uma injustiça lamentável. Tomai decisões justas entre os homens; sede entre eles os emblemas da justiça. Isso, se julgardes eqüitativamente, é a coisa que vos convém, que é digna de vossa posição.
“Guardai-vos de tratar de um modo injusto a quem vos fizer apelo ou buscar amparo à vossa sombra. Segui o caminho do temor a Deus, e sede dos que têm uma vida piedosa. Não dependais de vosso poder, nem de vossos exércitos e tesouros. Ponde toda a vossa confiança e Deus, que vos criou, e buscai Sua assistência em tudo. Somente Dele vem socorro. Ele ajuda a quem Lhe aprouver, com as hostes dos céus e da terra.
“Sabei que os pobres são a incumbência de Deus em vosso meio. Cuidai de não trairdes Sua incumbência, não os tratando com injustiça ou seguindo os caminhos dos traiçoeiros. Havereis, certamente, de responder por Sua incumbência, no dia em que for ajustada a Balança da Justiça, no dia em que cada um receberá o que merece, e se pesarão os atos de todos os homens, sejam ricos ou pobres.
“Se não atenderdes aos conselhos que Nós vos revelamos nesta Epístola, em linguagem incomparável e inequívoca, o castigo divino haverá de vos atacar de todos os lados, e a sentença de Sua justiça será pronunciada contra vós. Naquele dia, não tereis poder de Lhe resistir, e reconhecereis vossa própria impotência. Tende compaixão de vós próprios e daqueles sob o vosso domínio e julgai entre eles segundo as normas prescritas por Deus em Sua sacratíssima e excelsa Epístola – Epístola na qual Ele designou para cada coisa sua medida fixa, e deu com clareza uma explicação de todas as coisas, e que, em si, é uma advertência aos que Nele crêem.
“Examinai Nossa Causa, informando-vos das coisas que Nos aconteceram e decidindo com justiça entre Nós e Nossos inimigos, e sede dos que tratam seu próximo com eqüidade. Se não detiverdes a mão do opressor, se deixardes de salvaguardar os direitos dos oprimidos, que razão, pois, tereis de vos ufanar entre os homens? De que tendes o direito de vos jactar? Será de vosso alimento e vossa bebida que vos orgulheis, das riquezas que acumulais em vossos tesouros, ou da variedade e do valor dos ornamentos com que vos adornais? Fosse a glória verdadeira consistir na posse de coisas tão perecedoras, então a terra onde andais e deveria vangloriar sobre vós, pois é ela que vos supre e concede essas coisas, segundo o decreto do Todo-Poderoso. Nas entranhas da terra está contido tudo o que vós possuis, de acordo com o mandamento de Deus. Dela, como sinal de Sua misericórdia, extraís vossas riquezas. Vede, pois, vosso estado, a coisa de que vos gloriais! Oxalá pudésseis perceber isso! Não, por Aquele que segura na mão o domínio da criação inteira! Em parte alguma reside vossa glória verdadeira e durável, senão em vossa firme adesão aos preceitos de Deus, vossa obediência cordial às Suas leis, vossa resolução de não permitir que elas permaneçam sem efeito, e de seguir fielmente o caminho certo...”.
E também nessa mesma Epístola: “Passaram-se vinte anos, ó reis, durante os quais provamos cada dia a agonia de uma nova tribulação. Nenhum de Nossos antecessores suportou o que Nós temos suportado. Oxalá pudésseis perceber isso! Os que contra Nós se levantaram, Nos têm trucidado, derramando Nosso sangue, espoliando-Nos dos bens e violando Nossa honra. Vós, no entanto, embora cientes da maior parte de Nossas aflições, não detivestes a mão do agressor. E não é claramente vosso dever reprimir a tirania do opressor e tratar com eqüidade vossos súditos, a fim de demonstrar plenamente a toda a humanidade vosso alto sentido de justiça?
“Deus entregou às vossas mãos as rédeas do governo do provo para que o possais reger com justiça, salvaguardando os direitos dos espezinhados e punindo os malfeitores. Se descuidardes do dever que Deus vos prescreveu em Seu Livro, vossos nomes serão incluídos entre os daqueles que, a Seu ver, são injustos. Lastimável, de fato, será vosso erro. Quereis aderir àquilo tramado pelas vossas próprias imaginações, repelindo os mandamentos de Deus, o Excelso, o Inatingível, o Predominante, o Todo-Poderoso? Renunciando o que vós possuís, segurai-vos àquilo que Deus vos mandou observar. Sua graça é o que deveis buscar, pois quem a busca trilha Sua Vereda reta.
“Considerai Nosso estado atual, vede Nossas vicissitudes e provações, e não deixeis de Nos atender, nem que seja por um momento, e julgai com eqüidade entre Nós e Nossos inimigos. Isso vos será, seguramente, uma vantagem manifesta. Assim Nós vos relatamos Nossa história e narramos o que Nos sucedeu, a fim de que Nos possais atenuar as injúrias e reduzir o peso das aflições. Quem queira que Nos alivie de Nossas tribulações, e quanto àquele que não deseja fazê-lo, meu Senhor é, com toda a certeza, o Melhor Amparo.
“Adverte e informa o povo, ó Servo, daquilo que Nós fizemos descer a Ti, e não permitas que o medo de pessoa alguma Te acabrunhe, e não sejas dos que vacilam. Aproxima-se o dia em que Deles terá enaltecido Sua Causa e glorificado Seu testemunho aos olhos de todos os que estão nos céus e todos os que estão na terra. Em todas as circunstâncias, põe Tua inteira confiança em Teu Senhor; Nele fixa Teu olhar e afasta-Te de todos os que rejeitam Sua verdade. Que Deus, Teu Senhor, seja Teu socorro suficiente, Teu Amparo. Comprometemo-Nos a assegurar Teu triunfo na terra e exaltar Nossa Causa acima de todos os homens, ainda que não seja encontrado rei algum disposto a volver a face para Ti...”
No Kitáb-i-Aqdas (O Livro Sacratíssimo) – neste tesouro de inestimável valor, que encerra para sempre as mais brilhantes emanações da mente de Bahá’u’lláh, a Carta de Sua Ordem Mundial, o mais importante repositório de Suas leis, o Precursor de Seu Convênio, a Obra essencial que contém algumas de Suas mais nobres exortações, mais ponderosas declarações e profecias agourentas – Livro este revelado quando Suas tribulações estavam no auge e os governantes da terra O haviam definitivamente abandonado – neste Livro lemos o seguinte:
“Ó reis da terra! Já veio Aquele que é o Senhor soberano de todos. O Reino é de Deus, o onipotente Protetor, O que subsiste por Si Próprio. A ninguém adoreis senão a Deus e, com corações radiantes, erguei a face ao Senhor – Senhor de todos os nomes. Esta é uma Revelação com a qual nenhuma de vossas possessões jamais será comparável – pudésseis apenas saber isso. Vemos quanto vos regozijais naquilo que tendes amontoado de outrem, enquanto vos excluís dos mundos que somente Minha Epístola Guardada pode avaliar. Os tesouros que acumulastes vos tem desviado muito de vosso objetivo final. Isso mal vos convém – se apenas pudésseis compreender. Limpai vossos corações de toda corrupção terrena e apressai-vos a entrar no Reino de vosso Senhor, Criador da terra e do céu, que fez tremer o mundo e gemerem todos os seus povos, menos aqueles que renunciaram todas as coisas e aderiram àquilo ordenado pela Epístola Oculta...”


8. REVELADA A MAIOR LEI

E ainda: “Ó reis da terra! A Maior Lei foi revelada neste Lugar, nesta cena de transcendente esplendor. Tudo oculto veio à luz segundo a Vontade do Ordenador Supremo, Aquele que anunciou a Hora Final, através de Quem a Lua se rachou e todo decreto irrevogável foi exposto.
“Sois apenas vassalos, ó reis da terra! Aquele que é o Rei dos Reis apareceu, adornado de Sua glória, a mais maravilhosa, e vos convoca a Ele Mesmo, o Amparo no Perigo, O que subsiste por Si Próprio. Acautelai-vos para que o orgulho não vos detenha de reconhecer a Fonte da Revelação, nem as coisas deste mundo vos excluam, como se o fosse por um véu, Daquele que é o Criador do céu. Levantai-vos e servi Aquele que é o Desejo de todas as nações, que vos criou por uma palavra Sua e ordenou que fosseis, para todo o sempre, os emblemas de Sua soberania.
“Pela retidão divina! Não é Nosso desejo apoderarmo-nos de vossos reinos. É Nossa missão capturarmos e possuirmos os corações dos homens. Nestes é que Bahá fita os olhos. Disso dá testemunho o Reino dos Nomes – pudésseis apenas compreendê-lo. Quem ouve seu Senhor, há de renunciar ao mundo e a tudo o que nele se acha; quanto maior, pois, deve ser o desprendimento daquele que ocupa tão augusta posição! Abandonai vossos palácios e apressai-vos para que sejais admitidos a Seu Reino. Em, verdade, isto vos será proveitoso tanto neste mundo como no vindouro. O Senhor do reino nas alturas dá testemunho disso – se apenas o soubésseis.
“Quão grande ventura espera o rei que levantar a fim de promover Minha Causa em Meu Reino, desprendendo-se de tudo menos de Mim. Tal rei é contado entre os companheiros do Arco Rubro, Arco este que Deus preparou para o povo de Bahá. Todos lhe devem glorificar o nome, reverenciar a posição e prestar auxílio em abrir as cidades com as chaves de Meu Nome, onipotente Protetor de todos os que habitam os reinos visíveis e invisíveis. Tal rei é a própria vista da humanidade, o luminoso ornamento na fronte da criação, manancial de bênçãos para o mundo inteiro. Oferecei, ó povo de Bahá, vossa substância, ainda mais, vossa própria vida, em seu auxílio.”
E também, esta acusação evidente no mesmo Livro: “Nós nada pedimos de vós. Por amor a Deus, em verdade, vos exortamos, e seremos pacientes assim como temos sido pacientes naquilo que Nos sucedeu em vossas mãos, ó assembléia de reis!”
Além disso, em Sua Epístola à Rainha Vitória, Bahá’u’lláh nas seguintes palavras se dirige a todos os reis da terra, convocando-os a aderir à Paz Menor em distinção à Paz Maior, Paz esta a ser proclamada e, afinal, estabelecida, só por aqueles que possuem pleno conhecimento do poder de Sua Revelação e professam abertamente os preceitos de Sua Fé:
“Ó reis da terra! Nós vos vemos aumentardes, todo ano, vossas despesas, o peso das quais pondes sobre vossos súditos. Isso, em verdade, é inteira e vergonhosamente injusto. Temei os suspiros e as lágrimas deste Injuriado e não ponhais encargos excessivos sobre vossos povos. Não os roubeis a fim de erguerdes palácios para vós próprios; não, antes, escolhei para eles o que escolheis para vós mesmos. Assim desdobramos ante vossos olhos o que vos é proveitoso – se apenas o percebêsseis. Vossos povos são vosso tesouros. Acautelai-vos para que vosso governo não viole os mandamentos de Deus, e não entregueis vossos tutelados às mãos de ladrões. Pelos vossos povos é que governais, por meio deles subsistis, pela sua ajuda ganhais vossas vitórias. No entanto, com que desdém olhais para eles! Que estranho, muito estranho!
“Agora que recusastes a Paz Maior, segurai-vos a essa, a Paz Menor, a fim de que possais, em certo grau, melhorar vossa própria condição e a daqueles que de vós dependem.
“Ó governantes da terra! Sede reconciliados entre vós, para que não mais necessiteis de armamentos salvo na medida precisa a fim de proteger vossos territórios e domínios. Guardai-vos de desprezar o conselho do Onisciente, do Fiel.
“Uni-vos, ó reis da terra, pois assim a tempestade da discórdia se aquietará entre vós, e vosso povo encontrará sossego – se sois dos que compreendem. Se alguém dentre vós lançar mão de armas contra outro, levantai-vos todos contra ele, pois isso nada mais é que justiça manifesta.”
Aos reis cristãos, Bahá’u’lláh, além disso, dirige especialmente Suas palavras de censura e, em linguagem inequívoca, revela o verdadeiro caráter de Sua Revelação:
“Ó reis da cristandade! Não ouvistes o que disse Jesus, o Espírito de Deus: - Vou embora e venho outra vez a vós – Por que, então, quando Ele, de fato, vos veio outra vez nas nuvens, do céu, deixastes de vos aproximar Dele a fim de contemplardes Sua face e serdes dos que atingiram Sua Presença? Em outra passagem Ele diz: - Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, Ele vos guiará a toda a verdade. E no entanto, quando Ele realmente trouxe a verdade, vede como vos recusastes a volver-Lhe a face e persististes em vos divertir com vossos passatempos e fantasias. Não Lhe destes boas vindas nem buscastes Sua Presença a fim de ouvirdes de Seus próprios lábios os versículos de Deus e participardes da múltipla sabedoria do Onipotente, do Todo-Glorioso, do Onisciente. Por causa dessa falha, impedistes o sopro de Deus de manar sobre vós e privastes vossas almas da doçura de sua fragrância. Continuais a vagar com deleite no vale de vossos desejos corruptos. Vós mesmos passareis, assim como tudo o que possuis. Regressareis, certamente, a Deus e tereis de responder pelos vossos atos, na Presença Daquele que convocará a criação inteira...”
Além disso, o Báb no Qayyúmu´l-Asmá´, Seu célebre comentário sobre o Súrih de José, revelado no primeiro ano de Sua Missão e caracterizado por Bahá’u’lláh como “o primeiro, o maior e o mais poderoso de todos os livros” na Era Babí, fez este comovente apelo aos reis e príncipes da terra:
“Ó assembléia dos reis e filhos dos reis! Renunciai, todos vós, vosso domínio, que pertence a Deus... Vão, em verdade, é vosso domínio, pois Deus determinou que as possessões terrenas pertencessem àqueles que O negaram... Ó assembléia dos reis! Transmiti veraz e celeremente os versículos revelados por Nós aos povos da Turquia e da Índia e, além destas, com poder e com veracidade, às terras não só do Oriente mas também do Ocidente... Por Deus! Se fizerdes bem, em vosso próprio benefício o fareis; e se negardes a Deus e Seus sinais, Nós, em verdade, tendo Deus, bem poderemos dispensar todas as criaturas e todo o domínio terreno.”
E mais adiante: “Temei a Deus, ó assembléia dos reis, para que não permaneçais longe Daquele que é Sua Lembrança (o Báb), depois de a Verdade vos haver vindo com um Livro e Sinais de Deus, segundo os enunciou a maravilhosa língua Daquele que é Sua Lembrança. Em Deus buscai graça, pois Deus vos destinou – após haverdes vós acreditado Nele – um Jardim cuja vastidão é como a vastidão de todo o Paraíso.”
Tais foram, pois, os conselhos e as advertências – dignos de assinalar uma nova época – que o Báb e Bahá’u’lláh dirigiram aos soberanos da terra, coletivamente e, sobretudo, aos reis da cristandade. Deixaria eu de fazer jus a meu tema se não levasse em conta, ou mesmo se tratasse de um modo superficial, aquelas apóstrofes audazes e cheias de augúrios aos monarcas individuais – reis ou imperadores – os quais ou miraram com fria indiferença as tribulações dos Fundadores gêmeos de nossa Fé, ou rejeitaram com desdém Suas advertências. Não posso citar passagens tão extensas como eu deveria, dos dois mil e mais versículos que emanaram da pena de Bahá’u’lláh e, em menor número, da pena do Báb, dirigidos aos monarcas individuais da Europa e da Ásia, nem é meu propósito estender-me sobre as circunstâncias que provocaram tão espantosos dizeres, nem sobre suas conseqüências. O historiador do futuro, contemplando mais amplamente e em mais plena perspectiva os momentosos acontecimentos da Era Apostólica e da Era Formativa da Fé Bahá’í poderá avaliar mais acuradamente sem dúvida, e descrever de um modo circunstancial as causas, as implicações e os efeitos dessas Mensagens Divinas que, em seu âmbito e em sua eficácia, não têm paralelo, de certo, nos anais religiosos da humanidade.
Ao Imperador francês, Napoleão III, Bahá’u’lláh dirigiu estas palavras: “ó Rei de Paris! Dize ao padre que não mais toque os sinos. Por Deus, o Verdadeiro! Apareceu o Sino Mais Poderoso na forma Daquele que é o Maior Nome, e os dedos da vontade de teu Senhor, o Excelso, o Altíssimo, o fazem soar no céu da imortalidade, em Seu Nome, o Todo-Glorioso. Assim os poderosos versículos de teu Senhor se fizeram descer outra vez para ti, a fim de que te levantasses para comemorar a Deus, Criador da terra e do céu, nestes dias em que todas as raças da terra se têm lastimado, e as fundações das cidades tremido, e a poeira da irreligião envolve todos os homens, salvo aqueles aos quais teu Senhor, o Onisciente, a Suma Sabedoria, quis eximir... Dá ouvidos, ó rei, à Voz que chama do Fogo ardendo nesta árvore verdejante, sobre este Sinai que se ergueu acima do sagrado Lugar níveo, além da Cidade Eterna: - Verdadeiramente, não há outro Deus senão Eu, o Infalível Perdão, o Mais Misericordioso! – Nós, em verdade, enviamos Aquele a Quem ajudamos como Espírito Santo (Jesus), a fim de vos anunciar esta Luz que brilhou do horizonte da vontade de vosso Senhor, o Excelso, o Todo-Glorioso, e cujos sinais foram revelados no Ocidente, para que vós volvêsseis a face para Ele (Bahá’u’lláh) neste Dia que Deus exaltou acima de todos os outros dias, e em que o Todo Misericordioso irradiou o esplendor de Sua fulgente glória sobre todos os que estão no céu e todos os que estão na terra. Levante-te para servir a Deus e promover Sua Causa. Ele, em verdade, ajudar-te-á com as hostes dos visíveis e dos invisíveis, e te fará rei de tudo aquilo sobre o que o sol se levanta. Teu Senhor, em verdade, é o Onipotente, o Todo Poderoso... Adorna teu templo com o ornamento de Meu Nome e tua língua com a lembrança de Mim, e teu coração com amor a Mim, o Todo-Poderoso, o Altíssimo. Nada desejamos para ti senão o que te é melhor que todas as tuas possessões e todos os tesouros da terra. Teu Senhor, em verdade, é o Conhecedor, o Onisciente...
“Ó Rei! Ouvimos as palavras que pronunciaste em resposta ao Tzar da Rússia, a respeito da decisão tomada sobre a guerra (Guerra da Criméia). Teu Senhor, em verdade, sabe, está informado de tudo. Disseste: - Eu estava adormecido em meu leito, quando o grito dos oprimidos, afogando no Mar Negro, me acordou – foi o que te ouvimos dizer e, em verdade, teu Senhor é testemunha daquilo que digo. Testificamos que não despertaste por causa de seu grito mas, sim, estimulado pelas tuas próprias paixões, pois Nós te provamos e te julgamos falho. Compreende o significado de Minhas palavras e sê dos que discernem... Tivesses tu sido sincero em tuas palavras, não terias lançado atrás de ti o Livro de Deus quando te foi enviado por Aquele que é o Todo-Poderoso, o Onisciente. Nós te temos provado por seu intermédio e te achado diferente do que professaste. Levanta-te e faze retribuição por aquilo que te escapou. Dentro em breve o mundo e tudo o que tu possuis perecerão e o reino restará a Deus, teu Senhor e o Senhor de teus pais de antanho. Não te convém proceder segundo os ditames de teus desejos. Teme os suspiros deste Injuriado e protege-O contra os dardos daqueles que agem com Injustiça. Por causa daquilo que fizeste, prevalecerá confusão em teu reino, e teu império passará de tuas mãos em punição pelos teus feitos, e saberás, pois, que erraste, claramente. Comoções haverão de apoderar-se de todo o povo nesse país, a menos que te levantes para ajudar esta Causa e sigas Aquele que é o Espírito de Deus (Jesus) neste Caminho reto. Será que tua pompa te haja tornado orgulhoso? Por Minha Vida! Não durará; não, muito breve há de passar, a menos que te segures firmemente a esta Corda forte. Vemos a humilhação se aproximar de ti rapidamente, enquanto tu és dos desatentos... Deixa para o povo dos túmulos teus palácios, e teu império para qualquer um que o desejar, e volve-te, pois, para o Reino. Isto, em verdade, é o que Deus escolheu para ti – fosses tu um dos que a Ele se dirigem – Se desejares suportar o peso de teu domínio, faze-o, então, em auxílio à Causa de teu Senhor. Glorificada seja esta condição – uma condição tal que, quando alguém a tiver atingido, terá atingido a todo o bem que procede Daquele que é o Onisciente, a Suprema Sabedoria... Regozija-te por causa dos tesouros que possuis, sabendo que hão de perecer. Congratulaste porque reges uma nesga de terra, quando o mundo inteiro, na estimativa do povo de Bahá, vale tanto quanto a pupila do olho de uma formiga morta. Abandona-a àqueles que a isso se afeiçoaram e volve-te para Aquele que é o Desejo do mundo. Aonde foram os orgulhosos e seus palácios? Contempla seus túmulos, a fim de aproveitares de seu exemplo, já que fizemos disso uma lição para cada um que os vê. Fossem os sopros da Revelação te atingir, fugirias do mundo, e te volverias para o Reino, e despenderias tudo o que possuis a fim de te poderes aproximar desta Visão sublime.”


9. EPÍSTOLA REVELADA AO PAPA

Ao Papa Pio IX, revelou Bahá’u’lláh o seguinte: “Ó Papa! Rompe os véus. Já veio Aquele que é o Senhor dos Senhores, envolto em nuvens, e o decreto foi cumprido por Deus, o Todo-Poderoso, o Independente... Ele, em verdade, desceu outra vez do céu, assim como daí desceu a primeira vez. Guarda-te de disputar com Ele, do mesmo modo como o fizeram os fariseus com Ele (Jesus), sem evidência clara ou prova alguma. À Sua direita manam as águas vivas da graça, e à Sua esquerda o Vinho escolhido da justiça, enquanto em Sua vanguarda marcham os anjos do Paraíso, levando as bandeiras de Seus sinais. Acautela-te para que nenhum nome te exclua de Deus, o Criador da terra e do céu. Deixa tu o mundo atrás de ti, e volve-te para teu Senhor, através de Quem toda a terra se iluminou... Resides tu em palácios enquanto Aquele que é o Rei da Revelação mora na mais desolada das habitações? Deixo-o àqueles que os desejam, e volve tua face com júbilo e deleite para o Reino... Levante-te em nome de teu Senhor, o Deus de misericórdia, entre os povos da terra, e toma o Cálice da Vida com as mãos da confiança e dele sorve tu primeiro, e então oferece-o a todos os que a ele se dirigirem dentre os povos de todas as crenças...
... “Lembra-te Daquele que foi o Espírito (Jesus) – como, quando veio, os mais doutos do Seu tempo pronunciaram sentença contra Ele em Seu próprio país enquanto aquele que era apenas um pescador, Nele acreditou. Acautelai-vos, pois, vós homens de coração compreensível! Tu, em verdade, és um dos sóis do céu de Seus nomes. Guarda-te, para que a treva não espalhe sobre ti seus véus e te exclua de Sua luz... Considera aqueles que se opuseram ao Filho (Jesus), quando Ele lhes veio com soberania e poder. Quão numerosos os fariseus que esperavam vê-Lo e lamentavam sua separação Dele! E no entanto, ao lhes ser transmitida a fragrância de Sua vinda, e revelada Sua beleza, afastaram-se Dele e com Ele disputaram... Apenas muito poucos, e estes, destituídos de qualquer poder entre os homens, para Ele se volveram. E entretanto, hoje, todo homem dotado de poder e revestido de soberania se orgulha de Seu Nome! Assim também, considera como, nestes dias, são numerosos os monges que se enclausuram em suas igrejas em Meu nome, mas quando se cumprira o tempo predeterminado e Nós revelamos Nossa beleza, não Nos conheceram, embora Me invoquem ao anoitecer e à alvorada...
“A Palavra que o Filho ocultou torna-se manifesta. Fez-se descer na forma do templo humano neste dia. Bendito seja o Senhor que é o Pai! Ele, em verdade, veio às nações em Sua maior majestade. Dirigi-Lhe a face, ó assembléia dos retos!... Este é o dia em que a Pedra (Pedro) exclama e brada, e celebra o louvor de seu Senhor, Possuidor de tudo, o Altíssimo, dizendo: - Eis que veio o Pai, e o que vos foi prometido no Reino, já se cumpre... Meu corpo anseia pela cruz, e Minha cabeça espera o golpe do dardo, no caminho do Todo-Misericordioso, a fim de que o mundo se purifique de suas transgressões...
“Ó Pontífice Supremo! Inclina teu ouvido para o conselho que te dá Aquele que amolda os ossos desintegrantes, o conselho expresso por Aquele que é Seu Maior Nome. Vende todos os elaborados ornamentos que possuis e despende-os no caminho de Deus, que faz a noite seguir ao dia, e o dia à noite. Abandona teu reino aos reis e sai de tua habitação, com a face volvida ao Reino e, desprendido do mundo, proclama os louvores de teu Senhor entre a terra e o céu. Assim te ordena Aquele que é o Possuidor dos Nomes, por parte de teu Senhor, o Todo-Poderoso, o Onisciente. Exorta os reis e dize: - Tratai os homens com eqüidade. Guardai-vos de transgredir os limites fixados no Livro. – Isto, em verdade te convém. Acautela-te para que não te apoderes das coisas do mundo e de suas riquezas. Deixa-as aos que as desejam e segura-te àquilo que te foi ordenado por Aquele que é o Senhor da criação. Se alguém te oferecer todos os tesouros da terra, não te dignes de lançar sobre eles um olhar sequer. Sê assim como tem sido teu Senhor. Deste modo, a Língua da Revelação pronunciou aquilo que Deus fez o ornamento do livro da criação... Se te embeveceres com o vinho de Meus versículos e resolveres acercar-te do trono de teu Senhor, Criador da terra e do céu, faze de Meu amor tua vestimenta, de tua lembrança de Mim teu escudo, e de tua confiança em Deus, o Revelador de todo o poder, tua provisão... Em verdade, já veio o dia da colheita, e todas as coisas foram separadas umas das outras. Ele guardou nos vasos da justiça o que Ele quis e lançou ao fogo aquilo que disto era digno. Assim foi decretado por vosso Senhor, o Poderoso, o Deus de amor, neste Dia prometido. Ele, em verdade, ordena o que Lhe apraz. Não há outro Deus salvo Ele, o Onipotente, que a tudo predomina.”


10. OUTRAS EPÍSTOLAS AOS GOVERNANTES DO MUNDO

Na Epístola dirigida ao Tzar da Rússia, Alexandre II, lemos: “Ó Tzar da Rússia! Inclina teu ouvido à voz de Deus, o Rei, o Santo, e volve-te para o Paraíso, o lugar onde habita Aquele que, dentre a Assembléia no alto, possui os mais excelentes títulos e que, no reino da criação, é chamado pelo Nome de Deus, o Fulgente, o Todo-Glorioso. Acautela-te para que teu desejo não te impeça de te volver para a face de teu Senhor, o Compassivo, o Mais Misericordioso. Nós, em verdade, ouvimos aquilo que suplicaste a teu Senhor enquanto comungavas secretamente com Ele. Por isso os sopros de Minha misericórdia emanavam e o mar de Minha mercê encapelava-se, e Nós respondemos a ti em verdade. Teu Senhor, verdadeiramente, é Quem tudo sabe, o Sapientíssimo. Enquanto eu estava acorrentado e algemado na prisão, um de teus ministros prestou-Me seu auxílio. Por isso Deus te ordenou uma posição que o conhecimento de pessoa alguma pode compreender, salvo Seu conhecimento. Guarda-te de desbaratar essa posição sublime... Acautela-te para que tua soberania não te impeça Daquele que é o Soberano Supremo. Em verdade, Ele veio com Seu Reino, e todos os átomos clamam em altas vozes: - Eis! O senhor vindo em Sua grande majestade! – Aquele que é o Pai já veio, e o Filho (Jesus), no vale santo, exclamava: Eis-me, eis-me, ó Senhor, meu Deus! enquanto Sinai rodeia a Casa, e a Sarça Ardente clama altamente: - Veio o Todo Generoso, montado sobre as nuvens! Bem-aventurado quem Dele se aproxima, e ai dos que estão afastados.
“Levanta-te entre os homens em nome desta Causa predominante e convoca, pois, as nações a Deus, o Excelso, o Grande. Não sejas dos que invocaram a Deus por um de Seus Nomes mas que, ao aparecer Aquele que é Objeto de todos os nomes, O negaram e Dele se afastaram, e finalmente pronunciaram sentença contra Ele, com injustiça manifesta. Considera e recorda os dias em que apareceu o Espírito de Deus (Jesus) e Herodes O condenou. Deus, entretanto, Lhe concedeu o amparo das hostes invisíveis, protegeu-O com a verdade e O mandou para uma outra terra, segundo Sua promessa. Ele, em verdade, ordena o que Lhe apraz. Teu senhor preserva, verdadeiramente, a quem Ele deseja, quer se ache no meio dos mares, quer na garganta da serpente ou debaixo da espada do opressor...”
“Outra vez digo, dá ouvidos a Minha Voz que clama de Minha prisão, a fim de te informares das coisas que sucederam à Minha Beleza nas mãos daqueles que são as manifestações e Minha Glória, e a fim de perceberes como foi grande Minha paciência, não obstante Meu poder, e imensa Minha tolerância, apesar de Meu predomínio. Por Minha Vida! Pudesses tu apenas saber das coisas emitidas por Minha Pena, e descobrir os tesouros de Minha Causa e as pérolas de meus mistérios que jazem ocultas nos mares, dos Meus nomes e nos cálices das Minhas Palavras, tu, em teu amor por Meu nome e em tua ânsia por Meu Reino glorioso e sublime, quererias oferecer tua vida em Meu caminho. Sabe tu que, embora Meu corpo esteja debaixo das espadas dos inimigos e Meus membros assediados de aflições incalculáveis, no entanto, Meu espírito está cheio de uma alegria com a qual todos os prazeres da terra jamais poderão ser comparados.
“Dirige teu coração Àquele que é Alvo da adoração do mundo, e dize: - ó povos da terra! Negastes Aquele em Cuja senda foi martirizado o Portador da verdade, quando trazia o anúncio de vosso Senhor, o Excelso, o Grande? Dize: Este é um Anúncio que regozijou os corações dos Profetas e Mensageiros. É Aquele de Quem o coração do mundo se lembra, o Prometido dos Livros de Deus, o Poderoso, o Onisciente. As mãos dos Mensageiros, em seu desejo de Me encontrar, ergueram-se para Deus, o Poderoso, o Glorificado... Alguns se lamentaram em sua separação de Mim, outros sofreram durezas em Meu caminho e ainda outros sacrificaram a vida por amor à Minha Beleza – pudésseis apenas saber isso. Dize: Eu, em verdade, não visei a exaltar a Mim Mesmo, mas antes ao próprio Deus – fosseis vós julgar com eqüidade. Nada pode ser visto em Mim a não ser Deus e Sua Causa – pudésseis apenas perceber isto. Sou Aquele a Quem a língua de Isaías exaltou, sou Aquele com Cujo nome tanto a Tora como o Evangelho se adornaram... Bem-aventurado o rei cuja soberania não o impediu de reconhecer seu Soberano e que de coração se volveu para Deus. Ele, em verdade, é incluído no número dos que atingiram o que Deus, o Poderoso, o Onisciente, ordenou. Tal rei será em breve contado entre os monarcas dos domínios do Reino. Teu Senhor, em verdade, é potente sobre todas as coisas. Ele dá o que deseja a quem Ele queira; e a quem Ele queira, nega o que Ele deseja. Ele, em verdade, é o Todo-Poderoso, o Onipotente.”
À Rainha Vitória, Bahá’u’lláh escreveu: “Ó Rainha em Londres! Inclina teu ouvido para a voz de teu, Senhor, o Senhor de toda a humanidade, que clama do Loto Divino: - Verdadeiramente, nenhum Deus há senão Eu, o Todo-Poderoso, o Onisciente! Rejeita tudo o que está na terra e, com o diadema da lembrança de teu Senhor, o Todo-Glorioso, cinge a cabeça de teu reino. Ele, em verdade, veio ao mundo em Sua mais plena glória, cumprindo tudo o que foi mencionado no Evangelho. A terra da Síria foi honrada pelas pegadas de seu Senhor, Senhor de todos os homens, e norte e sul, ambos se inebriam com o vinho de Sua Presença. Bem-aventurado o homem que inalou a flagrância do Mais Misericordioso e se voltou para a Alvorada de Sua Beleza, neste Amanhecer resplandecente. A Mesquita de Aqsá vibra com os sopros de seu Senhor, o Todo-Glorioso, enquanto Bathá (Meca) tremula ante a voz de Deus, o Excelso, o Altíssimo. E com isso, cada uma de suas pedras rende louvores ao Senhor por intermédio deste Grande Nome.
“Renuncia teu desejo e dirige teu coração a teu Senhor, o Ancião dos Dias. Fazemos menção de ti por amor a Deus e desejamos que teu nome seja exaltado pela tua comemoração de Deus, Criador da terra e do céu. Ele, em verdade, dá testemunho daquilo que digo. Fomos informados de que tu proibiste o tráfico de escravos, tanto de homens como de mulheres. Isso, em verdade, é o que Deus ordenou nesta Revelação maravilhosa. Deus, em verdade, te destinou uma recompensa por isso. A quem fizer o bem, Ele, em verdade, remunerará devidamente – fosses tu seguir o que te foi enviado por Aquele que é o Onisciente, O de tudo informado. Quanto àquele que se desviar e se inchar de orgulho após lhe haverem vindo os sinais claros, provenientes do Revelador dos sinais, Deus reduzirá sua obra a nada. Ele, em verdade, tem poder sobre todas as coisas. As ações do homem são aceitáveis depois de ele haver reconhecido (o Manifestante). Quem se desviar do Verdadeiro é, de fato, a mais velada dentre Suas criaturas. Assim foi decretado por Aquele que é o Onipotente, o Mais Poderoso.
“Soubemos também que tu havias entregue as rédeas do conselho aos representantes do povo. Em verdade, fizeste bem, pois assim os alicerces do edifício de tuas atividades serão fortalecidos, e os corações de todos os que se acham obrigados à tua sombra, sejam de alta ou de baixa categoria, serão tranqüilizados. Compete-lhes, entretanto, ser dignos de confiança entre Seus servos e considerarem-se a si próprios como os representantes de todos os que habitam na terra. É o que lhes aconselha, nesta Epístola, Aquele que rege, o Onisciente... Bem-aventurado aquele que entra na assembléia por amor a Deus e julga entre os homens com pura justiça. Ele, em verdade, é dos ditosos...
“Dirige-te a Deus e dize: ó meu Senhor Soberano! Eu sou apenas um vassalo Teu, e Tu, em verdade, és o Rei dos Reis. Levantei minhas mãos suplicantes ao céu de Tua graça e Tuas dádivas. Faze descer, pois, sobre mim, das nuvens de Tua generosidade, o que me possa livrar de tudo menos de Ti e me faça aproximar de Ti. Suplico-Te, ó meu Senhor – por Teu nome, que fizeste o rei dos nomes e a manifestação de Ti Próprio para todos os que estão no céu e na terra – rompe os véus que se interpuseram entre mim e meu reconhecimento da Alvorada de Teus sinais e do Amanhecer de Tua Revelação. És, em verdade, o Todo-Poderoso, o Onipotente, o Generosíssimo. Não me prives, ó meu Senhor, das fragrâncias das Vestes de Tua Misericórdia em Teus dias, e inscreve para mim o que increveste para Tuas servas que acreditaram em Ti e em Teus sinais, e Te reconheceram, e dirigiram os corações ao horizonte de Tua Causa. Verdadeiramente, Tu és o Senhor dos mundos e entre aqueles que mostram misericórdia o Mais Misericordioso. Ajuda-me, pois, ó meu Deus, a comemorar-Te entre Tuas servas e promover Tua Causa em Tuas plagas. Aceita, então, o que me escapou ao irradiar-se a luz de Teu semblante. Tu, em verdade, tens poder sobre todas as coisas. Glória a Ti, ó Tu em cuja mão está o reino dos céus e da terra.”
No Kitáb-i-Aqdas, Seu Livro Sacratíssimo, Bahá’u’lláh assim se dirige ao Imperador Alemão, Guilherme I: “Dize: ó Rei de Berlim! Dá ouvidos à Voz que chama deste Templo manifesto: - Em verdade, não há outro Deus senão Eu, o Eterno, o Incomparável, o Antigo dos Dias. Acautela-te para que o orgulho não te impeça de reconhecer a Aurora da Revelação Divina, nem os desejos terrenos te excluam, como se o fosse por um véu, do Senhor do Trono no alto e da terra em baixo. Assim te aconselha a Pena do Altíssimo. Ele, em verdade, é o Mais Misericordioso, o Todo-Generoso. Lembra-te daquele cujo poder transcendeu teu poder (Napoleão III), e cuja posição era superior à tua posição! Onde está ele? Aonde foram as coisas por ele possuídas? Sê advertido, e não sejas dos que estão profundamente adormecidos. Ele foi quem lançou atrás de si a Epístola de Deus quando Nós o informamos daquilo que as hostes da tirania Nos fizeram sofrer. Por isso a desgraça o atacou de todos os lados e, com grande perda, ele se baixou ao pó. Pondera, ó Rei, sobre ele e sobre os outros que, como tu, venceram cidades e dominaram os homens. O Todo-Misericordioso fê-los descerem de seus palácios às suas sepulturas. Sê advertido, sê dos que refletem.”
E mais adiante no mesmo Livro, esta profecia notável: “ó margens do Reno! Nós vos vimos cobertas de sangue porque as espadas da retribuição foram desembainhadas contra vós; e tereis ainda outro turno. E ouvimos os lamentos de Berlim, se bem que hoje esteja em glória conspícua.”
Também se acham registradas no Kitáb-i-Aqdas, estas palavras dirigidas ao Imperador Francisco José: “ó Imperador da Áustria! Aquele que é o Amanhecer da Luz de Deus residia na prisão de ´Akká na ocasião em que tu saíste para visitar a Mesquita de Aqsá (Jerusalém). Passaste sem indagar por Aquele Cuja Presença exalta toda casa, e para quem o mais majestoso portão se descerra. Nós, em verdade, fizemos dessa cidade (Jerusalém) um lugar para o qual o mundo se devesse volver, a fim de Me comemorar, e tu, no entanto, rejeitaste Aquele que é o Objeto dessa comemoração, quando Ele apareceu com o Reino de Deus, teu Senhor e o Senhor dos mundos. Temos estado contigo em todos os tempos e te achado preso ao Ramo sem atenderes à Raiz. Teu Senhor, em verdade, é testemunha do que digo. Lamentamos ver como te volvias ao redor de Nosso Nome, enquanto continuava inconsciente de Nós, embora estivéssemos ante tua face. Abre teus olhos, a fim de poderes contemplar esta Visão gloriosa e reconhecer Aquele a Quem invocas durante o dia e à noite, e fitar a Luz que brilha acima deste Horizonte luminoso.”
No Súriy-i-Múluk, ao Sultão ´Abdu´l-´Azíz, são dirigidas estas palavras: “Ouve, ó rei, o que exprime Aquele que diz a verdade, que não te pede como remuneração as coisas que Deus se dignou te conceder, Aquele que trilha, sem errar, a Senda reta. Ele é Quem te chama para Deus, teu Senhor, e te mostra o caminho certo, o que conduz à verdadeira felicidade, para que talvez sejas dos que estarão bem... Se alguém se dedicar inteiramente a Deus, Deus estará com ele, sem dúvida; e se puser em Deus toda a sua confiança, Deus, em verdade, haverá de protegê-lo de tudo o que lhe possa causar dano e da iniqüidade de cada mau conspirador.
“Fosses tu inclinar o ouvido para Minhas palavras e observar Meu conselho. Deus elevar-te-ia a tão eminente posição que jamais os desígnios de homem algum na terra te poderiam tocar ou ofender. Observa, ó rei, do mais íntimo do coração e de todo o teu ser, os preceitos de Deus, e não andes nos caminhos do opressor. Segura tu, e mantém firmemente nas mãos de teu poder, as rédeas do governo de teu povo, e examina pessoalmente tudo a ele relacionado. Que nada te escape, pois nisso reside o maior bem.
“Agradece a Deus por te haver escolhido do mundo inteiro e te feito rei sobre aqueles que professam tua fé. Incumbe-te apreciar os maravilhosos favores que Deus te concedeu, e magnificar continuamente Seu Nome. Podes melhor louvá-Lo se amas aos Seus amados e proteges Seus servos do mal dos traiçoeiros, a fim de que ninguém mais os oprima. Deves, ainda mais, levantar-te para executar a lei de Deus entre eles, a fim de seres um dos que se acham firmemente estabelecidos em Sua Lei.
“Se fizesses rios de justiça espalharem suas águas entre teus súditos, Deus seguramente te ajudaria com as hostes dos invisíveis e dos visíveis, e te fortaleceria em tuas atividades. Não há Deus senão Ele. Toda a criação e seu império Lhe pertencem. A Ele voltam as obras dos fiéis.
... “Não confies em teus tesouros. Põe tua inteira confiança na graça de Deus, teu Senhor. Seja Ele teu apoio em tudo o que fizeres, e sê um dos que se submeteram à Sua vontade. Faze Dele teu amparo e enriquece-te com Seus tesouros, pois com Ele estão os tesouros dos céus e da terra. Ele os concede a quem Ele queira, e a quem Ele queira, os nega. Não há outro Deus senão Ele, Possuidor de tudo, Alvo de todo louvor. Todos são apenas indigentes à porta de Sua misericórdia; todos se encontram destituídos de poder ante a revelação de Sua soberania, e suplicam Seus favores.
“Não excedas os limites da moderação e trata com justiça àqueles que te servem. Dá-lhes de acordo com suas necessidades e não a tal ponto que possam acumular para si riquezas, se adornar, embelezar suas casas, adquirir as coisas que nenhum benefício lhes trazem, e se contar entre os extravagantes. Trata-os com infalível justiça, de modo que nenhum deles sofra privações, nem goze de excessivo luxo. Isso é apenas justiça manifesta. Não permitas que os abjetos governem e dominem aqueles que são nobres e dignos de honra, nem deixes os magnânimos à mercê dos indignos e desprezíveis, pois foi o que vimos ao chegarmos na Cidade (Constantinopla), e disso damos testemunho...
“Põe diante de teus olhos a infalível Balança de Deus e, como se estivesses em Sua Presença, pesa nesta Balança tuas ações cada dia, a cada momento de tua vida. Julga-te a ti mesmo antes de seres chamados para o juízo, no dia em que nenhum homem terá as forças para se manter em pé por temor a Deus, o Dia em que os corações dos desatentos haverão de tremer...
“Tu és a sombra de Deus na terra. Esforça-te, pois, para te comportares de uma maneira digna de tão eminente, tão augusta posição. Se tu te desviares de seguir as coisas que fizemos descer sobre ti e te ensinamos, estarás, seguramente, diminuindo essa grande e inestimável honra. Volta, pois, e adere completamente a Deus, e limpa teu coração do mundo e de todas suas vaidades, e não permitas que o amor a um estranho nele entre e resida. Antes de purificares teu coração de todo traço de tal amor, não poderá o brilho da luz de Deus irradiar sobre ele seu esplendor, pois a ninguém Deus deu mais de um coração. Isso, em verdade, foi decretado e inscrito em Seu Livro antigo. E assim como o coração humano, segundo foi moldado por Deus, é um só e indivisível, também deves acautelar-te para que suas afeições, igualmente, sejam uma só e indivisíveis. Apega-te, pois, com todo o afeito de teu coração a Seu amor, e retira-o do amor a qualquer um além Dele, a fim de que Ele te possa ajudar a imergir no oceano de Sua unidade e te tornar um verdadeiro sustentáculo de Sua unicidade...”


11. QUE O OPRESSOR DESISTA

“Sejam atentos teus ouvidos, ó rei, às palavras que Nós te dirigimos. Faze que o opressor desista de sua tirania, e afasta os que perpetram injustiças dentre aqueles que professam tua fé. Pela retidão de Deus! As tribulações que suportamos são tais que a pena que as relata não pode deixar de se acabrunhar de angústia. Nenhum dos que realmente crêem na unidade de Deus, e a sustentam, pode tolerar o peso de sua narração. Tão grandes têm sido Nossos sofrimentos que até os olhos de Nossos inimigos choraram por Nós, e além deles os de toda pessoa de discernimento. E a todas essas provações fomos sujeitados apesar de Nossa ação em Nos aproximar de ti e em exortar o povo a entrar em tua sombra, a fim de que tu fosses uma cidadela para aqueles que crêem na unidade de Deus e a sustentam.
“Ó rei, Eu já alguma vez te desobedeci? Em alguma ocasião transgredi qualquer uma de tuas leis? Pode qualquer um de teus ministros que te representam no ´Iráq aduzir uma prova de Minha deslealdade a ti? Não, por Aquele que é o Senhor dos mundos! Nem por um momento Nós nos rebelamos contra ti ou contra qualquer um de teus ministros. Nunca – queira Deus – nos revoltaremos contra ti, nem que sejamos expostos a tribulações ainda mais severas do que qualquer uma sofrida por Nós no passado. Durante o dia e nas horas da noite, no crepúsculo e ao amanhecer, oramos a Deus por ti, para que Ele por sua graça te ajude a Lhe ser obediente e observar os mandamentos, e te proteja contra as hostes dos maus. Faze, pois, como te aprouver, e trata-Nos de um modo que convenha à tua posição e seja digno de tua soberania. Não te esqueças da lei de Deus em tudo o que desejares realizar, nem agora nem nos dias vindouros. Dize: - Louvores a Deus, Senhor de todos os mundos!”
Além disso, no Kitáb-i-Aqdas se encontra esta apóstrofe veemente a Constantinopla: “ó Lugar sito nas praias dos dois mares! O trono da tirania foi, em verdade, estabelecido em ti e a chama do ódio se ateou dentro de teu seio, de tal modo que a Assembléia no alto e aqueles que se movem ao redor do Trono excelso gemeram e se lamentaram. Vemos em ti os insensatos dominarem os sábios, e a treva vangloriar-se sobre a luz. Estás, de fato, cheio de orgulho manifesto. Teu esplendor exterior te terá feito jactancioso? Este – por Aquele que é o Senhor da humanidade – muito breve perecerá, e tuas filhas e tuas viúvas e todas as famílias que em ti residem haverão de se lamentar. Assim te informa o Onisciente, o Sapientíssimo.”
Quanto ao Xá Násiri´d-Dín, a Epístola intitulada Lawh-i-Sultán, enviada de ´Akká – mais longa do que qualquer outra Epístola mandada por Bahá’u’lláh a um soberano – proclama: “Ó rei! Eu era apenas um homem como os outros, adormecido em meu leito, mas eis que os sopros do Todo-Glorioso manaram sobre Mim e Me deram o conhecimento e tudo o que já existia. Isso não provém de Mim, mas de Um que é o Todo-Poderoso o Onisciente. E Ele ordenou que Eu levantasse Minha voz entre a terra e o céu, e por isso me sucedeu o que fez correrem as lágrimas de todo homem de compreensão. A erudição comum entre os homens, não a estudei; nem entrei em suas escolas. Pergunta na cidade em que residi, a fim de teres a certeza de que Eu não sou dos que falam falsamente. Este Ser é apenas uma folha movida pelos ventos da Vontade de teu Senhor, o Todo-Poderoso, Alvo de todo louvor. Poderá aquietar-se quando soprarem os ventos tempestuosos? Não, por Aquele que é o Senhor de todos os Nomes e Atributos! Movem-na a seu bel-prazer. O efêmero afigura-se como nada perante Aquele que é o Sempiterno. Seu chamado predominante atingiu-Me e Me fez expressar Seu louvor entre todos os povos. Em verdade, era Eu feito um morto, quando Seu imperativo foi enunciado. A mão da Vontade de teu Senhor, o Compassivo, o Misericordioso, transformou-Me. Poderá alguém pronunciar espontaneamente o que faça todos os homens, grandes e humildes, contra ele protestarem? Não, por Aquele que ensinou à Pena os mistérios eternos, salvo quem fosse fortalecido pela graça do Onipotente, do Todo-Poderoso. A Pena do Altíssimo a Mim se dirige, dizendo: Não receies. Relata à Sua Majestade o Xá o que te sucedeu. Seu coração, em verdade, está entre os dedos de teu Senhor, o Deus de Misericórdia, de modo que talvez o sol da justiça e da generosidade possa brilhar acima do horizonte de seu coração. Assim foi fixado o decreto irrevogável por Aquele que é o Onisciente.
“Contempla este Jovem, ó rei, com os olhos da justiça; julga tu, pois, com verdade, aquilo que lhes sucedeu. Verdadeiramente, Deus te fez Sua sombra entre os homens e o sinal de Seu poder para todos os que habitam na terra. Julga tu entre Nós e aqueles que Nos injuriaram sem prova e sem um Livro esclarecedor. Os que te rodeiam amam-te por seus próprios interesses, enquanto este Jovem te ama por ti mesmo, nenhum desejo nutrindo a não ser o de te fazer aproximar do assento da graça e te dirigir à direita da justiça. Teu Senhor dá testemunho daquilo que declaro.
“Ó rei! Fosses tu inclinar o ouvido para a nota penetrante da Pena da Glória e o arrulho do Pombo da Eternidade que, nos ramos do Loto além do qual se não pode passar, expressa seus louvores a Deus, Origem de todos os nomes e Criador da terra e do céu – atingirias a condição em que nada contemplarias no mundo dos seres senão a resplandecência do Adorado, vindo a considerar tua soberania como o mais desprezível de tuas possessões, e a abandoná-la a quem a quisesse, volvendo tua face para o Horizonte que fulge com a luz de Seu Semblante. Jamais quererias tu suportar o peso de domínio, salvo com o fim de servir teu Senhor, o Excelso, o Altíssimo. Então a Assembléia no alto abençoar-te-ia. Oh, como é excelente esta mais sublime posição, pudesses tu a ela ascender através do poder de uma soberania reconhecida como oriunda do Nome de Deus!...
“Ó rei da época! Os olhos destes refugiados volvem-se para a clemência do Mais Clemente e nela se fixam. Sem dúvida alguma, estas tribulações serão seguidas pelas emanações de uma misericórdia suprema, e estas adversidades horrendas por uma prosperidade transbordante. Quereríamos esperar, porém, que Sua Majestade o Xá examine, ele mesmo, estes assuntos e dê esperança aos corações. O que submetemos à tua Majestade é, realmente, para teu maior bem. E Deus, em verdade é testemunha suficiente para Mim...
“Oxalá Me permitisse, ó Xá, enviar-te aquilo que poderia alegrar os olhos e tranqüilizar as almas e fazer toda pessoa justa acreditar que com Ele está o conhecimento do Livro... Se não fosse o repúdio dos insensatos e a conivência dos sacerdotes, Eu teria pronunciado um discurso que extasiasse os corações, transportando-os para um reino cujos ventos se fazem ouvir, murmurando: - Nenhum Deus há senão Ele!...
“Tenho visto, ó Xá, no caminho de Deus, o que olhos jamais viram nem ouvidos ouviram... Quão numerosas as tribulações que choveram, e breve choverão, sobre Mim. Sigo adiante, com a face volvida para Aquele que é o Onipotente, o Todo-Generoso, enquanto atrás de Mim desliza a serpente. Meus olhos têm chovido lágrimas até ensopar Meu leito. Minha tristeza não é por Minha própria causa, entretanto. Por Deus! Nunca passei por uma árvore sem que Meu coração não lhe tivesse dirigido estas palavras: - Oxalá fosses cortada em Meu nome, e Meu corpo sobre ti fosse crucificado, na vereda de Meu senhor! - ...Por Deus! Embora a fadiga Me abata e a fome Me consuma, a pedra nua seja Meu leito e os animais do campo Meus companheiros, não Me queixarei mas, sim, sofrerei pacientemente, como sofreram aqueles dotados de constância e firmeza, através do poder de Deus, o Rei Eterno e Criador das nações, e agradecerei a Deus sob todas as condições. Pedimos que, por Sua bondade – exaltado seja Ele – através deste encarceramento Ele livre das cadeias e correntes os pescoços dos homens e os leve a volverem-se, com face sincera, para a Face Daquele que é o Potente, o Generoso. Prontamente responde Ele a quem O invoca, e próximo está de quem com Ele comunga.”
No Qayyúmu´l-Asmá´, o Báb, por Sua parte, assim se dirige ao Xá Muhammad: “Ó rei do islã! Dá teu apoio, com a verdade – após haveres apoiado o Livro – Àquele que é Nossa Maior Lembrança, pois Deus, na absoluta verdade, destinou a ti e aos que te rodeiam, no Dia do Juízo, uma posição responsável em Seu caminho. Deus é Minha Testemunha, ó Xá! Se mostrares inimizade Àquele que é Sua Lembrança, Deus, no Dia da Ressurreição, perante os reis, te há de condenar ao fogo infernal e não haverás de encontrar nesse Dia, realmente, amparo algum a não ser Deus, o Excelso. Purga tu, ó Xá, a Terra Sagrada (Teerã) daqueles que repudiaram o Livro, antes do dia em que vem a Lembrança de Deus, terrível e subitamente, com Sua Causa potente, com a permissão de Deus, o Altíssimo. Deus, em verdade, prescreveu que te submetesses Àquele que é Sua Lembrança, e à Sua Causa, e subjugasses os países com a verdade e por Sua permissão, pois neste mundo foste investido de soberania pela Sua graça, e, no vindouro, residirás perto do Assento da Santidade, com os habitantes do Paraíso de Seu beneplácito. Que tua soberania não te engane, ó Xá, pois ´toda alma há de provar a morte´ e isso, em realidade, se inscreveu como decreto de Deus.”
Em Sua epístola ao Xá Muhammad, ainda mais, o Báb revelou: “Eu sou o Ponto Primaz do qual foram geradas todas as coisas. Sou o Semblante de Deus cujo esplendor jamais se obscurecerá, a Luz de Deus cujo brilho não pode esmorecer. Todas as chaves do céu Deus quis colocá-las à Minha direita, e todas as chaves do inferno à Minha esquerda... Sou um dos pilares que sustentaram a Palavra Primaz de Deus. Quem Me tiver reconhecido, terá sabido que o que é verdadeiro e certo, e terá atingido tudo o que é bom e digno... A substância de que Deus Me criou não é o barro do qual se formaram os outros. A Mim, concedeu Ele aquilo que os sábios do mundo jamais poderão compreender, nem os fiéis descobrir...
“Por Minha vida! Se não fosse a obrigação de reconhecer a Causa Daquele que é a Testemunha de Deus... Eu não te teria anunciado isto... Nesse mesmo ano (no ano 60), enviei-te um mensageiro e um livro, a fim de que desses à Causa Daquele que é a Testemunha de Deus, a acolhida digna da posição de tua soberania...
“Juro pela verdade de Deus! Se aquele que consentiu em Me tratar de tal modo pudesse saber a quem ele assim tratou, nunca mais em sua vida, na verdade, estaria contente. Não, Eu, verdadeiramente, informo-te da verdade do assunto – é como se tivesse aprisionado todos os Profetas, e todos os homens da verdade e todos os eleitos... Ai daquele de cujas mãos provém o mal, e bem-aventurado o homem de cujas mãos emana o bem...
“Deus é Minha Testemunha! Não busco de ti bens terrenos, nem nos limites de um grão de mostarda... Juro pela verdade de Deus! Fosses tu saber o que Eu sei, renunciarias a soberania deste mundo e do vindouro, a fim de poderes atingir Meu beneplácito, em virtude de tua obediência ao Verdadeiro... Se te recusares, o Senhor do Mundo erguerá quem exalte Sua Causa, e o Mandamento de Deus será, em verdade, levado a efeito.”


12. O VIGÁRIO DE DEUS NA TERRA

Caros amigos! Que vasto panorama é estendido diante de nossos olhos por estas pronunciações divinas que nos sondam a alma! Quantas reminiscências elas evocam! Como são sublimes os princípios que elas infundem! Que esperanças engendram e apreensões excitam! E no entanto, se bem que as palavras que acabamos de citar se adaptem aos fins imediatos de meu tema, quanto nos devem aparecer fragmentárias ao serem comparadas com a majestade torrencial que somente a leitura do texto completo nos pode desvelar! Aquele que era o Vigário de Deus na terra, dirigindo-se – no momento mais crítico, quando Sua Revelação atingia seu zênite – àqueles em cujas pessoas se concentravam o esplendor, a soberania e o poder do domínio terreno, não podia, certamente, subtrair um só i ou um só til do peso e da força que a apresentação desta Mensagem tão histórica exigia. Nem os perigos que rapidamente O cercavam, nem o poder formidável da qual a doutrina da soberania absoluta investia, naquele tempo, os imperadores do Ocidente e os potentados do Oriente, conseguiram impedir o Exilado e Prisioneiro em Adianopla de comunicar a plena veemência de Sua Mensagem a Seus perseguidores imperiais gêmeos como também aos demais soberanos.
A magnitude e a diversidade do tema, o argumento tão persuasivo, a linguagem sublime e audaz, prendem nossa atenção e estonteiam-nos a mente. Imperadores, reis e príncipes, cancelários e ministros, o próprio Papa, sacerdotes, monges e filósofos, os expoentes da erudição, parlamentares e deputados, os ricos da terra, os adeptos de todas as religiões, bem como o povo de Bahá – todos são trazidos dentro da esfera de autoridade do Autor destas Mensagens e recebem, cada qual segundo o merecimento, Seus conselhos e Suas advertências. Não menos surpreendente é a diversidade dos assuntos abordados nestas Epístolas. Elas exaltam a transcendente majestade e unidade de um Deus incognoscível e inatingível, e também proclamam e acentuam a unidade de Seus Mensageiros. Frisam o caráter único e universal da Fé Bahá’í e suas potencialidades, bem como o desígnio e os aspectos distintivos da Revelação Babí. Mostram o significado dos sofrimentos e desterros de Bahá’u’lláh; reconhecem e lamentam as tribulações que choveram sobre Seu Arauto e o Portador de Seu Nome. Expressam Seu próprio anseio pela coroa do martírio, que ambos tão misteriosamente ganharam, e prognosticam as glórias e maravilhas inefáveis que esperam Sua própria Revelação. Relatam episódios a um tempo comoventes e admiráveis, em várias etapas de seu ministério, e asseveram repetida e categoricamente a transitoriedade da pompa, fama, soberania e das riquezas terrenas. Apelam forte e insistentemente pelos mais altos princípios em relações humanas e internacionais, e exigem o abandono de convenções e práticas condenáveis e prejudiciais à felicidade, ao crescimento, à prosperidade e à unificação do gênero humano. Estas Epístolas censuram os reis, acusam os dignitários eclesiásticos, condenam ministros e plenipotenciários. A identificação do advento de Bahá’u’lláh com a vinda do próprio Pai é admitida inequivocamente e anunciada repetidas vezes. É predita a violenta queda de alguns desses reis e imperadores, sendo dois deles chamados definitivamente a desafio; à maioria Ele adverte, a todos apela e exorta.
Na Law-i-Sultán (Epístola ao Xá da Pérsia) Bahá’u’lláh declara: “Oxalá o desejo imperial, adorno do mundo, decretasse que este Servo falasse face a face com os sacerdotes da época e apresentasse provas e testemunhos na presença de Sua Majestade o Xá! Este Servo está pronto e tem esperança em Deus de que se realize esse encontro a fim de que a verdade do assunto se torne clara e manifesta diante de Sua Majestade o Xá. Incumbe-te, pois, mandar, e Eu estou pronto, diante do trono de tua soberania. Decide, pois, por Mim ou contra Mim.”
E além disso, na Lawh-i-Ra´ís, Bahá’u’lláh, recordando Sua conversação com o oficial turco encarregado de executar Seu exílio para a cidade-fortaleza de ´Akká, escreveu: “Há um assunto que, se o achares possível, Eu te peço que submetas à Sua Majestade o Sultão: que a este Jovem seja permitida uma entrevista de dez minutos com ele, a fim de que ele possa exigir qualquer testemunho que julgar suficiente, ou considerar prova da veracidade Daquele que é a Verdade. Se Deus O capacitar a apresentá-la, que ele então liberte estes injuriados e os deixe em paz.” “Ele prometeu”, acrescenta Bahá’u’lláh nesta Epístola, “a transmitir esta mensagem e Nos dar sua resposta. Nenhuma notícia, porém, recebemos dele. Embora não convenha Àquele que é a Verdade, apresentar-se diante de pessoa alguma, visto haverem sido todos criados a fim de obedecê-Lo – no entanto, em face da condição destas crianças e do grande número de mulheres tão longe de sua prática e de pessoas amigas, Nós anuímos nesse assunto. Apesar disso, não houve resultado. O próprio ´Umar está vivo e acessível. Inquire-lhe, a fim de que a verdade seja conhecida.”
Referindo-se a essas Epístolas dirigidas aos soberanos da terra, as quais ‘Abdu’l-Bahá aclamou como um “milagre”, Bahá’u’lláh escreveu: “Cada uma delas foi designada por um nome especial. A primeira foi chamada “O Retombo”; a segunda, “O Golpe”; a terceira, “O Inevitável”; a quarta, “O Claro”; a quinta, “A Catástrofe”; e as outras, “O Toque Atordoador de Trombeta”, “O Acontecimento Próximo”, “O Grande Terror”, “A Trombeta”, “O Clarim” e outras semelhantes, de modo que todos os povos da terra possam saber com certeza e testemunhar, com olhos exteriores e interiores, que Aquele, o Senhor dos Nomes, tem prevalecido e continuará a prevalecer sobre todos os homens, sob todas as condições... Desde o princípio do mundo, jamais se havia proclamado a Mensagem tão abertamente... Glorificado seja este Poder irradiante que envolveu os mundos! Este ato do Causador das Causas, ao ser revelado, produziu dois resultados: aguçou as espadas dos infiéis e, ao mesmo tempo, movimentou as línguas daqueles que se volveram para Ele em comemoração e louvor. Eis o efeito dos ventos fecundantes, mencionados outrora na Lawh-i-Haykal. Toda a terra está agora em estado de prenhez. Aproxima-se o dia em que terá produzido seus mais nobres frutos, quando dela terão brotado as mais imponentes árvores, as flores mais encantadoras, as bênçãos mais celestiais. Incomensuravelmente excelso é o sopro que emana das vestes de teu Senhor, o Glorificado! Pois ei-Lo! Emitiu Sua fragrância e renovou todas as coisas! Felizes os que compreendem. Aquele que é o Senhor da Revelação, nenhuma destas coisas queria para Si próprio – isso está indubitavelmente claro e evidente. Embora sabendo que seria causa de tribulações, dificuldades e provações aflitivas, Ele, unicamente como sinal de Sua misericórdia e Seu favor, e com o fim de ressuscitar os mortos e remir todos os que estão na terra, fechando os olhos para Seu próprio bem-estar, suportou o que nenhuma outra pessoa jamais teve nem terá de suportar.”
As mais importantes de Suas Epístolas, dirigidas a soberanos individuais, Bahá’u’lláh mandou escrevê-las em forma de uma estrela pentangular, simbólica do templo humano e contendo, em conclusão, as seguintes palavras que revelam a importância atribuída por Ele a essas Mensagens e indicam sua associação direta à Profecia do Velho Testamento: “Assim construímos o Templo com as mãos do poder e grandeza - pudésseis apenas saber isso. É o Templo que vos é prometido no Livro. Aproximai-vos dele. É o que vos traz proveito – pudésseis apenas compreender isso. Sede justos, ó povos da terra! Qual é preferível, este ou um templo feito de barro? Volvi a face para ele. Assim vos foi ordenado por Deus, o Amparo no Perigo, o Independente. Segui o Seu mando e daí louvores a Deus, vosso Senhor, por aquilo que Ele vos concedeu. Ele, verdadeiramente, é a Verdade. Nenhum Deus há senão Ele. Ele revela o que Lhe apraz, através de Suas palavras: - Sê, e assim é.”
Referindo-se a este mesmo assunto em uma de Suas Epístolas, Ele assim se dirige aos adeptos de Jesus Cristo: “Ó assembléia dos que seguem o Filho! Em verdade, o Templo foi construído pelas mãos da vontade de vosso Senhor, o Onipotente, o Todo-Generoso. Dá testemunho, pois, ó povo, daquilo que Eu digo: - Qual é preferível, o que é construído de barro, ou o que é construído pelas mãos de vosso Senhor, o Revelador dos Versículos? Este é o Templo que vos é prometido nas Epístolas e que vos chama em altas vozes: - ó seguidores das religiões! Apressai-vos a fim de atingirdes Aquele que é a Origem de todas as causas, e não sigais todo infiel e incrédulo.”
Não se deve esquecer que, além destas Epístolas específicas dirigidas aos reis individual e coletivamente, Bahá’u’lláh revelou outras Epístolas – sendo a Lawh-i-Ra´ís um exemplo saliente – bem como, na massa de Seus escritos volumosos, introduziu inúmeras passagens nas quais se dirige, ou se refere, aos ministros, governos e seus acreditados representantes. Não desejo tratar, porém, dessas passagens que, embora vitais, não podem possuir o mesmo significado próprio das mensagens diretas e específicas, expressas pelo Manifestante de Deus e dirigidas aos sumos magistrados do mundo em Seu dia.
Caros amigos: Já se disse o bastante para descrever as tribulações que durante tanto tempo acabrunhavam os Fundadores de tão proeminente Revelação, das quais o mundo deixou de tomar conhecimento, e com resultados tão desastrosos. Atenção suficiente já se prestou também às Mensagens dirigidas àqueles soberanos que, no exercício de sua autoridade incondicional, provocaram deliberadamente esses sofrimentos, ou pelo menos se poderiam ter levantado, na plenitude de seu prestígio, a fim de mitigarem seu efeito ou desviarem seu curso trágico. Consideremos agora as conseqüências que sucederam. A reação desses monarcas, como já dissemos, foi variada e inequívoca e, à medida que a marcha dos acontecimentos se tem desdobrado gradativamente, desastrosa em suas conseqüências. Um dos mais eminentes desses soberanos tratou o Chamado Divino com vergonhoso desrespeito, dando-lhe uma resposta muito breve e pouco civil, escrita por um de seus ministros. Um outro recebeu o portador da Mensagem com violência: depois de o haver torturado e ferrado, trucidou-o brutalmente. Outros preferiram guardar um desdenhoso silêncio. Todos falharam completamente em seu dever de se levantarem e lhe prestarem seu apoio. Dois deles, especialmente, incentivados pelo impulso dual do medo e da zanga, oprimiram com ainda maior severidade a Causa que eles juntamente haviam resolvido desarraigar. Um condenou seu Prisioneiro Divino a ainda outro exílio, “à cidade do aspecto mais desagradável, cujo clima era o mais detestável e água a mais vil”, enquanto o outro, não podendo atacar o Impulsor Primaz de uma Fé odiada, sujeitou a crueldade atrozes e abjetas os adeptos que se achavam sob seu domínio. A descrição dos sofrimentos de Bahá’u’lláh contida nessas Mensagens não lograva despertar compaixão em seus corações. Rejeitaram desdenhosamente Seus apelos, como igual jamais foi registrado, nem nos anais do cristianismo nem nos do islã. Com arrogância, zombaram das ominosas advertências por Ele pronunciadas. De Seus desafios audazes, não tomaram conhecimento. Os castigos por Ele preditos foram objeto de riso.
Em face de tão completa e ignominiosa rejeição, pois, poderíamos considerar o que tem acontecido, e está ainda acontecendo, no decorrer do primeiro século Bahá’í, mais especialmente em seus anos finais, neste século cheio de sofrimentos tão tumultuosos e ultrajes tão violentos para a Fé fundada por Bahá’u’lláh, alvo de tanta perseguição. Impérios caídos no pó, reinos derribados, dinastias extintas, a realeza deturpada, reis assassinados, envenenados, sofrendo exílio ou humilhação em seus próprios domínios, enquanto os poucos tronos restantes tremem diante das repercussões da queda de seus colegas.
Tão gigantesco e catastrófico processo teve início – podemos dizer – naquela noite memorável em que, num obscuro canto de Shíráz, o Báb, na presença da Primeira Letra a crer Nele, revelou o primeiro capítulo de Seu célebre comentário sobre o Súrih de José (O Qayyúmu´l-Asmá), no qual trombeteou Seu Chamado aos soberanos e príncipes da terra. Passou da fase de incubação para a da manifestação visível, ao serem cumpridas as profecias de Bahá’u’lláh entesouradas para sempre no Súriy-i-Haykal, as quais Ele pronunciara antes da queda dramática de Napoleão III e da prisão voluntária do Papa Pio IX no Vaticano. Acelerou-se esse processo quando, nos dias de ‘Abdu’l-Bahá, a Grande Guerra extinguiu as dinastias dos Romanoffs, Hohenzollern e Hapsburgos e converteu em repúblicas as monarquias inveteradas e poderosas. Acelerou-se ainda mais, pouco depois do falecimento de ‘Abdu’l-Bahá, com a extinção da dinastia Qájár na Pérsia e o fragoroso colapso tanto do califado como do sultanato. E está operando ainda, ante nossos próprios olhos, enquanto testemunhamos o destino que alcança as cabeças coroadas, uma após outra, no continente europeu no curso dessa colossal e devastadora luta. Nenhum homem, de certo, ao contemplar imparcialmente as manifestações desse inexorável processo de revolução, dentro de tão curto espaço de tempo, comparativamente, escapará à conclusão de que os últimos cem anos bem podem ser considerados, no que diz respeito às fortunas da realeza, um dos períodos mais cataclísmicos nos anais da humanidade.


13. HUMILHAÇÃO IMEDIATA E COMPLETA

De todos os monarcas do mundo, no tempo em que Bahá’u’lláh, proclamando-lhes Suas Mensagens, revelou o Súriy-i-Múluk em Adrianópolis, os mais augustos e influentes eram o Imperador francês e o Sumo Pontífice. Nas esferas da política e da religião, respectivamente, ocuparam o primeiro lugar, e a humilhação sofrida por ambos foi não só imediata mas também completa.
Napoleão III, filho de Louis Bonaparte (irmão de Napoleão I), na opinião dos historiadores em geral, foi o mais eminente monarca de seu tempo no Oeste. “O Imperador” – dizia-se dele – “era o Estado”. A capital francesa era a mais atraente da Europa; a corte francesa “a mais brilhante e luxuosa do século XIX”. Ele, dominado por uma ambição fixa e indelével, aspirou a emular o exemplo de seu tio imperial e a concluir a obra interrompida. Sonhador, conspirador, de uma natureza vacilante, hipócrita, temerário, ele, o herdeiro ao trono napoleônico, aproveitando a política que visava a alimentar o renovado interesse na carreira de seu grande protótipo, tentar derribar a monarquia. Ao malograr-se sua tentativa, ele foi deportado para a América; mais tarde, quando tentava uma invasão da França, foi preso e condenado a cativeiro perpétuo, conseguindo porém escapar a Londres, onde permaneceu até que, em 1848, a Revolução efetivou seu regresso e o capacitou a tornar nula a constituição, depois do que foi proclamado imperador. Embora capaz de iniciar movimentos de grande alcance, ele não possuía a sagacidade nem a coragem necessária a fim de os controlar.
A esse homem, último imperador dos franceses, que por meio de conquistas no estrangeiro aspirava a ganhar a simpatia de seu povo para sua dinastia, e até alimentara o ideal de tornar a França centro de um renascido Império Romano – a tal homem o Exilado de ´Akká, já três vezes desterrado pelo Sultão ´Abdu´l-Azíz, havia transmitido, de trás dos muros do quartel em que estava encarcerado, uma Epístola que continha esta acusação indubitavelmente clara e esta profecia ominosa: “O que te despertou – disto damos testemunho – não foi seu grito (o dos turcos afogados no Mar Negro) mas, sim, foste incentivado por tuas próprias paixões, pois Nós te experimentamos e achamos falho... Tivesses tu sido sincero em tuas palavras, não terias jogado atrás de ti o Livro de Deus (Epístola anterior) quando te foi enviado por Aquele que é o Todo-Poderoso, o Onisciente. Por causa daquilo que fizeste, teu reino será entregue ao caos e teu império há de passar de tuas mãos como punição por aquilo que cometeste.”
A Mensagem anterior de Bahá’u’lláh, remetida ao Imperador por intermédio de um dos ministros franceses, teve um acolhimento cuja natureza pode ser conjeturada das palavras registradas na “Epístola ao Filho do Lobo”. “A esta (primeira Epístola), porém, ele não respondeu. Após Nossa chegada na Maior Prisão, veio-nos uma carta de seu ministro, a primeira parte da qual estava escrita em persa, e a última de seu próprio punho. Na carta, ele foi cordial, dizendo o seguinte: - Entreguei vossa carta, segundo me pedistes, e até agora não recebi resposta. Temos mandado, entretanto, as recomendações necessárias a nosso ministro em Constantinopla e nossos cônsules nessas regiões. Se desejardes que seja feita qualquer coisa, informai-vos e nós a executaremos. – De suas palavras se tornou evidente haver ele entendido que este Servo lhe queria pedir assistência material.”
Em sua primeira Epístola, Bahá’u’lláh, desejando provar a sinceridade dos motivos do Imperador, assumiu deliberadamente um tom humilde e não provocador, e, após se haver estendido sobre os sofrimentos por ele suportados, lhe dirigira as seguintes palavras: “Duas declarações feitas gentilmente pelo rei da época chegaram aos ouvidos destes injuriados. São, em verdade, o rei de todas as declarações, cujo igual jamais se ouvira de qualquer soberano. A primeira foi a resposta dada ao governo russo quando este perguntou por que a guerra (da Criméia) fora travada contra ele. Tu respondeste: - O grito dos oprimidos, inocentes de qualquer culpa, afogados no Mar Negro, despertou-me à alvorada. Por isso lancei mão das armas contra ti. – Estes oprimidos, porém, sofreram uma injustiça maior e se acham em grande aflição. Enquanto as provações infligidas àquelas pessoas duraram apenas um dia, as tribulações suportadas por estes servos continuam há vinte e cinco anos, cada momento dos quais nos tem trazido uma angústia penosa. A outra declaração imponente de fato uma declaração admirável manifestada ao mundo, foi esta: É nossa a responsabilidade de vingar os oprimidos e socorrer os desamparados. – A fama da justiça e equidade do Imperador tem trazido esperança a muitas almas. Convém ao rei da época informar-se sobre a condição dos injuriados, e incumbe-lhe conceder seu amparo aos fracos. Em verdade, nunca houve, nem há agora na terra, pessoa alguma tão oprimida como nós, nem tão desamparado como estes errantes.”
Diz-se que esse monarca superficial, ardiloso e intoxicado de orgulho, ao receber a primeira Mensagem, arremessou a Epístola, exclamando: “Se esse homem é Deus, eu sou dois deuses!” O portador da segunda Epístola – sabemos de fonte fidedigna – a escondera em seu chapéu a fim de evadir a estrita vigilância dos guardas, podendo assim entregá-la ao agente francês residente em ´Akká, o qual (segundo atesta Nabíl em sua narrativa) a traduziu para o francês e enviou ao Imperador, vindo ele mesmo a aceitar a Fé após haver testemunhado, mais tarde, o cumprimento de tão notável profecia.
Revelou-se, dentro em breve, o significado das palavras sombrias e ponderosas pronunciadas por Bahá’u’lláh em Sua segunda Epístola. Aquele que fora induzido por desejos egoístas a provocar a Guerra da Criméia, sendo incentivado por um ressentimento pessoal contra o Imperador Russo, e estando impaciente para rasgar o Tratado de 1815, a fim de se vingar do desastre de Moscou e realizar sua ambição de cobrir de glória militar o seu trono, foi, ele próprio, dentro de pouco tempo, engolfado por uma catástrofe que o lançou ao pó, fazendo a França descer de sua proeminente posição entre as nações para a de quarta potência na Europa.
A Batalha de Sedan em 1870 selou o destino do Imperador francês. Seu exército inteiro foi posto em debandada e rendeu-se, constituindo isso a maior capitulação até então registrada na história moderna. Exigiu-se uma indenização esmagadora. Ele mesmo foi preso, e seu único filho, o Príncipe Imperial, morreu, poucos anos depois, na Guerra Zulu. Seguiu-se o colapso do Império, sem se haver realizado seu programa. Proclamou-se a República. A cidade de Paris, mais tarde, foi assediada e teve que capitular. Veio então “o ano terrível”, assinalado por guerra civil que excedia em sua ferocidade a Guerra Franco-Germânica. Guilherme I, o rei prussiano, foi proclamado Imperador Alemão no próprio palácio que se erguera como um “poderoso monumento e símbolo do poder e do orgulho de Luis XIV, poder esse que fora atingido em grande parte pela humilhação da Alemanha”. Deposto por um desastre “tão horrendo que repercutia pelo mundo inteiro”, esse monarca falso e jactancioso, sofreu, a final, e até a morte, o mesmo exílio de que, no caso de Bahá’u’lláh, ele tão impiedosamente se recusara a tomar conhecimento.
Uma humilhação menos espetacular porém mais significativa historicamente, esperava o Papa Pio IX. Aquele que se considerava o Vigário de Cristo, Bahá’u’lláh escreveu: “A Palavra que o Filho (Jesus) ocultou, torna-se manifesta”, e também: “Fez-se descer em forma do templo humano”, dizendo que a Palavra era Ele próprio, e Ele próprio o Pai. Foi aquele que se denominava “O servo dos servos de Deus”, a quem o Prometido de todos os tempos, revelando em toda plenitude Sua posição, anunciou: “Aquele que é o Senhor dos Senhores veio, envolto em nuvens”. Foi a ele, pretenso sucessor de São Pedro, que Bahá’u’lláh lembrou: “Este é o dia em que a Pedra (Pedro) clama e brada... dizendo: - Eis o Pai, e já se cumpre o que vos foi prometido no Reino. –“ Ele, ornado da coroa tríplice, foi quem veio a ser mais tarde o primeiro prisioneiro do Vaticano, e a quem o Prisioneiro Divino de ´Akká ordenou “deixar seus palácios para aqueles que os desejassem”, “vender todos os ornamentos embelezados” que possuía e “despendê-los no caminho de Deus”, “abandonar seu reino aos reis” e sair de sua habitação com a face “voltada para o Reino”.
O Conde Mastai-Ferretti, Bispo de Ímola, o ducentésimo qüinquagésimo quarto papa desde o início da primazia de São Pedro, que fora elevado ao trono papal dois anos após a Declaração do Báb, a duração de cujo pontifício excedeu à de qualquer de seus professores, será lembrado permanentemente como autor do édito que declarou ser doutrina da Igreja Imaculada Conceição da Santa Virgem (1854), mencionada no Kitáb-i-Iqán, e como promulgador do novo dogma da Infalibilidade Papal (1870). Era autoritário de natureza, fraco como estadista, não se dispunha à conciliação, resolvido, antes, a preservar toda sua autoridade, mas, se bem que conseguisse melhor definir sua posição e reforçar sua autoridade espiritual, em virtude de haver assumido uma atitude ultramontana, ele não logrou, enfim, manter aquele domínio temporal que os primazes da Igreja Católica vinham exercendo desde tantos séculos.
Esse poder temporal havia minguado através dos séculos até atingir proporções insignificantes. As décadas anteriores à sua extinção foram caracterizadas pelas mais severas vicissitudes. Enquanto o sol da Revelação de Bahá´u ´lláh atingia pleno esplendor merídio, as sombras que assediavam o decrescente patrimônio de São Pedro enegreciam com a mesma celeridade. A Epístola de Bahá’u’lláh dirigida ao Pio IX, precipitou a extinção desse patrimônio. Basta um olhar rápido para o curso de suas fortunas declinantes nessas décadas. Napoleão I expulsara o Papa de suas propriedades. O Congresso de Viena lhas restituiu, com sua administração nas mãos dos sacerdotes. Em vista da corrupção e desorganização, da incapacidade de garantir a segurança interna, e do ressurgimento da inquisição, um historiador sentiu-se capaz de asseverar que “nenhuma parte da Itália, nem talvez da Europa, a não ser a Turquia, é governada como o é esse estado eclesiástico”. Roma era “uma cidade de ruínas, tanto material como moralmente”. Insurreições levaram a Áustria a intervir. Cinco grandes potências insistiram sobre a introdução de reformas de grande alcance, o que o Papa prometeu mas não levou a cabo. A Áustria reivindicou sua posição, sendo oposta pela França. Ambas estreitaram-se mutuamente nas propriedades papais, até 1838, quando, ao se retirarem, o absolutismo foi novamente estabelecido. O poder temporal do Papa foi então estigmatizado por alguns de seus próprios súditos, o que pressagiava sua extinção em 1870. Complicações internas forçaram-no a fugir de Roma na calada da noite, disfarçado como um padre humilde, havendo a Cidade Eterna se declarado república. Mais tarde, os franceses restituíram-na a seu estado anterior. Com a criação do reino da Itália, a mudança de política de Napoleão III, o desastre de Sedan, os delitos do governo papal os quais Clarendon, perante o Congresso de Paris, ao término da Guerra da Criméia, denunciara como uma “vergonha para a Europa” – selou-se o destino daquele domínio cambaleante.
Em 1870, após haver Bahá’u’lláh revelado Sua Epístola a Pio IX, o Rei Vitor Emanuel I fez guerra aos Estados Papais, e suas tropas entraram em Roma. Na véspera dessa entrada vitoriosa o Papa havia se retirado para Latrão e, a despeito de sua idade avançada, subido de joelhos a Scala Santa. Na manhã seguinte, ao iniciar-se a canhonada, ele mandou içar-se a bandeira branca sobre o zimbório de São Pedro. Espoliado, recusou-se a reconhecer essa “criação de revolução”, excomungou os invasores de seus Estados, denunciou Vitor Emanuel como o “Rei ladrão”, “esquecido de todo princípio religioso, desprezador de todo direito, espezinhando toda lei”. Roma, “a Cidade Eterna, sobre a qual repousam vinte e cinco séculos de glória”, governada pelos Papas com autoridade inatacável havia dez séculos, tornou-se, afinal, sede do novo reino e a cena daquela humilhação que Bahá’u’lláh antecipara e o Prisioneiro do Vaticano se impusera a si próprio.
“Os derradeiros anos do velho Papa”, escreve um comentarista sobre sua vida, “foram repletos de angústia. Às enfermidades físicas se acrescentou o desgosto de presenciar, com demasiada freqüência, o ultraje da Fé no próprio coração de Roma, de ver espoliadas e perseguidas as ordens religiosas e impedido aos bispos e padres o exercício de suas funções”.
Todos os esforços no sentido de reparar a situação criada em 1870 foram infrutíferos. O Arcebispo de Posen foi a Versailles a fim de solicitar a intervenção de Bismarck em prol do papado, mas teve uma recepção fria. Mais tarde, se organizou um partido católico na Alemanha com o fim de exercer pressão sobre o Chanceler alemão. Tudo, porém, foi em vão. O poderoso processo ao qual já nos referimos, teve de seguir seu curso inexoravelmente. Mesmo agora, depois de se haver passado mais de meio século, a chamada restauração da soberania temporal nada fez senão por em maior relevo a impotência desse príncipe, outrora tão poderoso, diante de cujo nome reis tremiam, submetendo-se à sua soberania dual sem a mínima oposição. Essa soberania temporal, que se confinava praticamente à cidade minúscula do Vaticano, deixando à Roma a posse indisputável de uma monarquia secular, só foi obtida mediante o reconhecimento incondicional (já tanto tempo negado) do Reino da Itália. O Tratado de Latrão, pretendendo haver resolvido, uma vez por todas, a Questão Romana, de fato assegurou a uma Potência secular, a respeito da Cidade Encravada, uma liberdade de ação que acarreta incerteza e perigo. “As duas almas da Cidade Eterna”, observou um escritor católico, “separaram-se uma da outra, apenas para colidirem mais severamente do que nunca”.
Bem poderia o Sumo Pontífice lembrar-se do mais poderoso dentre seus predecessores, Inocente III, que durante os dezoito anos de seu pontificado erguia e depunha os reis e os imperadores, cujos interditos privavam nações do exercício do culto cristão aos pés de cujo legado o Rei da Inglaterra rendeu sua coroa, e em obediência a cuja voz se empreendeu a quarta cruzada como também a quinta.
E durante os tumultuosos anos com que a humanidade defronta, não poderia o processo ao qual já nos referimos, manifestar, no curso de sua operação, e no mesmo domínio, um distúrbio ainda mais devastador do que qualquer outro até agora produzido?
O colapso dramático tanto do Terceiro Império como da dinastia napoleônica, com a virtual extinção da soberania temporal do Sumo Pontífice, durante a vida de Bahá’u’lláh, foram apenas os precursores de catástrofes ainda maiores que assinalaram, pode-se dizer, o ministério de ‘Abdu’l-Bahá. Podemos atribuir essas terríveis catástrofes às forças desenfreadas por um conflito cuja plena significação ainda não sondamos e que pode ser visto como o prelúdio a esta, a mais assoladora de todas as guerras. O progresso da Guerra de 1914-1918 destronou a Casa de Romanov, enquanto seu término precipitou a queda da dinastia de Hapsburg como também da de Hohenzollern.


14. O SURGIR DO BOLSHEVISMO

O surgir do bolshevismo, em meio à conflagração daquele conflito inconcludente, abalou o trono dos tzares e finalmente o derrubou. A Nicolaevich Alexandre II, Bahá’u’lláh ordenara em Sua Epístola: “Levanta-te... e convoca as nações para Deus”, três vezes lhe advertindo: “Acautela-te para que teu desejo não te impeça de te volver para a face de teu Senhor”, “acautela-te para que não troques tão sublime posição”, “acautela-te para que tua soberania não te prive Daquele que é o Soberano Supremo”. E, embora ele não fosse, realmente, o último dos tzares a governar seu país, foi, no entanto, o iniciador de uma política retrocessiva que se provou, enfim, tão fatal para ele como para sua dinastia.
Na última parte de seu reinado, ele introduziu uma política reacionária que causou desilusão universal e deu origem ao niilismo, o qual, à medida que se espalhava, inaugurou um período de violência sem precedentes, levando por sua vez a vários atentados à sua vida e culminando em seu assassínio. Severa opressão guiou a política de seu sucessor, Alexandre III, que “assumiu uma atitude de hostilidade desafiadora para com inovadores e liberais”. A tradição do absolutismo incondicional e da extrema ortodoxia religiosa foi mantida pelo último dos tzares, Nicolas II, que era de uma severidade ainda maior. Guiado pelos conselhos de um homem que era “a verdadeira encarnação de um despotismo estreito e arrogante”, com o apoio de uma burocracia corrupta, e humilhado pelos efeitos desastrosos de uma guerra estrangeira, ele aumentou o descontentamento geral, tanto dos intelectuais como dos camponeses. Por algum tempo teve o niilismo de operar ocultamente, mas foi intensificado por reveses militares e explodiu, afinal, no meio da Grande Guerra, em forma de uma Revolução que, quanto aos princípios que desafiava, às instituições por ela subvertidas e à destruição causada, dificilmente encontra paralelo na história moderna.
Uma grande agitação abalou os fundamentos do país. Ofuscou-se a luz da religião. Extinguiram-se as instituições eclesiásticas de todas as seitas. A religião oficial perdeu suas doações, foi perseguida e eliminada. Um vasto império desmembrou-se. Um proletariado militante, vencendo, exilou os intelectuais, e procedeu à espoliação e ao massacre da nobreza. Guerra civil e moléstia dizimaram a população que mergulhava na agonia e no desespero. E, finalmente, o Sumo Magistrado de um poderoso domínio, com sua família e sua dinastia, foram levados para o vórtice dessa grande convulsão e pereceram.
A mesma calamidade que amontoou tão temíveis infortúnios sobre o império dos tzares, efetivou, em suas etapas finais, a queda do onipotente Kaiser alemão, bem como a do herdeiro do Santo Império Romano, outrora tão afamado. Demoliu a inteira estrutura da Alemanha Imperial – surgida em conseqüência do desastre que engolfara a dinastia napoleônica – e deu o golpe mortífero à Monarquia Dual.
Bahá’u’lláh, que predissera, em termos claros e ressonantes, a queda ignominiosa do sucessor do grande Napoleão, havia, quase meio século antes, no Kitáb-i-Aqdas, dirigido ao Kaiser Guilherme I, pouco depois de ser ele aclamado vitorioso, uma advertência não menos significativa, pressagiando, em palavras igualmente inequívocas, em Sua apóstrofe às margens do Reno, o pesar que haveria de afligir a capital do império recém-federado.
“Lembra-te” – Bahá’u’lláh assim se lhe dirigiu – “daquele (Napoleão) cujo poder transcendeu teu poder, e cuja posição excedeu à tua posição... Pense nele, ó rei, profundamente, e naqueles que, semelhantes a ti, conquistaram cidades e governaram os homens.” E ainda: “Ó margens do Reno! Nós vos temos visto ensangüentados, desde que as espadas da retribuição se desembainharam contra vós; e virão ainda outra vez. E ouvimos os lamentos de Berlim, embora esteja hoje em glória notável.”
Caiu em vários graus o pleno peso das responsabilidades conseqüentes de tão agoureiras pronunciações sobre aquele que na velhice resistiu a dois atentados contra sua vida, feitos por partidários do crescente fluxo de socialismo, sobre seu filho, Frederico III, cujo reinado de três meses se nublava à face da moléstia mortal, e, finalmente, sobre seu neto, Guilherme II, o monarca obstinado e presunçoso, que arruinou o seu próprio império.
Guilherme I, primeiro imperador alemão e sétimo rei da Prússia, cuja vida inteira, até a data de sua subida ao trono, se passara no exército, foi um governante militarista, autocrata, imbuído de idéias antiquadas, e – com o apoio de um estadista considerado com justiça “um dos gênios de seu século” – introduziu uma política que, podemos dizer, inaugurou uma nova era não só para a Prússia mas também para o mundo. Seguiu ele a esta política do modo absoluto que lhe era característico, sendo ela aperfeiçoada por meio das medidas repressivas tomadas para salvaguardá-la e sustentá-la, por meio das guerras travadas para sua realização e das combinações subseqüentemente formadas com o fim de a exaltar e consolidar – combinações que acarretaram tão terríveis conseqüências para o continente europeu.
Guilherme II, de temperamento ditatorial, sem experiência na política, militarmente agressivo, insincero em sua religião, embora se dissesse apóstolo da paz européia, na realidade insistia sobre o “punho armado” e a “armadura lustrosa”. Irresponsável, indiscreto, desmedidamente ambicioso, seu primeiro ato foi a demissão daquele estadista sagaz, verdadeiro fundador de seu império, à cuja sagacidade Bahá’u’lláh prestara homenagem, e da insensatez de cujo ingrato imperial ‘Abdu’l-Bahá dera testemunho. Guerra tornou-se realmente uma religião de seu país e, pela ampliação do âmbito de suas múltiplas atividades, ele procedeu a preparar o caminho para aquela catástrofe final que viria destronar a ele e a sua dinastia. E quando estourou a guerra, e o poder de seus exércitos parecia haver sobrepujado seus adversários, divulgando-se largamente a notícia de seus triunfos, atingindo até a Pérsia, vozes levantaram-se para ridicularizar aquelas passagens do Kitáb-i-Aqdas que tão claramente prognosticaram os infortúnios destinados a atingir sua capital. De súbito, porém, reveses imprevistos e rápidos alcançaram-no fatalmente. Irrompeu a revolução. Guilherme II, abandonando seus exércitos, fugiu vergonhosamente para a Holanda, seguido pelo príncipe herdeiro. Os príncipes dos estados alemães abdicaram. Seguiu-se um período de caos. A bandeira comunista foi içada na capital, assim vindo esta a ser um foco de confusão e luta civil. O Kaiser assinou sua abdicação. A Constituição de Weimar estabeleceu a República, e a tremenda estrutura, tão laboriosamente erguida através de uma política de sangue e ferro, desabou. Nulos foram todos os esforços assiduamente envidados desde a subida de Guilherme I ao trono prussiano, por meio de legislação interna bem como por guerras estrangeiras. Levantaram-se “os lamentos de Berlim” em sua aflição por causa dos termos de um tratado monstruoso em sua severidade – lamentos estes em notável contraste com os hílares gritos de vitória que haviam ressoado, meio século antes, no Salão dos Espelhos do Palácio de Versailles.
Simultaneamente, o monarca de Hapsburg, herdeiro de séculos de história gloriosa, tombou de seu trono. Foi Francisco José, a quem Bahá’u’lláh repreendera no Kitáb-i-Aqdas por não haver cumprido seu dever de investigar Sua Causa e nem aos menos ter procurado Sua Presença quando isso lhe teria sido tão fácil durante sua visita à Terra Santa. “Tu passaste por Ele – assim Ele reprova o imperador peregrino – e sobre Ele não inquiriste... Temos estado consigo em todos os tempos e visto segurar-te ao Ramo enquanto desatendias a Raiz... Abre teus olhos, a fim de que possas contemplar esta Gloriosa Visão e reconhecer Aquele a quem invocas durante o dia e à noite, e ver a Luz que brilha por cima deste Horizonte luminoso.”
A Casa de Hapsburg, em que o Título Imperial fora praticamente hereditário por quase cinco séculos, estava sendo, desde que foram proferidas estas palavras, cada vez mais ameaçada pelas forças da desintegração interna como também estava lançando as sementes de um conflito externo, sucumbindo, finalmente, a ambas. Francisco José, Imperador da Áustria, Rei da Hungria, governante reacionário, restabeleceu os velhos abusos, descuidou dos direitos das nacionalidades e restituiu aquela centralização burocrática que veio a ser, mais tarde, tão prejudicial a seu império. Repetidas tragédias obscureceram seu reinado. Seu irmão Maximiliano foi fuzilado no México. O Príncipe Herdeiro Rudolfo pereceu em circunstâncias desonrosas. A Imperatriz foi assassinada em Genebra. Mataram o Arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa em Serajevo, episódio que ateou uma guerra durante a qual o próprio Imperador perdeu a vida, e assim chegou ao fim um reinado nunca excedido por qualquer outro no que diz respeito aos desastres infligidos sobre a nação.


15. FIM DO SACRO IMPÉRIO ROMANO

Esforços tardios haviam sido feitos para firmar seu trono prestes a ruir. O “império desconjuntado”, uma mescla de estados, raças e idiomas, desintegrava-se, porém, inexorável e celeremente. A situação política e econômica estava desesperadora. Da derrota da Áustria e da Hungria, na mesma guerra, resultou seu desmembramento, pressagiando sua morte. A Hungria desligou-se. Fez-se partilha do reino conglomerado, e tudo o que restou do Sacro Império Romano, outrora tão temido, foi uma república encolhida que levou uma existência miserável até que, em tempos mais recentes, de um modo distinto ao de sua nação irmã, se extinguiu completamente, sendo apagada do mapa político da Europa.
Tal, pois, foi o destino daqueles impérios – o napoleônico e os dos Romanof, Hohenzollern e Hapsburg, a cada um de cujos governantes, individualmente, também ao soberano ocupante do trono papal, a Pena do Altíssimo se dirigiu, respectivamente punindo, advertindo e condenando, repreendendo e admoestando. O que dizermos do destino daqueles soberanos que exerciam jurisdição política direta sobre a Fé, seus Fundadores e adeptos, no âmbito de cujos domínios a Fé nascera e primeiro se difundira, e que tinham assim liberdade para crucificar seu Arauto, banir seu Fundador e ceifar seus adeptos?


16. QUAL O DESTINO DA TURQUIA E DA PÉRSIA?

Já no tempo de Bahá’u’lláh e, mais tarde, durante o ministério de ‘Abdu’l-Bahá, caiam os primeiros golpes de uma retribuição lenta mas contínua e inexorável sobre os governantes da Casa Turca de ´Uthmán e, igualmente, da dinastia Qájár na Pérsia – os arquiinimigos da recém-nascida Fé Divina. O Sultão ´Abdu´l-´Azíz caiu do poder e foi assassinado pouco após o desterro de Bahá’u’lláh em Adrianopla, enquanto o Xá Násiri´d-Dín sucumbiu diante da pistola de um assassino durante o encarceramento de ‘Abdu’l-Bahá na cidade-fortaleza de ´Akká. Ao Período Formativo da Fé Divina, porém – a era que viu nascer e surgir sua Ordem Administrativa, a qual, como disse em uma comunicação anterior, está criando, à medida que se desenvolve, tão grande transtorno no mundo – coube presenciar não só a extinção de ambas essas dinastias, mas também o fim das instituições gêmeas: o sultanato e o califado. Dos dois déspotas, Abdu´l-´Azíz era o mais poderoso, de posição mais elevada, o mais preeminente em delitos e o mais responsável pelas tribulações e vicissitudes do fundador de nossa Fé. Foi ele quem, através de seus decretos, três vezes exilara a Bahá’u’lláh, e em seus domínios o Manifestante de Deus passou quase todo o cativeiro de quarenta anos. Foi durante seu reinado, como também no e seu sobrinho e sucesso, ´Abdu´l-Hamid II, que o Centro do Convênio de Deus teve de suportar, por nada menos de quarenta anos, na cidade-fortaleza de ´Akká, um encarceramento repleto de perigos, ultrajes e privações.
“Ouve, o rei!” é o chamado de Bahá’u’lláh ao sultão ´Abdu´l-´Azíz, “as palavras Daquele que diz a verdade, Daquele que não te pede como recompensa as coisas que Deus se dignou te conceder, Daquele que segue sem errar o Caminho Reto... Observa, ó rei, do imo de teu coração e com todo o teu ser, os preceitos de Deus, e não andes nos caminhos do opressor... Não ponhas tua confiança na graça de Deus, teu Senhor... Não transgridas os limites da moderação e mostra justiça aos que te servem... Põe ante teus olhos a infalível Balança de Deus e, como se estivesses em Sua Presença, pesa nessa Balança tuas ações cada dia, a cada momento de tua vida. Examina-te a ti próprio antes de seres chamado a juízo, no Dia em que homem algum terá forças para se manter em pé por temor a Deus, Dia em que os corações dos desatentos se farão tremer.”
“Aproxima-se o dia” – Assim prediz Bahá’u’lláh na Lawh-i-Ra´ís – “em que a Terra do Mistério (Adrianópolis) e aquilo que está a seu lado serão mudados e sairão das mãos do rei, em que comoções haverão de aparecer e a voz do lamento se erguerá, o dia em que de todos os lados se revelarão as evidências de dano e o caos se espalhará por causa daquilo que sucedeu a estes cativos nas mãos das hostes opressoras. O curso das coisas há de se alterar, tornando-se tão penosas as condições que as próprias areias nas colinas desoladas gemerão; das árvores, na montanha, se ouvirá choro, e o sangue correrá de todas as cosias. Então verás o povo em angústia extrema.”
“Logo”, escreveu Bahá’u’lláh também, “Sua grande ira atingir-vos-á; a sedição surgirá em vosso meio e vossos domínios haverão de se romper. Nesse tempo havereis de gemer e lastimar, e a ninguém encontrareis que vos preste socorro ou auxílio. Várias vezes vos sobrevieram calamidades e, no entanto, não fostes, em absoluto, advertidos. Uma destas foi a conflagração que devorou a maior parte da cidade (Constantinopla) com as chamas da justiça, e sobre a qual foram escritos muitos poemas nos quais se dizia jamais haver sido testemunhado incêndio igual. E, no entanto, vós vos tornastes mais negligentes... Irrompeu também uma praga, mas ainda deixastes de atender! Sede expectadores, pois a ira de Deus está prestes a vos atingir. Dentro em breve vereis o que desceu da Pena de Meu comando.”
“Pelos vossos atos” – Ele, em outra Epístola, antecipando a queda do sultanato e do califado, assim reprova as forças combinadas do islã sunita e xiita – “a elevada posição do povo foi rebaixada, arrevesando-se o estandarte do islã, e caindo seu poderoso trono.”
E, finalmente, no Kitáb-i-Aqdas, revelado pouco depois do desterro de Bahá’u’lláh para ´Akká, Ele assim interpela a sede do poder imperial turco: “Ó Lugar sito nas praias dos dois mares! O trono da tirania, em verdade, estabeleceu-se sobre ti, e dentro de teu seio se ateou a chama do ódio... Estás realmente cheio de orgulho manifesto. Terá teu esplendor externo te tornado vanglorioso? Por Aquele que é o Senhor da humanidade! Isso em breve perecerá, e tuas filhas e tuas viúvas e todos os congêneres que em ti habitam lamentarão. Assim te informa o Onisciente, o Sapientíssimo.” De fato, numa passagem muito notável da Lawh-i´Fu´ád, a qual faz alusão à morte de Fu´ád Páshá, Ministro de Relações Exteriores da Turquia, encontra-se uma predição inequívoca da queda do próprio sultão: “Breve demitiremos Aquele que lhe era similar, e aprisionaremos seu chefe que governa a terra. Eu, verdadeiramente, sou o Todo-Poderoso, Quem sobre tudo predomina.”
O efeito destas palavras sobre o sultão, relativas à sua pessoa, ao seu império e trono, à sua capital e aos seus ministros, pode ser percebido na recitação dos sofrimentos que infligiu a Bahá’u’lláh, aos quais já nos referimos nas primeiras destas páginas. A extinção do “esplendor externo”, que rodeava aquela orgulhosa sede de poder imperial, é o tema que agora passarei a expor.


17. O LÚGUBRE DESTINO DA TURQUIA IMPERIAL

Um processo cataclísmico, um dos mais notáveis da história moderna, se pusera em movimento desde que Bahá’u’lláh, enquanto prisioneiro em Constantinopla, entregou a um oficial turco Sua Epístola endereçada ao Sultão ´Abdu´l-´Azíz e aos seus ministros, para ser transmitida a ´Alí Páshá, ao Grão-Vizir. Foi esta Epístola que, segundo atesta esse oficial e afirma Nabíl em sua crônica, afetou o Vizir tão profundamente que empalideceu durante sua leitura. Esse processo recebeu novo ímpeto com a revelação da Lawh-i-Ra´is logo depois do exílio final de seu Autor, de Adrianópolis para ´Akká, e, implacável, devastador, com crescente rapidez, desenvolvia-se ominosamente, lesando o prestígio do Império, desmembrando-lhe o território, destituindo os sultãos de seus tronos e varrendo suas dinastias, degradando e depondo seu califa, extirpando-lhe a religião e extinguindo-lhe a glória. O “homem doente” da Europa, de cuja condição fizera o Médico Divino seu diagnóstico certo, pronunciando inevitável sua ruína final, sofreu, durante o reinado de cinco sultãos sucessivos – todos eles degenerados, sendo todos depostos – caindo vítima, enfim, de uma série de convulsões que se provaram ser fatais à sua vida. A Turquia imperial que, sob o domínio de ´Abdu´l-Majid, fora admitida ao Concerto Europeu e emergia vitoriosa da Guerra da Criméia, entrou, sob seu sucessor, ´Abdu´l-´Azíz, num período de célere declínio, culminando, pouco depois do trespasse de ‘Abdu’l-Bahá, na pena pronunciada contra ela pelo julgamento divino.
Levantes na Ilha de Creta e nos Bálcãs assinalaram o reinado deste sultão – trigésimo segundo de sua dinastia – déspota vazio de espírito, temerário ao extremo, de uma extravagância sem limites. A Questão Oriental entrou em fase aguda. Os flagrantes abusos de seu governo deram origem a movimentos destinados a exercer influências de grande alcance em seus domínios, enquanto os empréstimos enormes e contínuos obtidos por ele, levando a um estado de semibancarrota, introduziram o princípio de controle estrangeiro sobre as finanças de seu império. Uma conspiração terminando numa revolução no palácio veio finalmente depô-lo. O mufti denunciou sua incapacidade e sua extravagância. Quatro dias depois, foi assassinado pelo sobrinho, Murád V, cuja mente se reduzira à nulidade pela intemperança e pela longa reclusão na “Gaiola”. Declarando-o imbecil, depuseram-no após um reinado de três meses, quando lhe sucedeu ´Abdu´l-Hamíd II, homem de extrema sutileza e suspicaz, tirânico, que “se provou ser o mais miserável intrigante, o mais astucioso, pérfido e cruel da longa dinastia de ´Uthmán”. Segundo um escritor: “Não se podia saber, de um dia para outro, de quem era o conselho que levara o sultão a contrariar seus ministros ostensíveis, se era de uma favorita de seu harém, de um eunuco, de algum dervis fanático, de um astrólogo ou um espião.” As atrocidades búlgaras prenunciaram o reinado negro deste “Grande Assassino” que fez a Europa vibrar de horror, sendo essas atrocidades caracterizadas por Gladstone como “os mais nefandos e tetros ultrajes registrados nesse (XIX) século”. A guerra de 1877-8, acelerou o processo de desmembramento do império. Nada menos de onze milhões de pessoas emanciparam-se do jugo turco. As tropas russas ocuparam Adrianópolis. A Sérvia, Montenegro e a Romênia proclamaram sua independência. A Bulgária tornou-se estado autônomo, tributário ao sultão. Chipre e Egito foram ocupados. Os franceses assumiram um protetorado sobre a Tunísia. A Rumelia oriental foi cedida à Bulgária. O massacre de armênios em vasta escala, atingindo, direta ou indiretamente, cem mil almas, foi apenas o precursor do derramamento de sangue, de uma forma ainda mais extensa, num reinado posterior. A Bósnia e a Herzegovina foram perdidas à Áustria. A Bulgária obteve sua independência. Desprezo e ódio universais de um soberano infame, sentidos tanto pelos seus súditos cristãos como pelos muçulmanos, culminaram, afinal, numa revolução veloz e de vasto alcance. O Comitê dos Jovens Turcos conseguiu do Shaykhu´l-Islam a condenação do sultão. Deixado ao abandono, sem amigos, objeto da execrações dos súditos e do desdém dos colegas governantes, ele se viu forçado a abdicar, tornando-se prisioneiro do Estado, assim pondo termo a um reinado o “mais desastroso pelas suas perdas imediatas de território e pela certeza de outras vindouras, e mais conspícuo pela piora da situação de seus súditos, do que qualquer outro de seus vinte e três predecessores degenerados, desde a morte de Soliman o Magnífico.”
O fim de tão vergonhoso reinado foi apenas o começo de uma nova era que – embora, de início, acolhida tão auspiciosamente – era destinada a testemunhar o colapso do Estado Otomano tão desconjuntado e carcomido. Muhammad V, irmão de ´Abdu´l-Hamíd II, uma nulidade absoluta, não soube melhorar a condição de seus súditos. As loucuras de seu governo determinaram irrevogavelmente o trágico fim do império. A guerra de 1914-18 forneceu a ocasião. Reveses militares levaram ao ponto fulminante as forças que solapavam suas bases. Enquanto a guerra ainda continuava, a deserção do Xerife de Meca e a revolta das províncias árabes pressagiaram a convulsão que haveria de atacar o trono turco. A fuga precipitada e a destruição completa do exército de Jamál Páshá, comandante-chefe na Síria – aquele que jurara arrasar, após seu regresso triunfante do Egito, o Túmulo de Bahá’u’lláh, e crucificar publicamente o Centro de Seu Convênio numa praça de Constantinopla – eram sinais da némesis que sobreviria a um império angustiado. Nove décimos dos grandes exércitos turcos dissolveram-se. A quarta parte da população inteira havia perecido em conseqüência da guerra, de moléstias, fome e massacre.
Um novo governante, Muhammad VI, último dos vinte e cinco sucessivos sultãos degenerados, tomara posse, entrementes, do trono de seu desgraçado irmão. A estrutura do império estava vacilando agora e prestes a ruir. Mustafá Kamál deu-lhe os golpes finais. A Turquia, tão encolhida que era apenas um pequeno estado asiático, tornou-se uma república. Depuseram o sultão e terminaram o sultanato, extinguindo assim um domínio que permanecera ininterrupto havia seis séculos e meio. Um império que se estendera do centro da Hungria até o Golfo Persa e o Sudão, e do Mar Cáspio até o Orã na África, estava agora tão reduzido ao ponto de constituir uma pequena república asiática. A própria Constantinopla que, após a queda de Bizâncio, havia sido honrada como a metrópole esplendorosa do Império Romano e feita capital do governo otomano, foi abandonada pelos seus conquistadores e despida de sua pompa e sua glória – uma recordação muda da tirania vil que desde tanto tempo lhe maculara o trono.
Tais foram, num breve esboço, as terríveis evidências daquela justa retribuição que tão tragicamente afligiu a ´Abdu´l-´Azíz, a seus sucessores, seu trono e sua dinastia. Que dizermos do Xá Násiri´d-Din, co-participante naquela conspiração imperial que visava extirpar, raiz e ramo, a nascente Fé Divina? Sua reação à Mensagem Divina que lhe fora entregue pelo destemido Badí – o “Orgulho dos Mártires”, que se havia espontaneamente dedicado a essa missão – foi característica daquele ódio implacável que lhe ardia no peito, com tanta ferocidade, por todo seu reinado.


18. A RETRIBUIÇÃO DIVINA NA DINASTIA DE QÁJÁR

O Imperador francês – foi dito – jogara fora a Epístola de Bahá’u’lláh e dera ordem a seu ministro – como nos assevera o próprio Bahá’u’lláh – de dirigir a seu Autor uma resposta irreverente. O grão-vizir de ´Abdu´l-´Azíz – afirma-se de fonte fidedigna – empalideceu ao ler o comunicado dirigido a seu mestre imperial e seus ministros, e fez o seguinte comentário: “É como se o rei dos reis emitisse sua ordem imperativa ao mais humilde rei vassalo e regulasse sua conduta!” Diz-se que a Rainha Vitória, ao ler a Epístola para ela revelada, observou: “Se isso for de Deus, perdurará; se não, nenhum mal poderá fazer.” Ao Xá Násiri´d-Dín, entretanto, coube vingar-se, à instigação dos sacerdotes, Daquele a Quem não mais podia castigar pessoalmente, valendo-se para isso da apreensão de Seu mensageiro, jovem de uns dezessete anos, a quem mandou acorrentar pesadamente, torturando-o no ecúleo e, afinal, pondo termo à sua vida.
A esse soberano despótico Bahá’u’lláh, que o denunciara como o “Príncipe dos Opressores” e como aquele que breve seria feito “um exemplo para o mundo”, escrevera: “Contempla este jovem, ó rei, com os olhos da justiça; julga, pois, com verdade, daquilo que lhe sobreveio. Na realidade, Deus te fez Sua sombra entre os homens, e o sinal de Seu poder para todos os que habitam na terra.” E outra vez: “Ó rei! Fosses tu inclinar teus ouvidos para o tom penetrante da Pena da Glória e o canto do Pombo da Eternidade... atingirias uma condição em que nada perceberias no mundo existente a não ser a fulgência do Adorado, e verias tua soberania como a mais desprezível de tuas possessões, vindo, pois, a abandoná-la a quem a desejasse e dirigir tua face ao horizonte que resplandece com a luz de Seu semblante.” E ainda: “Quereríamos esperar, porém, que Sua Majestade o Xá examinasse, ele próprio, estes assuntos, e desse esperança aos corações. O que Nós te temos submetido é, realmente, para teu maior bem.”
Esta esperança, entretanto, não haveria de se cumprir. Foi, de fato, destruída por um reinado que se inaugurara com a execução do Báb e o encarceramento de Bahá’u’lláh no Síyáh-Chál de Teerã, por um soberano que havia repetidas vezes instigado os sucessivos desterros de Bahá’u’lláh, e por uma dinastia maculada com a trucidação de nada menos de vinte mil de Seus adeptos. O dramático assassínio do Xá, o governo ignóbil dos últimos soberanos da Casa de Qájár, e a extinção daquela dinastia, foram exemplos notáveis da retribuição divina que essas horrendas atrocidades haviam provocado.
Os qájárs, membros da tribo estrangeira turcomana, haviam de fato usurpado o trono persa. Aqá Muhammad Khán, o Xá eunuco e fundador da dinastia, foi um tirano tão brutal, avarento e sanguinário que a memória de nenhum persa é tão detestada e universalmente execrada quanto a sua. A história de seu reinado, assim como do de seus sucessores imediatos, é de vandalismo, de guerras internas, de chefes recalcitrantes e rebeldes, de banditismo e opressão medieval, enquanto que, nos anais dos reinados dos Qájárs ulteriores, sobressaem a estagnação do país, o analfabetismo do povo, corrupção e incompetência do governo, intrigas escandalosas da corte, decadência dos príncipes, irresponsabilidade e extravagância do soberano e sua ignóbil subserviência a uma ordem clerical notoriamente degradada.
O sucessor de Aqá Muhammad Khán, o dissoluto Xá Fath-´Alí, o chamado “Dário da Era”, vaidoso e arrogante, um avarento inescrupuloso, foi notório não só pelo enorme número de suas esposas e concubinas – atingindo mais de mil, e pela prole incalculável, mas também pelos desastres que seu governo trouxe ao país. Foi ele que mandou jogar seu vizir, a quem devia seu trono, numa caldeira de óleo fervendo. Quanto a seu sucessor, o intolerante Xá Muhammad, um dos seus primeiros atos, condenado definitivamente pela pena de Bahá’u’lláh, foi a ordem de estrangular seu primeiro ministro, o ilustre Qá´im-Maqám, imortalizado por esta mesma pena como o “Príncipe da Cidade da Diplomacia e das Habilitações Literárias”, substituindo-o por aquele homem inculto de consumada vileza, Hájí Mirzá Aqásí, que levou o país à beira da bancarrota e da revolução. Foi este mesmo Xá que se recusou a entrevistar o Báb e O encarcerou em Adhirbáyján, e que, aos quarenta anos de idade, foi atingido por uma complicação de moléstias às quais sucumbiu, apressando assim o mau fim pressagiado nestas palavras do Qayyúmu´l-Asmá: “Deus é Minha Testemunha, ó Xá! Se mostrares inimizade Àquele que é Sua Lembrança, Deus, no Dia da Ressurreição, ante os reis, te condenará ao fogo infernal e tu, em verdade, nenhum amparo encontrarás, nesse dia, a não ser Deus, o Excelso.”
O Xá Násiri´d-Din, monarca egoísta, obstinado e imperioso, sucedeu ao trono e, por meio século, coube-lhe o papel de árbitro único do destino de seu desafortunado país. Um obscurantismo desastroso, uma administração caótica nas províncias, a desorganização das finanças do reino, as intrigas, as vinganças e a profligação dos cortesões bajulados e cobiçosos que zumbiam e se enxameavam ao redor de seu trono, seu próprio despotismo – o qual teria sido ainda mais cruel e selvagem, não fossem o medo à restritiva opinião pública européia e o anseio de criar uma boa impressão nas capitais do Ocidente – todas estas características assinalavam o reinado sangrento daquele que se denominava “Vereda do Céu” e “Asilo do Universo”. Uma escuridão tríplice de caos, bancarrota e opressão envolviam o país. Seu próprio assassínio foi o primeiro prognóstico da revolução que iria restringir as prerrogativas de seu filho e sucessor, e depor os últimos dois monarcas da Casa de Qájár, extinguindo-lhes a dinastia. Na véspera de seu jubileu, que inauguraria uma nova era, e para cuja celebração se haviam feito os mais elaborados preparativos, ele caiu, no santuário do Xá ´Abdu´l-Azím, vítima da pistola de um assassino, e sentaram seu cadáver ereto na carruagem real, na frente de seu Grão Vizir, levando-o assim à capital a fim de adiar a difusão da notícia de sua morte.
“Corriam boatos”, escreve uma testemunha ocultar tanto da cerimônia como do assassinato, “que o dia da celebração do Xá seria o maior da história da Pérsia... Aos presos seria concedida liberdade incondicional, proclamando-se uma anistia geral; aos camponeses se prometia isenção de taxas por dois anos, pelo menos... e, aos pobres, alimento por alguns meses. Ministros e oficiais já maquinavam planos para obter do Xá honras e pensões. Sepulcros e lugares santos abriam seus portais para todo peregrino e viandante, e os siyyids e mulas medicavam as gargantas a fim de poderem cantar e entoar elogios ao Xá em todos os púlpitos. As mesquitas foram varridas e preparadas para reuniões gerais e orações públicas em benefício do soberano... Aumentaram as fontes sagradas para que nelas coubesse mais água benta, e as devidas autoridades haviam previsto que muitos milagres seriam realizados no dia do jubileu por meio dessas fontes... O Xá havia declarado que renunciaria suas prerrogativas de déspotas e se proclamaria “O Pai Majestoso de todos os persas”. A autoridade municipal deveria relaxar sua vigilância. Não seriam registrados os nomes dos estranhos que se aglomeravam nos caravançarás, e toda a população teria licença para andar livremente pelas ruas durante a noite inteira.” Até os grandes mujtahids, segundo foi informada essa mesma testemunha ocultar, “decidiram suspender temporariamente a perseguição aos bábís e aos outros infiéis”.
Assim caiu aquele cujo reinado será associado para sempre ao mais hediondo crime da história – o martírio d´Aquele que o Supremo Manifestante proclamou ser o “Foco ao redor do qual giram as realidades dos Profetas e Mensageiros”. Numa Epístola em que a pena de Bahá’u’lláh o condena, lemos: “Entre eles (reis da terra) figura o Rei da Pérsia, que ordenou que suspendessem no ar Aquele que é o Templo da Causa (o Báb) e O matassem, com tal crueldade que todas as coisas criadas e os habitantes do Paraíso, e a Assembléia no alto, por Ele choraram. Trucidou, além disso, alguns de Nossos parentes, saqueou-nos as propriedades e fez os membros de Nossa família cativos nas mãos dos opressores. Uma vez, e ainda outra vez, ele Me aprisionou. Por Deus, o Verdadeiro! Ninguém pode julgar das coisas que Me sucederam na prisão, salvo Deus, o Juiz, o Onisciente, o Todo-Poderoso. Ele Me baniu, depois, e à Minha família, de Meu país, quando, então, chegamos ao Iraque, com tristeza evidente. Detivemo-nos lá até o tempo em que o Rei de Rúm (Sultão da Turquia) se levantou contra Nós e Nos convocou à sede de sua soberania. Quando o alcançamos, manou sobre Nós aquilo que fez regozijar-se o rei da Pérsia. Mais tarde entramos nesta Prisão, onde as mãos de Nossos amados foram arrancadas da borda de Nossas vestes. De tal modo ele Nos tratou!”
Os dias da dinastia Qájár eram então contados. O torpor da consciência nacional esvanecera-se. O reinado do sucessor do Xá Násiri-d-Din, o Xá Muzaffari´d-Dín, criatura fraca e tímida, extravagante e desmedidamente generosa para com os cortesões, conduziu o país pela estrada larga da ruína. O movimento a favor de uma constituição limitando as prerrogativas do soberano, ganhava ascendência e culminou com a assinatura da constituição pelo Xá moribundo, que expirou poucos dias depois. Muhammad´Alí, déspota da pior espécie, inescrupuloso e avarento, sucedeu ao trono. Hostil à constituição, ele, pela sua ação sumária, envolvendo o bombardeio do Baháristán, onde se reunia a Assembléia, precipitou uma revolução em conseqüência da qual foi deposto pelos nacionalistas. Após muitas negociações, aceitou uma generosa pensão e retirou-se vergonhosamente para a Rússia. O menino-rei que o sucedeu, Xá Ahmad, portador de um título nominal, descuidava de seus deveres. As gritantes necessidades do país continuaram a ser desatendidas. Crescente anarquia, a impotência do governo central, o estado das finanças nacionais, a progressiva deterioração da condição geral do país, praticamente abandonado por um soberano que preferia as diversões e frivolidades da vida social das capitais européias ao desempenho das sérias e urgentes responsabilidades que a má situação de seu país exigia – tudo isto pressagiava a morte de uma dinastia que perdera seu direito à coroa, segundo a opinião geral. Enquanto ele estava fora do país, numa de suas viagens periódicas, o parlamento o depôs, proclamando extinta sua dinastia que durante cento e trinta anos ocupara o trono da Pérsia, cujos governantes se orgulhavam de ser descendentes não de outro senão de Jafetí, filho de Noé, e cujos monarcas sucessivos, com apenas uma exceção, foram assassinados, depostos ou atacados de uma moléstia mortal.
As miríades de sua prole, verdadeira “colméia de principelhos”, uma “raça de zangões reais”, eram tanto uma vergonha como uma ameaça a seus patrícios. Agora, porém, esses desditosos descendentes de uma casa caída, despojados de todo poder, alguns deles reduzidos até à mendicância, proclamam em sua miséria as conseqüências dos atos abomináveis perpetrados pelos seus progenitores. Aumentando as fileiras dos desafortunados membros da Casa de ´Uthmán, e dos governantes das dinastias dos Romanovs, Hohenzollern, Hapsburg e de Napoleão, eles vagam pela face da terra, mal percebendo a natureza daquelas forças que operaram tão trágicas revoluções em suas vidas e contribuíram tão poderosamente para seu dilema atual.
Netos tanto do Xá Násiri´d-Din como do Sultão ´Abdu´l-Azíz já se dirigiram, em seu desprestígio e sua miséria, ao Centro Mundial da Fé fundada por Bahá’u’lláh, em busca respectivamente de apoio político e auxílio pecuniário. Quanto ao primeiro, foi recusado pronta e firmemente seu pedido, enquanto que, no segundo caso, foi oferecido sem a mínima hesitação.


19. O DECLÍNIO NAS FORTUNAS DA REALEZA

E à medida que discernimos em outros campos o declínio nas fortunas da realeza – seja nos anos imediatamente anteriores à Grande Guerra ou depois, e contemplamos o destino que sobreveio ao Império Chinês, às monarquias de Portugal e da Espanha e, mais recentemente, as vicissitudes que já afligiram, e ainda afligem os soberanos da Noruega, da Dinamarca e da Holanda, e observamos a fraqueza dos demais reis e notamos o medo e a trepidez que se apoderaram de seus tronos, não devemos associar sua desdita às passagens introdutórias do Súriy-i-Múlúk? Em vista de sua vasta significação, sinto-me impelido a citá-las pela segunda vez: “Temei a Deus, ó assembléia de reis, e não vos deixeis ser privados desta mais sublime graça... Volvei os corações para a face de Deus e abandonai o que vossos desejos vos mandaram seguir, e não sejais dos que perecem... Não examinastes Sua Causa (a do Báb), quando assim fazer vos teria sido melhor do que tudo aquilo sobre o que brilha o sol – pudésseis apenas perceber isso...
“Guardai-vos de ser descuidados doravante, como tendes sido até agora... Minha face saiu de trás dos véus e irradiou-se sobre tudo o que está no céu e na terra e, entretanto, não vos volvestes para Ele... Levantai-vos, pois, em compensação por aquilo que vos escapou... Se deixardes de atender aos conselhos que Nós revelamos nesta Epístola, em linguagem inequívoca e sem igual, punição divina atacar-vos-á de todos os lados, e a sentença de Sua justiça será pronunciada contra vós... Vinte anos já se passaram, ó reis, durante os quais Nós temos provado cada dia a agonia de uma nova tribulação... Embora cientes da maioria de Nossas aflições, vós, no entanto, deixastes de deter a mão do opressor. Pois não é claramente vosso dever restringir a tirania do opressor e tratar com eqüidade vossos súditos, a fim de que vosso alto sentido de justiça se possa demonstrar plenamente a toda a humanidade?”
Não é de admirar haver Bahá’u’lláh, devido ao modo por que O trataram os soberanos da terra, escrito estas palavras, já citadas: “O poder foi tirado de duas categorias entre os homens: reis e eclesiásticos.” De fato, em Sua Epístola dirigida ao Shaykh Salmán, Ele diz, ainda mais: “Um dos sinais da madureza do mundo é que ninguém consentirá em suportar o cargo de realeza. O posto de rei se encontrará sem ninguém que queira suportar sozinho seu peso. Esse dia será o dia em que se manifestará entre a humanidade a sabedoria. Somente a fim de proclamar a Causa de Deus e difundir Sua Fé, será que alguém aceitará assumir esse cargo penoso? Bem-aventurado quem por amor a Deus e à Sua Causa, por devoção a Deus e com o intuito de proclamar Sua Fé, venha concordar a se expor a tão grande perigo e aceitar essa fadiga e esse estorvo.”


20. RECONHECIMENTO DA REALEZA

Que ninguém se engane, entretanto, ou, inconscientemente, represente de um modo errôneo o propósito de Bahá’u’lláh. Por severa que fosse Sua condenação pronunciada contra aqueles soberanos que O perseguiram, e estrita a censura expressa coletivamente contra aqueles que, de uma maneira notável, faltaram a seu dever claro de investigar a verdade de Sua Fé e de restringir a mão do malfeitor, Seus ensinamentos nenhum princípio acarretam que se possa interpretar, de maneira alguma, como um repúdio à instituição da realeza, ou mesmo como desestima, ainda que velada. Não se deve confundir, em absoluto, o futuro prestígio dessa instituição com a queda catastrófica que levou à extinção dinastias e impérios, daqueles monarcas cujo fim desastroso Ele especificamente profetizou, nem com a fortuna declinante dos soberanos de Sua própria geração, geralmente reprovados por Ele, constituindo ambas apenas uma fase transitória na evolução da Fé. De fato, se perscrutarmos os escritos do Autor da Fé Bahá’í, não deixaremos de descobrir inúmeras passagens nas quais Ele elogia o princípio da realeza, exalta a dignidade e a conduta de reis justos e imparciais, prevê o surgir de monarcas que governem com justiça e até professem Sua Fé, e inculca o dever solene de se levantar e assegurar o triunfo dos soberanos Bahá’ís. Se se concluísse das palavras acima citadas, dirigidas por Bahá’u’lláh aos monarcas da terra, ou inferisse da enumeração dos lastimáveis desastres pelos quais foram atingidos tantos deles, que Seus seguidores recomendem ou esperem o extermínio definitivo da instituição da realeza, isso constituiria, de fato, uma deturpação de Seu ensino.
Nada melhor que citarmos alguns testemunhos do próprio Bahá’u’lláh, assim permitindo ao leitor formar seu próprio juízo quanto à falsidade de tal dedução. Sua “Epístola ao Filho do Lobo”, indica a verdadeira origem da realeza: “É divinamente ordenado que se respeite a dignidade do soberano, assim como atestam claramente as palavras dos Profetas de Deus e de Seus eleitos. Perguntou-se Àquele que é o Espírito (Jesus) – paz esteja sobre Ele - ´Ó Espírito de Deus! É legítimo se dar tributo a César, ou não? – E Ele respondeu: - Sim, daí a César as coisas que pertencem a César, e a Deus as coisas que pertencem a Deus´; - Ele não o proibiu. Estas duas injunções são, aos olhos de homens que discernem, uma mesma, pois se aquilo que pertencia a César não tivesse provindo de Deus, Ele o teria proibido. E também no sagrado versículo: - Obedecei a Deus e obedecei ao Apóstolo e àqueles entre vós que possuem autoridade. Por aqueles que possuem autoridade, se quer dizer primária e especialmente Os Imames – repousem sobre Eles as bênçãos de Deus. Eles são, em verdade, as manifestações do poder de Deus e as fontes de Sua autoridade, os repositórios de Seu conhecimento e os alvoreceres de Seus mandamentos. Estas palavras referem-se, secundariamente, aos reis e governantes – àqueles cuja justiça radiosa enche de luz e esplendor os horizontes do mundo.”
E ainda: “Na Epístola aos Romanos escreveu São Paulo: - ´Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores. Porque não há potestade senão de Deus; e as potestades que há, são ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à potestade, resiste à ordenação de Deus – e também: - Porque ele é o Ministro de Deus, vingador para castigar o que faz o mal! – Diz ele que o aparecimento dos reis, e sua majestade e seu poder são de Deus.”
E ainda mais: “Um rei justo desfruta de maior proximidade de Deus do que qualquer outro. Disso dá testemunho Aquele que fala em Sua Maior Prisão.”
De modo igual, no Bishárát (Boas Novas), assevera Bahá’u’lláh ser “a majestade da realeza um dos sinais de Deus”. Não desejamos”, acrescenta Ele, “que os países do mundo disso se privem.”
Em Kitáb-i-Aqdas, Ele expõe Seu propósito, e elogia o rei que professa Sua Fé: “Pela justiça de Deus! Não é Nosso desejo lançarmos mãos de vossos reinos. Nossa missão consiste em nos apoderarmos dos corações dos homens. Nestes se fixam os olhos de Bahá, como testemunha o Reino dos Nomes – pudésseis vós apenas compreendê-lo. Quem segue o seu Senhor, há de renunciar ao mundo e a tudo o que nele se ache; quanto maior, pois, deve ser o desprendimento daquele a quem cabe um cargo tão augusto!” “Que grande bem-aventurança espera ao rei que se levantar em auxílio à Minha Causa em Meu Reino, que se desligar de tudo, menos de Mim! Tal rei se inclui no número dos Companheiros da Arca Carmesim – Arca preparada por Deus para o povo de Bahá. Todos devem render glória a seu nome, reverência à sua dignidade, e lhe ajudar a abrir as cidades com as chaves de Meu Nome, o Onipotente Protetor de todos os que habitam nos reinos visíveis e invisíveis. Tal rei é a própria visão da humanidade, o luminoso adorno na fronte da criação, manancial de bênçãos para o mundo inteiro. Oferecei, ó povo de Bahá, vossa substância, até vossa própria vida, em seu apoio.”
Na Lawh-i-Sultán, revela Bahá’u’lláh ainda mais a significação da realeza: “Um rei justo é a sombra de Deus na terra. Todos devem buscar amparo à sombra de sua justiça e repousar abrigados pelo seu favor. Não é coisa específica ou limitada em seu âmbito, que se pudesse restringir a uma ou outra pessoa, desde que a sombra fala de Quem a projeta. Deus – glorificado seja Sua lembrança – chamou-se a Si Próprio o Senhor dos mundos, desde que Ele tem nutrido, e ainda nutre a cada um. Glorificada, pois, seja Sua graça que precedeu a todas as coisas criadas, e Sua misericórdia que superou os mundos...”
Em uma de Suas Epístolas, escreveu Bahá’u’lláh também: “Deus Uno e verdadeiro – exaltada seja Sua Glória – concedeu aos reis o governo da terra. A ninguém é dado o direito de agir de uma maneira contrária às ponderadas opiniões dos que possuem a autoridade. O que Ele reservou para Si Próprio são as cidades dos corações dos homens; e neste Dia, os amados Daquele que é a Verdade Soberana são como as chaves destas cidades.”
Na seguinte passagem exprime Ele este desejo: “Nutrimos a esperança de que um dos reis da terra, por amor a Deus, se levante para o triunfo deste povo injuriado, deste povo opresso. Tal rei fruirá de glória e exaltação eternas. Deus prescreveu a este povo o dever de ajudar a qualquer um que o ajude, de lhes servir os melhores interesses e demonstrar sua perene lealdade.”
Na Lawh-i-Rá´is, prediz Ele, de fato, categoricamente, a aparição de tal rei: “Deus em breve fará surgir, dentre os reis, um que ampare Seus amados. Ele, em verdade, abrange todas as coisas. Insuflará nos corações amor a Seus amados. Isso, realmente, é o decreto irrevogável Daquele que é o Todo-Poderoso, o Benéfico.” No Ridvánu´l-´Adl, no qual Ele exalta a virtude da justiça, encontramos uma predição paralela: “Breve Deus tornará manifesto na terra reis que se hão de reclinar nos leitos da justiça e governar entre os homens assim mesmo como se governam a si próprios. Eles, em verdade, figuram entre as mais escolhidas de Minhas criaturas na criação inteira.”
No Kitáb-i-Aqdas, Bahá’u’lláh prevê que em Sua cidade natal – “a Mãe do Mundo” e “o Alvorecer da Luz” – se há de elevar ao trono um rei ataviado dos adornos gêmeos da justiça e da devoção à Sua Fé, referindo-se Ele a isso nestas palavras: “Que nada te entristeça, ó Terra de Tá, pois Deus te escolheu para ser a fonte de júbilo para toda a humanidade. Ele, se for Sua vontade, haverá de abençoar teu trono com alguém que governe com justiça e reúna o rebanho de Deus que os lobos dispersaram. Tal governante volverá a face para o povo de Bahá com alegria e contentamento e lhe concederá seus favores. Em verdade, ele será estimado aos olhos de Deus, como uma jóia entre os homens. Sobre ele descanse para sempre a glória de Deus, a glória de todos os que habitam no reino de Sua Revelação.”


21. O DESMORONAMENTO DA ORTODOXIA RELIGIOSA

Caros amigos! A queda de poder das cabeças coroadas possuidoras da autoridade temporal encontrou paralelo na deterioração, não menos assombrosa, da influência exercida pelos dirigentes espirituais do mundo. Os acontecimentos colossais que prenunciaram a dissolução de tantos reinos e impérios eram quase simultâneos com o desmoronamento das cidadelas da ortodoxia religiosa tidas por invioláveis. Esse mesmo processo que selou rápida e tragicamente o destino de reis e imperadores, extinguindo-lhes as dinastias, operou no caso das autoridades eclesiásticas, tanto do cristianismo como do islã, afetando seu prestígio e, alguma vezes, derrubando suas principais instituições. “O poder foi tirado”, realmente, de ambos – “reis e eclesiásticos”. Eclipsou-se a glória daqueles, enquanto estes perderam seu poder, irreparavelmente.
Àqueles que guiavam e controlavam as hierarquias eclesiásticas de suas respectivas religiões, Bahá’u’lláh exortou, advertiu e censurou, em termos não menos inequívocos do que os usados por Ele ao apostrofar os soberanos que tinham nas mãos os destinos de seus súditos. Pois também eles – e sobretudo os chefes das ordens eclesiásticas muçulmanas – em conjunto com déspotas e potentados, lançaram ataques e vociferaram anátemas contra os Fundadores da Fé Divina, seus adeptos, princípios e instituições. Foram os sacerdotes da Pérsia os primeiros a içar o estandarte e subservientes, e a instigar as autoridades civis com seu clamor e suas ameaças, mentiras, calúnias e acusações, ao ponto de decretarem os exílios, fazerem as leis, lançarem as campanhas punitivas e levarem a efeito as execuções e massacres que enchem as páginas de sua história. Tão abominável e selvagem foi a carnificina realizada num só dia, pela instigação desses sacerdotes, e tão típica da “insensibilidade do bruto e do engenho do demônio” que Renan, em “Les Apôtres”, caracterizou esse dia como “talvez sem paralelo na história do mundo.”
Precisamente através de tais ações, esses sacerdotes espalharam as sementes da desintegração de suas próprias instituições – instituições estas tão potentes, famosas e, de aparência, invulneráveis, quando a Fé surgia. Foram eles que, ao assumirem tão tremendas responsabilidades, de um modo tão irrefletido e insensato, se tornaram agentes primários da libertação daquelas influências violentas e perturbadoras que desencadearam desastres tão catastróficos como os que abateram reis, dinastias e impérios, e que constituem as mais notáveis marcas na história do primeiro século da era Bahá’í.
Esse processo de deterioração, se bem que assustador em suas manifestações iniciais, opera ainda sem decréscimo de suas forças, e há de se acelerar à medida que vá aumentando, de fontes diversas e em campos longínquos, a oposição à Fé Divina, com o que se revelarão evidências cada vez mais extraordinárias de seu poder devastador. Não me é possível – em vista das proporções que este comunicado já assumiu – estender-me tão plenamente como eu desejaria, sobre os aspectos desse ponderoso tema que, juntamente com a reação dos soberanos da terra à Mensagem de Bahá’u’lláh, constitui um dos episódios mais fascinantes e edificativos da história dramática de Sua Fé. Pretendo considerar apenas as repercussões dos violentos ataques dos principais eclesiásticos do islã e, em menor escala, de certos expoentes da ortodoxia cristã, sentidas em suas respectivas instituições. Como prefácio a estas observações, citarei algumas passagens colhidas das volumosas Epístolas de Bahá’u’lláh, as quais se referem, tanto direta como indiretamente, aos sacerdotes muçulmanos e cristãos, e projetam uma poderosa luz sobre os lúgubres desastres que já atingiram, e ainda estão atingindo, as hierarquias eclesiásticas das duas religiões às quais a Fé mais intimamente se relaciona.
Não devemos inferir, disso, porém, haver Bahá’u’lláh dirigido Suas históricas Mensagens às autoridades islâmicas ou cristãs exclusivamente; nem imaginemos que o impacto de uma Fé universal nos baluartes da ortodoxia religiosa se possa limitar às instituições desses dois sistemas religiosos. “O tempo predestinado para as nações e raças da terra”, afirma Bahá’u’lláh, “já veio. Cumpriram-se todas as promessas de Deus, segundo registram as Sagradas Escrituras. É este o Dia glorificado, em todas as Sagradas Escrituras, pela Pena do Altíssimo. Versículo algum nelas se encontra, que não declare a glória de Seu Santo Nome, nem há livro que não dê testemunho da sublimidade deste tema excelso.” “Fôssemos Nós” – acrescenta Ele – “fazer menção de tudo o que tem sido revelado nesses Livros celestiais, nessas Sagradas Escrituras, a respeito dessa Revelação, esta Epístola assumiria dimensões impossíveis.” Como todas as Escrituras das religiões anteriores encerram a promessa da Revelação de Bahá’u’lláh, assim seu Autor dirige-se aos membros dessas religiões e, em particular, àqueles principais responsáveis que se têm interposto entre Ele e as respectivas comunidades. “Em certa época,” escreve Bahá’u’lláh, “dirigimo-nos ao povo da Tora, convocando-o Àquele que é o Revelador dos versículos, vindo Daquele que subjuga os pescoços dos homens... Em outra, dirigimo-nos ao povo do Evangelho, dizendo: - O Todo-Glorioso veio neste Nome através do qual o Sopro de Deus emanou sobre todas as regiões. - ...Em ainda outro tempo, dirigimo-nos ao povo do Alcorão, dizendo: - Temei o Todo-Misericordioso e não zombeis Daquele por Quem foram fundadas todas as religiões. – Sabe tu, além disso, que dirigimos aos Magos Nossas Epístolas, adornadas com Nossa Lei... Nelas revelamos a essência de todas as referências e alusões contidas em seus Livros. O Senhor, em verdade, é o Todo-Poderoso, o Onipotente.”
Dirigindo-se ao povo judaico, Bahá’u’lláh escreveu: “Veio a Lei Suprema, e a Beleza Antiga rege sobre o trono de David. Assim Minha Pena enunciou o que relataram as histórias dos tempos idos. Nesta era, porém, David exclama em altas vozes: - Ó meu Senhor amoroso! Inclui-me no número dos que se têm mantido firmes em Tua Causa, ó Tu através de Quem as faces foram iluminadas e os passos se deslizaram! –“ E também: “O Sopro difundiu-se, a Brisa emanou e de Sião apareceu o que estava oculto, e de Jerusalém se ouve a Voz de Deus, Uno, Incomparável, Onisciente.” Ainda mais, em Sua “Epístola ao Filho do Lobo”, Bahá’u’lláh revelou: “Presta ouvidos à canção de David. Diz Ele: - Quem me levará à Cidade Forte? – A Cidade Forte é ´Akká, denominada a Maior Prisão, que possui uma fortaleza e poderosos baluartes. Ó Shaykh! Lê com atenção o que Isaías expressou em seu Livro. Ele diz: - Ascende a alta montanha, ó Sião, que trazes boas novas; levanta tua voz com força, ó Jerusalém, que trazes boas novas! Levanta-a, não receies; dize às cidades de Judah: - Vede vosso Deus! Vede, o Senhor Deus virá com mão forte, e Seu braço regerá por Ele. – Neste Dia, apareceram todos os sinais. Uma grande Cidade desceu do céu, e Sião treme e se exalta de júbilo por causa da Revelação de Deus, pois de todos os lados ouviu a Voz de Deus.”
À casta sacerdotal, que exerce supremacia eclesiástica sobre aqueles que seguem a Fé zoroastriana, essa mesma Voz, identificando-se com a voz do prometido Sháh-Bahrám, declarou: “Ó principais! Ouvidos vos foram dados a fim de escutarem o mistério Daquele que é o Independente, e olhos para que O contemplassem. Por que fugis? O Amigo Incomparável está manifesto, e profere aquilo em que repousa a salvação. Fosseis vós, ó principais, descobrir o perfume do roseiral da compreensão, a ninguém buscaríeis senão a Ele e haveríeis de reconhecer, em Suas vestes novas, o Onisciente, o Incomparável, e de apartar vossos olhos do mundo e de todos os que a este procuram” e vos levantar em Seu apoio.” “Já se revelou e tornou claro tudo o que foi anunciado nos Livros”, escreveu Bahá’u’lláh a um zoroastriano que perguntara sobre o prometido Sháh-Bahrám. “De todos os lados, os sinais se têm manifestado. O Onipotente chama, neste Dia, e anuncia o aparecimento do Céu Supremo.” “Este não é o dia”, declara Ele em outra Epístola, “em que os principais possam exercer seu domínio e autoridade. Diz vosso Livro que os principais, naquele Dia, desencaminharão os homens e os impedirão de se aproximar Dele. É principal, em verdade, quem viu a luz e se apressou ao caminho que conduz ao Amado.” “Dize, ó principais!” – assim Ele outra vez se lhes dirige – “A Mão da Onipotência estende-se de trás das nuvens; vede-as com olhos novos. Desvelaram-se os sinais de Sua majestade e grandeza; fitai-os com olhos puros... Dize, ó principais! Sois reverenciados por causa de Meu Nome e, no entanto, fugis de Mim! Sois os principais do Templo. Tivésseis sido os principais do Onipotente, estaríeis unidos a Ele e O teríeis reconhecido... Dize, ó principais! De homem algum serão aceitáveis os atos, neste Dia, a menos que ele renuncie ao mundo e a toda possessão humana, e volva a face para o Onipotente.”
Por nenhuma destas duas Crenças, entretanto, é que primariamente nos interessamos. É com o cristianismo e, mais ainda, com o islã, que meu tema se relaciona diretamente. O islã, donde se originou a Fé introduzida por Bahá’u’lláh, assim como do judaísmo proveio o cristianismo, é a religião dentro de cujos confins essa Fé primeiro surgiu e se desenvolveu, de cujas fileiras a grande massa de aderentes Bahá’ís se recrutou, e por cujos dirigentes estes têm sido, e ainda estão sendo perseguidos. O cristianismo, por outro lado, é a religião à qual pertence a vasta maioria dos Bahá’ís de origem não-islâmica, dentro de cujo domínio espiritual a Ordem Administrativa da Fé Divina avança rapidamente, e por cujos expoentes eclesiásticos esta Ordem está sendo cada vez mais atacada. Diferente do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e até do zoroastrianismo, os quais, pela maior parte, estão ainda inconscientes das potencialidades da Causa de Deus, e cuja resposta à sua Mensagem é insignificante ainda, as crenças maometana e cristã podem ser consideradas os dois sistemas religiosos que estão sustentando, nesta fase formativa de seu desenvolvimento, o pleno impacto de tão tremenda Revelação.
Consideremos, pois, o que os Fundadores da Fé Bahá’í dirigiram aos reconhecidos expoentes do islã e do cristianismo, ou escreveram a seu respeito. Já consideramos as passagens referentes aos reis do islã, tantos aos califas reinando em Constantinopla como aos xás da Pérsia que governavam o reino como fiduciários provisórios para o esperado Imame. Já notamos também a Epístola que Bahá’u’lláh revelou especificamente para o Pontífice romano, e a mensagem mais geral no Súriy-i-Múlúk dirigida aos reis da cristandade. Não menos desafiadora e ominosa é a Voz que advertiu e julgou os sacerdotes maometanos e o clero cristão.
“Os expoentes da religião” – é a censura clara e universal pronunciada por Bahá’u’lláh no Kitáb-i-Iqán “em cada era, têm impedido seu povo de atingir as praias da salvação eterna, por haverem detido firmemente, em suas mãos poderosas, as rédeas da autoridade. Alguns por cobiça de poder, outros por falta de conhecimento e compreensão, privaram o povo desse bem. Por sua autoridade e sanção, todo Profeta de Deus tem sorvido o cálice do sacrifício e alçado vôo para as alturas da glória. Que crueldades indizíveis não infligiram essas autoridades e esses eruditos, aos verdadeiros Monarcas do mundo, àquelas Jóias da virtude divina! Contentes com um domínio transitório, privaram-se eles de uma soberania eterna.” E ainda, no mesmo Livro: “Entre estes véus da glória, figuram os eclesiásticos e doutos que vivem nos dias do Manifestante de Deus e que, por falta de discernimento e por cobiça e amor à autoridade, não se quiseram submeter à Causa de Deus – ainda mais, recusaram-se a inclinar os ouvidos à Melodia divina. ´Puseram os dedos nos ouvidos´. E o povo também, desprezando inteiramente a Deus, e tomando aqueles por seus mestres, submeteu-se incondicionalmente à autoridade desses líderes pomposos e hipócritas, pois lhe faltam visão, ouvido e coração próprios para poder distinguir entre a verdade e a falsidade. Não obstante as admoestações, divinamente inspiradas, feitas por todos os Profetas, Santos e Eleitos de Deus, que exortam os homens a ver com seus próprios olhos e ouvir com seus próprios ouvidos, eles rejeitam com desdém seus conselhos, seguindo às cegas – e continuarão a seguir – os líderes de sua Fé. Se uma pessoa pobre, obscura, privada da insígnia dos eruditos, se lhes dirigisse, dizendo: - Segue, ó povo, os Mensageiros de Deus! – o povo, muito admirado esta exortação, replicaria: - Quê! Queres dizer que todos esses sacerdotes, todos esses expoentes da erudição, com toda a sua autoridade, sua pompa e seu fausto, tenham errado e não sabido distinguir entre a verdade e a falsidade? E tens tu, e outros iguais a ti, a pretensão de haver compreendido o que eles não compreenderam? – Se o número e a excelência de trajes devessem ser adotados como critério para se julgar da erudição e da verdade, então os povos dos tempos idos, aos quais os de hoje nunca excederam em número, magnificência ou poder, deveriam ser considerados superiores e mais dignos.” Diz também: “Jamais se manifestou um Profeta de Deus que não caísse vítima do ódio implacável, da calúnia, negação e execração do clero de Seu tempo! Ai deles pelas iniqüidades que suas mãos outrora cometeram! Ai deles por aquilo que agora fazem! Existem véus da glória mais lastimáveis do que essas personificações do erro? Pela justiça de Deus! Penetrar tais véus é o maior de todos os atos, e rompê-los o mais meritório de todos os feitos!” Escreveu Ele, além disso: “Em sua língua, a menção de Deus tornou-se um nome vazio; em seu meio, Sua santa Palavra é apenas uma letra morta. Tal é o predomínio de seus desejos que a lâmpada da consciência e do raciocínio se acha apagada em seus corações... Não se encontram duas pessoas que estejam e acordo sobre a mesma lei, pois não procuram outro Deus senão o próprio desejo, e nenhum caminho trilham salvo o do erro. Vêem no prestígio o objetivo final de seus esforços e consideram o orgulho e a arrogância como sendo o mais nobre alvo de suas mais ardentes aspirações. Julgam que suas sórdidas maquinações sejam superiores ao decreto divino; recusam resignar-se à vontade de Deus; ocupam-se em planos egoístas e seguem os caminhos do hipócrita. Com todo o seu poder e todas as suas forças, procuram assegurar-se em suas ocupações triviais, receosos de que o menor descrédito lhes possa minar a autoridade e macular a magnificência que ostentam”.
“A fonte e origem da tirania” , afirmou Bahá’u’lláh em outra Epístola, “têm sido os sacerdotes. Através das sentenças pronunciadas por essas almas arrogantes e perversas, os governantes da terra perpetraram o que ouvistes... As rédeas das massas negligentes têm estado, e ainda estão, nas mãos dos expoentes de vãs fantasias e idéias fúteis. Estes decretam o que queiram. Deus, em verdade, está isento deles, e Nós também estamos isentos deles, como são, igualmente, aqueles que deram testemunho daquilo que a Pena do Altíssimo pronunciou nesta gloriosa Posição.”
“Os líderes dos homens,” asseverou Ele outrossim, “desde tempos imemoriais, impedem o povo de se volver para o Mais Grandioso Oceano. O amigo de Deus (Abraão) foi jogado ao fogo por causa da sentença pronunciada pelos eclesiásticos da época; Àquele que conversou com Deus (Moisés) imputaram mentiras e calúnias. Refleti sobre Aquele que era o Espírito de Deus (Jesus). Embora mostrasse a maior compaixão e ternura, levantaram-se, porém, contra aquela Essência do Ser e Senhor do visível e do invisível, de tal maneira que Ele nenhum refúgio achou em que pudesse repousar. Cada dia vagava em busca de um lugar novo, um novo asilo. Considerai o Selo dos Profetas (Maomé) – que as almas de todos além Dele Lhe sejam um sacrifício! Como foi lastimável o que sucedeu Àquele Senhor de toda a existência, nas mãos dos padres idólatras e dos doutores judeus, após haver Ele pronunciado as benditas palavras que proclamavam a Unidade Divina! Por Minha vida! Minha pena geme, e todas as coisas criadas exclamam por causa daquilo que Lhe atingiu proveniente das mãos dos que violaram o Convênio de Deus e Seu Testamento, negaram Seu testemunho e contradisseram Seus sinais.”
“Os ineptos sacerdotes”, declara outra Epístola, “rejeitaram o Livro de Deus e se ocupam com aquilo que eles próprios inventaram. Já se revelou o Oceano do Saber e se ergue a nota aguda da Pena do Altíssimo e, no entanto, eles, à semelhança do verme, se afligem com o barro de suas vãs idéias e fantasias. Sua relação ao Deus Uno e Verdadeiro é o que os enaltece, mas, apesar disso, Dele se têm afastado! Por Sua causa, tornaram-se famosos e, não obstante, se excluem Dele como se o fosse por um véu!”
“Os padres pagãos,” reza ainda outra Epístola, “e os eclesiásticos judeus e cristãos cometeram os mesmíssimos atos que os sacerdotes desta era, nesta Dispensação, já cometeram e ainda cometem. Ou melhor, estes têm demonstrado uma crueldade mais penosa e uma malícia mais feroz. Todo átomo dá testemunho disto que Eu digo.”
A esses dirigentes que “se julgam as melhores de todas as criaturas, e têm sido considerados os mais vis por Aquele que é a Verdade”, que “ocupam os assentos do saber e da erudição, a ignorância, que chamaram de conhecimento, e deram nome de justiça à opressão”, que “a nenhum Deus adoram senão a seu próprio desejo, a nada prestam lealdade salvo ao ouro, se envolvem nos mais densos véus da erudição e que, emaranhados em sua obscuridade, se perdem nas selvas do erro,” – a estes, Bahá’u’lláh se dignou dirigir estas palavras: “ó assembléia de sacerdotes! Doravante não vos vereis possuidores de poder algum, desde que Nós o retiramos de vós e os destinamos àqueles que crêem em Deus, Uno, Todo-poderoso, Onipotente, Absoluto.”
No Kitáb-i-Aqdas, lemos o seguinte: “Dize: Ó dirigentes da religião! Não peseis o Livro de Deus segundo os padrões e as ciências correntes entre vós, pois o próprio Livro é a infalível Balança estabelecida entre os homens. Nesta, a mais perfeita Balança, deve ser pesado tudo o que as nações e raças da terra possuem, enquanto a medida de seu peso deveria ser verificada segundo seu próprio padrão – se apenas soubésseis isto. Os olhos de Minha misericórdia pranteiam por vossa causa, desde que deixastes de reconhecer Aquele a Quem tendes invocado durante o dia e nas horas da noite, ao anoitecer e à alvorada... ó vós dirigentes da religião! Qual o homem entre vós que Me possa rivalizar em visão ou perspicácia? Onde se há de encontrar quem ouse dizer-se Meu igual no que diz respeito às palavras pronunciadas ou à sabedoria? Não, por Meu Senhor, o Todo-Misericordioso! Tudo na terra passará; e esta é a Face de vosso Senhor, o Onipotente, o Bem-Amado... Dize: Este, em verdade, é o céu em que se entesoura a Obra-Máter – pudésseis vós apenas compreender isto. Ele é Quem fez a Rocha bradar, e a Sarça Ardente erguer a voz sobre o Monte que se eleva acima da Terra Santa, e proclamar: - O reino é de Deus, o Senhor soberano de todos, o Onipotente, o Amoroso! – Nós não temos entrado em nenhuma escola, nem lido qualquer de vossas dissertações. Inclinai vossos ouvidos às palavras deste Iletrado, com as quais Ele vos convoca a Deus, o Sempiterno. Isto vos é melhor que todos os tesouros da terra – pudésseis vós apenas compreender isto.”
“Ó assembléia de eclesiásticos!” escreveu Ele além disso, “Quando se fizeram descer Meus versículos, e Meus sinais claros se revelaram, Nós vos encontramos atrás dos véus. Isso, em verdade, é coisa estranha... Temos rompido os véus. Acautelai-vos para que não excluas o povo por ainda outro véu. Rompei as correntes das vãs fantasias, em nome do Senhor de todos os homens, e não sejais dos insinceros. Se vos volverdes para Deus e abraçardes Sua Causa, não dissemineis nela desordem nem meçais o Livro de Deus segundo vossos desejos egoístas. É este o conselho de Deus, quer no passado, quer no futuro... Tivésseis vós acreditado em Deus quando Ele se revelou, o povo não se teria afastado Dele nem a Nós haveriam sucedido as coisas que hoje testemunhais. Temei a Deus e não sejais dos desatentos... Esta é a Causa que fez tremerem todas as vossas supertições e todos os vossos ídolos... Ó assembléia de eclesiásticos! Guardai-vos de serdes motivo de contenda na terra, assim como fostes causa do repúdio à Fé nos primeiros dias. Reuni o povo em volta desta Palavra que fez exclamarem os seixos: - O Reino é de Deus, Alvorecer de todos os sinais! - ...Rompei os véus de tal modo que os habitantes do Reino possam ouvi-los se rasgarem. Eis o mandamento de Deus em dias passados e dias vindouros. Bem-aventurado o homem que observa o que lhe foi ordenado, e ai do negligente!”
E ainda: “Por quanto tempo, ó assembléia de sacerdotes, alvejareis com os dardos do ódio a face de Bahá? Restringi vossas penas. Eis que a Pena Mais Sublime fala entre a terra e o céu. Temei a Deus, e não sigais vossos desejos que alteraram a face da criação. Purificai vossos ouvidos para que possam escutar a Voz de Deus. Por Deus! Esta se assemelha ao fogo que consome os véus, e à água que lava as almas de todos os que se acham no universo.”
“Dize: ó assembléia de eclesiásticos!” – ainda outra vez a eles se dirige – “Pode alguém de vós competir com o Jovem Divino na arena da sabedoria e das palavras expressas, ou voar com Ele para o céu da significação e explanação esotéricas? Não, por Meu Senhor, o Deus de misericórdia! Todos desfaleceram neste Dia, perante a Palavra de vosso Senhor. Estão mesmo como inanimados, mortos, salvo aquele a quem teu Senhor, o Onipotente, o Absoluto, quis isentar. Tal homem, em verdade, é dos dotados de conhecimento, aos olhos Daquele que é o Onisciente. Os habitantes do Paraíso, e os que residem nos Apriscos sagrados, abençoam-no, ao anoitecer e na alvorada. Pode o possuidor de pernas de madeira resistir àquele cujos pés Deus fez de aço? Não, por Aquele que ilumina a criação inteira!”
“Ao observarmos cuidadosamente”, é Sua advertência significativa, “descobrimos serem Nossos inimigos, pela maior parte, os eclesiásticos”. “Entre o povo se encontram aqueles que disseram: - Ele repudiou aos eclesiásticos. – Dize: - Sim, por Meu Senhor! Fui Eu, em verdade, Quem aboli os ídolos! –“ “Nós, realmente, fizemos soar a Trombeta, ou seja Nossa Pena, a Mais Sublime, e eis que os eclesiásticos e os eruditos, os doutores e os governantes, desfaleceram, salvo aqueles que Deus preservou, como sinal de Sua graça, e Ele é, verdadeiramente, o Todo-Generoso, o Ancião dos Dias.”
“Ó assembléia de eclesiásticos! Lançai de vós as vãs fantasias e idéias fúteis e volvei-vos, pois, para o Horizonte da Certeza. Deus é Minha Testemunha! Nada que possuis vos trará proveito, nem todos os tesouros da terra, nem a autoridade que usurpastes. Temei a Deus e não sejais dos perdidos”. “Dize: Ó assembléia de eclesiásticos! Rejeitai todos os vossos véus e trajes, e daí ouvidos àquilo para que vos chama a Pena Mais Sublime, neste Dia maravilhoso... O mundo está carregado de pó por causa de vossas idéias vãs, e os corações dos agraciados com a proximidade Divina afligem-se perante vossa crueldade. Temei a Deus e sede dos que julgam eqüitativamente.”
“Ó vós, os alvoreceres do conhecimento!” – assim Ele os exorta – “Acautelai-vos para que não vos deixeis mudar, pois do mesmo modo que vos mudardes, mudar-se-á também a maioria dos homens. Isso, em verdade, é uma injustiça a vós mesmos e aos outros... Sois semelhantes a um manancial: se se alterar, de modo igual se alterarão as correntes que dele derivam. Temei a Deus e inclui-vos no número dos pios. Outrossim, se o coração do homem se corromper, também se corromperão seus membros. Semelhantemente, se a raiz de uma árvore se corromper, o mesmo sucederá com seus ramos, seus brotos, suas folhas e seus frutos.”
“Dize: Ó assembléia de eclesiásticos!” - assim Ele apela – “Sede justos, adjuro-vos por Deus, e não anuleis a Verdade com as coisas que possuis. Perscrutai o que Nós fizemos descer com a verdade. Isso, realmente, vos ajudará e vos aproximará de Deus, o Poderoso, o Grande. Considerai e lembrai-vos de que, quando Maomé, o Apóstolo de Deus, apareceu, o povo O negou. Atribuiu-Lhe o que foi causa de lamento ao Espírito (Jesus) em Sua Mais Sublime Posição, e fez bradar o Espírito Fiel. Considerai, ainda mais, as coisas que sucederam aos Apóstolos e Mensageiros de Deus antes Dele, por causa daquilo que as mãos dos injustos perpetraram. Fazemos menção de vós por amor a Deus, e vos lembramos de Seus sinais, e vos anunciamos as coisas ordenadas para aqueles próximos Dele no mais sublime Paraíso e no Céu excelso, e Eu, em verdade, sou o Anunciador, o Onisciente. Ele veio para vossa salvação e suportou tribulações a fim de que vós pudésseis ascender, pela escada da palavra, até o cume do entendimento... Perscrutai com eqüidade e justiça, o que se fez descer. Isto, realmente, vos exaltará através da verdade e vos fará contemplar as coisas das quais fostes impedidos, e vos permitirá sorver Seu Vinho cintilante.”


22. PALAVRAS DIRIGIDAS AOS ECLESIÁSTICOS MUÇULMANOS

Consideremos agora, mais especialmente, as referências específicas e as palavras diretas aos eclesiásticos muçulmanos por parte do Báb e de Bahá’u’lláh. O Báb, segundo atesta o Kitáb-i-Iqán, “revelou especificamente uma Epístola aos sacerdotes de toda cidade, na qual expôs plenamente o caráter da negação e do repúdio por parte de cada um deles.” Enquanto estava em Isfáhán, consagrada cidadela do clero muçulmano, Ele, por intermédio de seu governador, Manúchihr Khán, convidou por escrito os sacerdotes dessa cidade a participar de um debate com Ele, a fim de que – assim Ele o expressou – “se estabelecesse a verdade e dissipasse a mentira”. Nem um só da multidão de sacerdotes que se aglomeravam nessa grande sede de erudição teve a coragem de aceitar o desafio. Bahá’u’lláh, por Sua parte, enquanto se encontrava em Adrianópolis – assim como Sua própria Epístola ao Xá da Pérsia testemunha – indicou Seu desejo de ser “levado face a face com os sacerdotes da época e de produzir provas e testemunhos na presença de Sua Majestade, o Xá”. Esta proposta foi denunciada como “grande presunção e espantosa audácia” pelos sacerdotes de Teerã, que, por seu grande medo, aconselharam seu soberano a punir imediatamente o portador dessa Epístola. Numa ocasião prévia, enquanto em Bagdá, Bahá’u’lláh disse que, se os sacerdotes de Najaf e Karbilá – as cidades gêmeas mais santas depois de Meca e Medina, aos olhos dos xiitas – se reunissem e concordassem sobre o milagre que queriam fosse realizado, assinando e selando uma afirmação de que, ao ser realizado o milagre, admitiriam a verdade de Sua Missão, Ele imediatamente o produziria. A tal desafio – assim como ‘Abdu’l-Bahá anota em Sua obra, “Respostas a Algumas Perguntas” – não souberam fazer melhor resposta do que esta: “Esse homem é encantador; talvez faça algum encantamento e então nós nada mais teremos a dizer”. “Durante doze anos” – o próprio Bahá’u’lláh atestou – “detivemo-nos em Bagdá. Por mais que desejássemos ver uma grande agregação de sacerdotes e homens de eqüidade, a fim de que a verdade se distinguisse do erro e fosse plenamente demonstrada, não se tomou ação alguma”. E ainda: “E do mesmo modo, enquanto estávamos no Iraque, desejávamos reunir-nos com os sacerdotes da Pérsia. Mal souberam disso, fugiram, dizendo: - Ele, de fato, é manifestamente um mágico! – Essa foi a palavra que em outros tempos procedeu dos lábios daqueles que lhes eram iguais. Estes (os sacerdotes) fizeram objeção ao que disseram aqueles e, no entanto, eles mesmos repetem, neste dia, o que foi dito antes, e não o compreendem. Por Minha vida! São como simples cinzas, aos olhos de teu Senhor. Se for Sua vontade, tempestuosos vendavais soprarão sobre eles, tornando-os como pó. Teu Senhor, em verdade, age como Lhe apraz.”
Se esses clérigos xiitas, falsos, cruéis e covardes, não se tivessem intrometido, segundo declarou Bahá’u’lláh, na Pérsia, o poder de Deus teria predominado em pouco mais de dois anos. As seguintes palavras lhes foram dirigidas no Qayyúmu´l-Asmá: “ó assembléia de sacerdotes! Temei a Deus, deste dia em diante, nas opiniões que proferirdes, pois Aquele que é Nossa Lembrança em vosso meio e que vem de Nós e, na verdade absoluta, o Juiz e a Testemunha. Afastai-vos daquilo que segurais, e que o Livro de Deus, o Verdadeiro, não sancionou, pois, no Dia da Ressurreição, tereis de responder, em verdade, pela posição que ocupastes.”
Nesse mesmo Livro, o Báb assim se dirige aos xiitas, bem como ao inteiro grupo dos seguidores do Profeta: “ó assembléia de xiitas! Temei a Deus e à Nossa Causa, que diz respeito Àquele que é a Maior Lembrança de Deus. Pois grande é seu fogo, segundo decreta a Obra-Máter.” “Ó povo do Alcorão! Sois como simplesmente nada, a menos que vos submetais à Lembrança de Deus e a este Livro. Se seguirdes a Causa de Deus, Nós vos perdoaremos os pecados, e se vos afastardes de Nosso mandamento, Nós, em verdade, condenaremos vossas almas, em Nosso Livro, ao Maior Fogo. Nós, verdadeiramente, não tratamos os homens com injustiça, nem nos limites de uma semente de tâmara.”
E enfim, no mesmo comentário, se acha registrada esta profecia espantosa: “Dentro em breve Nós, na verdade absoluta, atormentaremos aqueles que guerrearam contra Husayn (Imame Husayn), na Terra do Eufrates, com o mais aflitivo tormento e a punição mais terrível e exemplar.” “Em breve”, escreveu Ele também, referindo-se ao mesmo povo, nesse mesmo Livro, “haverá Deus de se vingar deles, no tempo de Nossa Volta, e Ele, em verdade, preparou-lhes, no mundo vindouro, um tormento severo.”
Quanto a Bahá’u’lláh, as passagens que cito nestas páginas constituem apenas a fração das referências aos sacerdotes muçulmanos que são abundantes em Seus Escritos. “O Loto, além do qual não se passa”, exclama Ele, “geme por causa da crueldade dos sacerdotes; brada e lamenta”. “Desde o início dessa seita (xiita),” escreve Ele em Sua “Epístola ao Filho do Lobo”, “até o dia presente, que grande número de sacerdotes tem aparecido, nenhum dos quais se tornou ciente da natureza desta Revelação. Qual teria sido a causa de tamanha obstinácia? Fôssemos Nós mencionar isso, seus membros romper-se-iam. É necessário que meditem – meditem, sim, por mil milhares de anos, a fim de que atinjam talvez um salpicar do oceano do saber, e descubram as coisas das quais se olvidam, neste dia. Eu andava na Terra de Tá (Teerã) – onde alvoreceram os sinais de teu Senhor – quando, eis que ouvi o lamento dos púlpitos e a voz de sua súplica a Deus – bendito e glorificado seja Ele! – Exclamaram dizendo: Ó Deus do mundo e Senhor das nações! Tu vês nosso estado e as coisas que nos sobrevieram por causa da crueldade de Teus servos. Tu nos criaste e revelaste para Tua glorificação e Teu louvor. Ouves agora o que os refratários proclamam sobre nós em Teus dias. Por Teu poder! Nossas almas dissolvem-se e nossos membros tremulam. Ai, ai! Oxalá nunca tivéssemos sido criados e revelados por Ti! – Os corações do que fruem da proximidade de Deus consomem-se ao ouvirem tais palavras, e deles se levantam os brados de Seus devotos.”
“Essas nuvens espessas”, declara Ele na mesma Epístola, “se referem aos expoentes de vãs fantasias e idéias fúteis, que outros não são senão os sacerdotes da Pérsia”, “Por sacerdotes na passagem aqui citada”, explica Ele sobre este mesmo ponto, “se entendem aqueles homens que por fora se adornam com as vestes do saber, mas, interiormente, delas se privam. A propósito disso, citamos, da Epístola dirigida à Sua Majestade o Xá, certas passagens de “As Palavras Ocultas” reveladas pela Pena de Abhá sob o título de ´Livro de Fátimih´ - estejam sobre ela as bênçãos de Deus! – a seguir: ó vós que sois insensatos mas tendes nome de sábios! Por que motivo assumis o aspecto de pastores enquanto, intimamente, vos tornastes lobos mirando Meu rebanho? Sois assim como a estrela que antecede o alvorecer e, se bem que pareça radiante e luminosa, desvia os peregrinos de Minha cidade, para os caminhos da perdição. – Outrossim Ele diz: - Ó vós belos de aparência mas interiormente vis! Sois como água límpida porém amarga; exteriormente, parece ter a pureza de cristal, mas quando é experimentada pelo Ensaiador Divino, nenhuma gota é aceita. Sim, o raio solar cai igualmente sobre o pó e o espelho, mas estes diferem em seu poder de refletir, do mesmo modo da estrela e da terra; incomensurável, sim, é a diferença.”
“Temos convidado todos os homens”, declarou Bahá’u’lláh em outra Epístola, “a volverem-se para Deus, e Nós lhes tornamos conhecido o Caminho Reto. Eles (os sacerdotes) levantaram-se contra Nós com tamanha crueldade que solaparam as forças do islã, e, no entanto, a maioria do povo continua desatenta!” “Os filhos Daquele que é o Amigo de Deus (Abraão)”, escreveu Ele além disso, “e herdeiros Daquele que conversou com Deus (Moisés), embora fossem tidos como os mais desprezíveis dos homens, rasgaram os véus, romperam as coberturas, apoderaram-se do Vinho Selado, tomando-o das mãos generosas Daquele que subsiste por Si Próprio, e beberam até se saciarem, enquanto os detestáveis sacerdotes xiitas hesitam, até o tempo presente, e continuam perversos.” E também: “Os sacerdotes da Pérsia cometeram o que povo algum entre os povos do mundo jamais cometeu.”
“Se esta Causa for de Deus”, - Ele assim se dirige ao Ministro do Xá em Constantinopla – “homem algum poderá prevalecer contra ela; e se não for de Deus, os sacerdotes dentre vós, e aqueles que seguem seus desejos corruptos, e todos os que se rebelaram contra Ele, conseguirão certamente predominá-la.”
“De todos os povos do mundo” observa Ele em outra Epístola, “aquele que sofreu o maior prejuízo foi, e ainda é, o povo da Pérsia. Juro pelo Sol da Palavra que brilha sobre o mundo em sua glória merídia! Os lamentos dos púlpitos, nesse país, erguem-se continuamente. Nos primeiros dias, se ouviram tais lamentos na Terra de Tá (Teerã) desde que púlpitos, erigidos para a comemoração do Verdadeiro – exaltada seja Sua glória! – se tornaram, na Pérsia, lugares donde se pronunciam blasfêmias contra Aquele que é o Desejo dos mundos.”
“Neste dia”, é Sua cáustica delação, “o mundo está redolente das fragrâncias das vestes da Revelação do Rei Antigo... e, no entanto, eles (os sacerdotes) se reuniram, estabelecendo-se sobre seus assentos, e disseram o que envergonharia um animal, quanto mais o próprio homem! Pudessem eles se tornar cientes de apenas um de seus atos e perceber o dano por este causado, quereriam, com as próprias mãos, despachar-se para sua morada final.”
“Ó assembléia de sacerdotes!” – assim Bahá’u’lláh os exorta – “...Ponde de lado o que possuis, guardai silêncio, e daí ouvidos, então, àquilo que a Língua da Grandeza e Majestade pronuncia. Quão numerosas as servas veladas que se volveram para Mim e acreditaram, e quantos que usavam o turbante se excluíram de Mim e seguiram nas pegadas das passadas gerações!”
“Juro pelo Sol que brilha sobre o Horizonte da Palavra!” assevera Ele, “Uma partícula da unha de uma das servas crentes é, neste dia, mais estimada, aos olhos de Deus, do que o são os sacerdotes da Pérsia que, após haverem esperado por mil e trezentos anos, perpetraram o que nem os judeus perpetraram, durante a Revelação Daquele que é o Espírito (Jesus).” “Embora se regozijem”, é Sua advertência, “pelas adversidades que Nos atingiram, dia virá em que chorarão e se lamentarão.”
“Ó desatento!” – Ele assim, em Lawh-i-Burhán, se dirige a um notório mujtahid persa cujas mãos estavam manchadas do sangue dos mártires Bahá’ís – “Não confies em tua glória e teu poder. És assim como o último rasto do sol no cume da montanha. Breve haverá de se desvanecer, segundo o decreto de Deus, Possuidor de tudo, o Altíssimo. Tua glória, e a glória dos semelhantes a ti, foi tirada, e isso, em verdade, é o que ordenou Aquele em Cujo poder está a Epístola Mãe..., Por vossa causa o Apóstolo (Maomé) lamentou, a Casta (Fátimih) gemeu, os países foram assolados e a escuridão caiu sobre todas as regiões. Ó assembléia dos sacerdotes! Por vossa causa foi que o povo se degradou, a bandeira do islã se baixou e seu poderoso trono foi subvertido. Toda vez que um homem, de discernimento tenta segurar aquilo que exaltaria o islã, vós clamais e assim é Ele impedido de realizar Seu propósito, enquanto a terra permanece prostrada, em ruína evidente.”
“Dize: Ó assembléia de sacerdotes persas!” Bahá’u’lláh ainda outra vez profetiza, “Em Meu Nome vos apoderastes das rédeas dos homens e ocupastes os assentos de honra, por causa de vossa relação a Mim. Quando Me revelei, entretanto, vós vos afastastes e cometestes aquilo que fez correrem as lágrimas dos que Me reconheceram. Breve haverá de perecer tudo o que possuis, e vossa glória transformar-se-á no mais miserável aviltamento, e vereis a punição por aquilo que perpetrastes, segundo decretou Deus, Quem ordena, a Suma Sabedoria.”
Em Súriy-i Múlúk, referindo-se ao inteiro grupo dos dirigentes eclesiásticos do islã sunita em Constantinopla, capital do Império e sede do Califado, Ele escreveu: “ó vós, sacerdotes da Cidade! Viemos a vós com a verdade, enquanto permanecestes desatentos. Parece-me que sois como mortos, envoltos nas mortalhas de vós próprios. Não procurastes Nossa Presença, quando assim fazer vos teria sido melhor do que todos os vossos atos... Sabei que vossos dirigentes, a quem prestais lealdade, de quem vos orgulhais e fazeis menção dia e noite, por cujos rastos quereis ser guiados – tivessem eles vivido nestes dias, se teriam reunido em volta de Mim, jamais de Mim se separando, nem ao anoitecer nem à alvorada. Vós, porém, não volvestes a face para Minha Face, nem sequer por um momento, mas vos tornastes orgulhosos, desatendendo a este Injuriado, a Quem os homens afligiram ao ponto de com Ele fazerem o que quisessem. Deixastes de inquirir sobre Minha condição, nem vos informastes das coisas que Me sobrevieram. Deste modo, excluístes de vós os ventos da santidade e as brisas da bondade que sopram deste Lugar luminoso e perspícuo. Parece-me que vos apegastes às coisas externas e vos esquecestes das interiores, e dizeis o que não praticais. Vós vos apaixonais por nomes, parecendo vos haverdes entregue a estes. Por isso mencionais os nomes de vossos dirigentes. E se vos viesse alguém semelhante a eles, ou que lhes fosse superior, dele fugiríeis... Pelos seus nomes vos exaltastes e obtivestes vossas posições; por eles viveis e prosperais. E fossem vossos diligentes auxiliares aparecer, não renunciaríeis vossa autoridade, nem vos volveríeis em sua direção, nem para eles voltaríeis a face. Nós vos encontramos justamente como encontramos a maioria dos homens, ocupados com a adoração de nomes, nomes que mencionam durante os dias de sua vida. Mal aparecem, entretanto, os Portadores desses nomes, quando eles os repudiam e tergiversam... Sabei que Deus, neste dia, não aceitará vossos pensamentos nem vossa lembrança Dele, nem vossa constância em vos volverdes para Ele, vossa devoção ou vigilância, a menos que vos renoveis aos olhos deste Servo – pudésseis apenas perceber isto.”
A voz de ‘Abdu’l-Bahá, Centro do Convênio de Deus, ergueu-se, igualmente, anunciando os terríveis infortúnios destinados a atingir, pouco depois de Seu traspasse, as hierarquias eclesiásticas do islã, tanto sunita como xiita. “Essa glória,” escreveu Ele, “há de se tornar o mais abjeto aviltamento, e essa pompa e grandeza se converterão na mais completa subjugação. Seus palácios transformar-se-ão em prisões e o curso de sua estrela ascendente terminará nas profundezas do abismo. Desvanecer-se-ão o riso e o júbilo; ainda mais, erguer-se-á a voz de seu lamento.” “Assim como a neve”, escreveu Ele ainda, “dissolver-se-ão no sol de julho.”
A dissolução do Califado, a completa secularização do estado que encerrava a mais augusta instituição do islã, e o virtual colapso da hierarquia xiita na Pérsia, foram as conseqüências visíveis e imediatas do tratamento que a Causa de Deus recebeu do clero das duas maiores comunhões do mundo muçulmano.


23. AS MINGUANTES FORTUNAS DO ISLÃ XIITA

Consideremos, em primeiro lugar, as vicissitudes que marcaram as declinantes fortunas do islã xiita. As iniqüidades enumeradas no princípio desta obra, pelas quais a ordem eclesiástica xiita na Pérsia deve ser tida por responsável primariamente; iniqüidades que, nas palavras de Bahá’u’lláh, haviam causado “o lamento do Apóstolo (Maomé) e o pranto da Casta (Fátimih)”, fazendo “gemerem todas as coisas criadas e tremularem os membros dos santos”; iniqüidades que haviam crivado de balas o peito do Báb, curvado as costas de Bahá’u’lláh e Lhe branqueado o cabelo, fazendo-O gemer de angústia, que fizeram Maomé chorar por Ele, Jesus se bater na cabeça e o Báb lastimar Sua situação – tais iniqüidades não poderiam nem haveriam de permanecer impunes. Deus, o mais veemente Vingador, espreitava, tendo prometido “não perdoar a injustiça de homem algum”. O flagelo de Seu castigo, veloz, súbito e terrível, foi aplicado, afinal, aos perpetradores dessas iniqüidades.
Uma revolução de estupendas proporções e cujos efeitos foram de vasto alcance, notável pela ausência de carnificina, e até de violência, que assinalou seu progresso, desafiou aquela ascendência eclesiástica que era, desde séculos, da essência do islã nesse país, e praticamente derrubou uma hierarquia no meio da qual o maquinismo do estado e a vida do povo haviam sido inextricavelmente entretecidos. Tal revolução não assinalou a desintegração de uma igreja de estado. Foi, de fato, equivalente à destruição do que se pode chamar um estado eclesiástico – estado este que havia esperançosamente, até mesmo no momento de expirar – aguardado o advento jubiloso do Imame Oculto que não somente haveria de arrancar as rédeas de autoridade do Xá, o sumo magistrado que apenas O representava, mas também teria de assumir domínio sobre toda a terra.
O espírito que essa ordem clerical tão assiduamente se esforçara por esmagar, durante um século inteiro, e a Fé que essa ordem com tão feroz brutalidade tentara extirpar, estavam, agora, por sua vez, graças às forças por eles engendradas no mundo, perturbando o equilíbrio e minando o poder dessa mesma ordem cujas ramificações haviam atingido toda a esfera, todo o dever e o ato da vida nesse país. A muralha de pedra que era o islã, aparentemente inexpugnável, foi agora abalado até os fundamentos e cambaleava, prestes a ruir, ante os olhos dos perseguidos adeptos da Fé introduzida por Bahá’u’lláh. Uma hierarquia sacerdotal que havia desde tanto tempo predominado sobre a Fé Divina, parecendo numa ocasião lhe haver dado um golpe mortal, achou-se agora a presa de uma autoridade civil superior cuja política estabelecida era a de cercá-la com seus tentáculos constante e inexoravelmente.
O vasto sistema dessa hierarquia, com todos os seus elementos e todas as suas pertenças – seus shaykhu´l-Isláms (sumos sacerdotes), seus mujtahids (doutores de lei), seus mullás (padres), seus fuqahás (juristas), seus imames (condutores de oração), seus muezins, seus vu´ázz (pregadores), seus qádís (juízes), seus mutavallís (custódios), seus madrisihs (seminários), seus mudarrisíns (professores), seus tullábs (discípulos), seus qurrás (os que entoam), seus mu´abbiríns (vaticinadores), seus muhaddithíns (narradores), seus musakhkhirins (domadores do espírito), seus dhákiríns (lembradores), seus ´ummál-i-dhakát (os que dão esmolas), seus muqaddasíns (santos), seus munzavís (reclusos), seus súfís, daroêses e os demais – foi paralisado e completamente desprestigiado. Seus mujtahids – incendiários que eram – dotados de poder de vida e morte, a quem, havia muitas gerações, se atribuíam honras de caráter quase regal – foram reduzidos a um número deploravelmente insignificante. Os prelados da igreja islâmica com seus turbantes, - que, nas palavras de Bahá’u’lláh, “adornavam as cabeças de verde e branco, e cometiam o que fez gemer o Espírito Fiel” – foram eliminados sem piedade, salvo uma mão-cheia que, a fim de se salvaguardar contra a fúria de uma população ímpia, é obrigada agora a submeter-se à humilhação de mostrar, em todas as ocasiões que exigem isso, a licença que lhe foi concedida pelas autoridades civis para usar esse emblema desvanecente de uma autoridade que já se desvaneceu. Os demais dessa classe que usava o turbante – fossem siyyids, mullás ou hájís – não somente foram forçados a trocar sua venerável cobertura para a cabeça pelo kuláh-i-farangí (chapéu europeu), que há pouco tempo eles próprios haviam anatematizado, mas também a abandonar suas vestes talares e usar as roupas apertadas do estilo europeu, a introdução das quais em seu país eles, uma geração antes, haviam tão violentamente desaprovado.
“As cúpulas de azul escuro e branco” – alusão por ‘Abdu’l-Bahá às coberturas para a cabeça rotundas e volumosas usadas pelos sacerdotes da Pérsia – haviam sido de fato “invertidas”. Aqueles cujas cabeças foram por elas adornadas, os clérigos arrogantes, fanáticos, pérfidos e retrógrados, “as mãos de cuja autoridade” – assim testifica Bahá’u’lláh – “seguravam as rédeas do povo”, cujas “palavras são o orgulho do mundo,” e cujos “atos são a vergonha das nações”, reconhecendo a miséria de sua própria condição, retiraram-se, humilhados e destituídos de esperança, para suas casas, lá tendo uma existência minguada. Impotentes e achacosos, observam as operações de um processo que, tendo invertido sua política e arruinando a obra de suas mãos, se move irresistivelmente a um clímax.
A pompa e a gala desses príncipes da igreja do islã já esmoreceram. Silenciaram-se seus gritos fanáticos, suas invocações clamorosas, suas ruidosas demonstrações. Suas fatvas (sentenças) pronunciadas tão vergonhosamente e às vezes abrangendo a delação de reis, tornaram-se uma letra morta. O espetáculo das orações congregadas, nas quais participaram milhares de devotos em fileiras após fileiras, desvaneceu-se. Abandonados e entregues ao silêncio se acham os púlpitos donde trovejavam seus anátemas contra poderosos e inocentes igualmente. Foram arrancadas de suas mãos aquelas doações de inestimável valor, tão extensas (waqfs) as terras do esperado Imame – as quais só em Isfahán, numa época, abrangiam a cidade inteira, sendo elas transferidas ao controle de uma administração leiga. Seus seminários (madrisihs), com sua erudição medieval, encontram-se no abandono e na ruína. Os inumeráveis tomos de comentários teológicos, super-comentários, glosas e notas, indignos de serem lidos, improfícuos, produto de engenho e fadiga mal aplicados – tomos que um dos mais esclarecidos pensadores do Islã nos tempos modernos considera obras que obscurecem conhecimentos sãos – se acham agora esquecidos, cobertos de teias e aranha, carunchosos, merecedores de fogo. Anacrônicas se tornaram suas dissertações abstrusas, suas controvérsias veementes, seus debates intermináveis. Abandonadas ou caídas em ruína estão suas mesquitas e imám-zádihs (sepulturas dos santos), que tinha o privilégio de conceder a tantos criminosos o direito de santuário (bast) – o que havia degenerado num monstruoso escândalo – cujas paredes ressoavam com as entoações de um clero hipócrita e dissoluto, cujos adornos rivalizavam com os tesouros dos palácios dos reis. Seus takyihs, os recintos dos pietistas contemplativos, indolentes e passivos, se estão vendendo ou fechando. São proibidas suas ta´zíyihs (obras dramáticas religiosas), exibidas com zelo barbárico e acentuadas por súbitos espasmos de desenfreada exaltação religiosa. Até foram censuradas e restritas suas rawdih-khánís (lamentações), com seus longos e melancólicos gemidos que se erguiam de tantas casas. As sagradas peregrinações a Najaf e Karbilá, os mais veneráveis santuários do mundo xiita, foram reduzidas em número e tornadas cada vez mais difíceis, assim impedindo muitos mulas avarentos de praticar seu hábito secular de cobrar em dobro as peregrinações feitas por eles como substitutos pelos religiosos. A rejeição do véu – medida esta que foi alvo da mais renhida oposição dos mullás; a igualdade dos sexos, proibida pela sua lei; a ereção de tribunais civis que superaram as cortes eclesiásticas; a abolição da síghih (concubinagem) que, quando contraída por períodos curtos, difere pouco da prostituição e que fez da turbulenta e fanática Mashhad (centro nacional de peregrinação) uma das cidades mais imorais da Ásia; e, finalmente, os esforços sendo feitos para desprezar o idioma árabe, sagrada língua do islã e do alcorão, e divorciá-lo do persa – tudo isso contribuiu sucessivamente para a aceleração daquele processo impulsor que vem subordinando à autoridade civil a posição e os interesses dos clérigos muçulmanos num grau nem sonhado por qualquer mullá.
Bem poderia o áqá (mullá) que outrora se distinguia pelo turbante majestoso, pelas longas barbas e pela expressão solene, pausar para refletir por algum tempo sobre os esvaecidos esplendores de seu império morto – aquele que com tanta insolência se intrometia em todo setor de atividade humana e que agora se senta, com cabeça descoberta, privado de suas barbas, na reclusão de sua casa, escutando talvez trechos de música ocidental que rasgam o éter de sua terra pátria. Bem poderia ele contemplar a devastação que o crescente fluxo de nacionalismo e ceticismo efetivou nas inquebrantáveis tradições de seu país. Bem poderia ele recordar os dias alciônicos quando passeava pelos bazares e maydáns de sua cidade natal, montado num burro, quando uma multidão iludida se apressava avidamente para beijar com fervor não só suas mãos mas também a cauda de seu animal, e lembrar do zelo cego com que aclamavam seus atos, e dos prodígios e milagres que lhe atribuíam.
Ele poderia de fato olhar para mais longe no passado e recordar o reinado daqueles monarcas safaví, tão píos, que se deleitavam em se chamar de “cachorros no limiar dos Imaculados Imames”, lembrando-se como um desses reis foi induzido a andar a pé na frente do mujtahid enquanto este passava montado pelo maydán-i-sháh, praça principal de Isfáhán, como sinal de subserviência real ao ministro favorito do Imame Oculto – ministro que em distinção do título do xá, se denominou “o servo do Senhor da Santidade (Imame ´Alí)”.
Não foi esse mesmo Xá ´Abbás, o Grande – bem poderia ele considerar – a quem outro mujtahid se dirigira com arrogância como “o fundador de um império emprestado”, significando que o reino do “rei dos reis” pertencia, de fato, ao esperado Imame, tendo-o o Xá em seu poder apenas na capacidade de fideicomissário temporário? Não foi esse mesmo Xá que andou a pé a distância inteira de oitocentas milhas de Isfáhán a Mashhad – “a glória especial do mundo xiita” – com o fim de oferecer suas orações do único modo digno do sháhansháh, no santuário do Imame Ridá, e que aparou as mil velas que adornavam suas cortes? E o Xá Tahmasp, ao receber uma epístola escrita por ainda outro mujtahid, não se pusera em pé, colocando-a sobre os olhos e beijando-a em êxtase, e, porque ela o chamara de “irmão”, ordenando que fosse posta dentro de sua mortalha e com ele enterrada?
Não deveria esse mesmo mullá contemplar as torrentes de sangue que fluíam a seu mando durante os longos anos em que ele gozava de impunidade de conduta, e se lembrar dos flamejantes anátemas que pronunciava, e do grande exército de órfãos e viúvas, dos desherdados e desonrados, dos privados de seus bens e seus lares, que, no Dia do Juízo, unissonamente haveriam de clamar por vingança e invocar sobre ele a maldição de Deus?
Esse bando infame merecia, em verdade, a degradação em que caíra. Desatendendo persistentemente a sentença funesta traçada sobre a parede pelo dedo de Bahá’u’lláh, prosseguiu, por bem perto de cem anos, seu curso fatídico até que na hora marcada, soaram os sinos que anunciavam sua morte, percutidos por aquelas forças espirituais revolucionárias, as quais, simultaneamente com os primeiros alvores da Ordem Mundial de Sua Fé, estão perturbando o equilíbrio e criando tanta confusão nas antigas instituições da humanidade.


24. O COLAPSO DO CALIFADO

Essas mesmas forças, operando num campo colateral, efetuaram uma revolução ainda mais notável e mais radical, culminando no colapso do Califado Muçulmano, a mais poderosa instituição do inteiro mundo islâmico. Esse acontecimento ominosamente significativo foi, além disso, seguido por uma separação formal e definitiva entre o que restava da fé sunita na Turquia e o Estado, e pela completa secularização da República que surgia sobre as ruínas do Império Otomano teocrático. Essa catastrófica queda, que assombrou o mundo islâmico, e o divórcio, formal e absoluto, declarado entre os poderes espirituais e os temporais, que distinguia a revolução da Turquia daquela ocorrida na Pérsia – agora iremos considerar.
O Islã sunita sofreu – não através da ação de uma potência estrangeira invasora mas pelas mãos de um ditador que professava a fé maometana – um golpe mais doloroso do que aquele que, quase simultaneamente, sobreveio à sua seita irmã na Pérsia. Esse ato retribuidor, dirigido contra o arqui-inimigo da Fé Bahá’í, faz lembrar um desastre semelhante precipitado pela ação de um imperador romano, durante a última parte do primeiro século da era crist㠖 desastre que arrasou até os fundamentos o Templo de Salomão, destruiu o Santo dos Santos, assolou a cidade de David e extirpou a hierarquia judaica em Jerusalém, massacrando milhares dos judeus – os perseguidores da religião de Jesus Cristo – dispersando o remanescente sobre a face da terra e erigindo em Sião uma colônia pagã.
O Califa, que se designara a si próprio o vigário do Profeta do Islã, exercia uma soberania espiritual, tendo-se investido de um caráter sagrado, o qual o Xá da Pérsia nem possuía nem para si reclamava. Não se deve esquecer de que a esfera de sua jurisdição espiritual se estendia até países muito além dos confins de seu próprio império, abrangendo a grande maioria dos muçulmanos no mundo inteiro. Em sua capacidade de representante do Profeta na terra, ele era considerado, além disso, o protetor das cidades santas de Meca e Medina, o defensor e propagador do Islã e o comandante de seus adeptos em qualquer guerra santa que tivessem de travar.
Em virtude da abolição do sultanato na Turquia, esse tão potente, augusto e sagrado personagem perdeu primeiro aquela autoridade temporal tida pelos expoentes da escola sunita como necessariamente concomitante à sua alta incumbência. Assim o emblema da soberania temporal, a espada, foi arrancada das mãos do comandante a quem se permitiu ocupar, por um breve período, tão anômala e precária posição. Dentro de pouco tempo, porém, se trombeteou ao mundo sunita, sem que lhe houvesse sido feita consulta alguma, a notícia de que o próprio califado fora deserdado permanentemente pelo país que durante mais de quatrocentos anos o havia aceito como apêndice ao seu sultanato. Os turcos, que haviam sido os chefes militantes do mundo maometano desde o declínio árabe, tendo levado o estandarte do islã até aos portais de Viena – sede do governo da primeira potência da Europa – renunciaram sua primazia. O ex-califa, despido de sua pompa real e dos símbolos de vigário, vendo-se abandonado tanto por amigos como por inimigos, teve de fugir de Constantinopla, orgulhosa sede de uma soberania dual, para a terra dos infiéis, e resignar-se à mesma vida de exílio à qual vários de seus colegas soberanos haviam sido, e ainda estavam condenados.
Nem conseguia o mundo sunita, a despeito de resolutos esforços, designar qualquer um em seu lugar que, embora privado da espada de comandante, pudesse ainda agir como custódio do manto e do estandarte do Apóstolo de Deus – os santos emblemas gêmeos do califado. Realizavam-se conferências, seguiam-se discussões, e convocou-se um congresso do califado na capital egípcia, a cidade dos fatímitas, mas tudo isso teve como resultado apenas a pública confissão, largamente difundida, de seu fracasso: “Concordaram em discordar!”
Estranha incrivelmente estranha, deve parecer a posição desse mais poderoso ramo da Fé Islâmica, sem nenhuma cabeça visível para expressar seus sentimentos e suas convicções, estando destruída, irremediavelmente, sua unidade, ofuscado seu brilho, e minada sua lei, e tendo suas instituições caído num caos desesperador. Após treze séculos, desvanecera-se como fumaça essa instituição que havia desafiado os direitos inalienáveis da autorização divina, possuídos pelos Imames da Fé Maometana – uma instituição que infligira golpes tão impiedosos numa Fé cujo Arauto era, Ele Próprio, descendente dos Imames, legítimos sucessores do Apóstolo de Deus.
O que poderia fazer alusão esta notável profecia encerrada na Lawh-i-Burhán, senão à queda desse príncipe coroado dos muçulmanos sunitas? “Ó assembléia de sacerdotes muçulmanos! Por vossa causa, o povo sofreu humilhação e a bandeira do islã foi arriada, e seu poderoso trono foi subvertido”. E que dizer da profecia, indubitavelmente clara e admirável, registrada no Qayyúmu´l- Asmá? “Dentro em breve, Nós, em verdade, atormentaremos aqueles que guerrearam contra Husayn (Imame Husayn) na terra do Eufrates, como o mais aflitivo tormento e a punição mais exemplar.” Que outra interpretação poderemos dar a esta tradição maometana? “Nos últimos dias, uma calamidade penosa sobrevirá a Meu povo, vindo das mãos de seu governante, uma calamidade tal como homem algum jamais viu.”
Isso não foi tudo, entretanto. O desaparecimento do califa, cabeça espiritual de mais de duzentos milhões de maometanos, teve como conseqüência, na terra que infligira tão pesado golpe no islã, a anulação da Lei canônica sharí´ah, a desapropriação dos bens das instituições sunitas, sendo promulgado um código civil, suprimidas as ordens religiosas e ab-rogadas as cerimônias e as tradições que a religião de Maomé inculcara. O shaykhu´l-Islám e seus satélites – inclusive muftís, qádís, hujahs, shaykhs, súfís, hájís, mawlavís, dervixes e os demais – desvaneceram-se com um golpe mais resoluto, mais aberto e mais drástico do que aquele sofrido pelos xiitas nas mãos do xá e de seu governo. As mesquitas da capital – o orgulho e a glória do mundo islâmico – foram abandonadas, sendo a mais bela e famosa delas todas, a incomparável Santa Sofia – “o Segundo Firmamento”, “o Veículo dos Querubins” – convertida em museu pelos vociferantes criadores de um regime temporal. Baniram da terra a língua árabe, idioma do Profeta de Deus, substituindo seu alfabeto por caracteres latinos, e o próprio Alcorão foi traduzido em turco para os poucos que ainda o desejassem ler. A constituição da nova Turquia, com todas suas cláusulas concomitantes e, segundo alguns pareceres, ateísticas, não só proclamou formalmente a desapropriação dos bens do islã e sua desligação do Estado mas também prenunciou várias medidas que visavam a uma humilhação e a um enfraquecimento ainda maiores. Até mesmo a cidade de Constantinopla, “o Zimbório do Islã”, apostrofada em termos tão condenatórios por Bahá’u’lláh, e que o grande Constantino, após a queda de Bizâncio, saudara como “a nova Roma” – tendo sido elevada à posição de metrópole tanto do Império Romano como da Cristandade, e reverenciada, subseqüentemente, como sede dos califas – essa mesma Constantinopla foi relegada agora à condição de cidade provincial e despida de toda sua pompa e glória, vindo assim seus altos e delgados minaretes a tornar-se sentinelas no túmulo de tanto esplendor e poder esvaecidos.
“Ó Lugar sito nas praias dos dois mares!” – assim Bahá’u’lláh apostrofou a Cidade Imperial, em termos que fazem lembrar as palavras proféticas dirigidas por Jesus Cristo a Jerusalém – “O trono da tirania, em verdade, estabeleceu-se sobre ti, e a chama do ódio se ateou em teu seio, de tal modo que a Assembléia no alto, e os que rodeiam o Trono Excelso, tem gemido e lamentado. Nós vemos que em ti os insensatos governam os sábios, e a treva se ufana contra a luz. Estás, de fato, cheio de orgulho manifesto. Teu esplendor externo te fez vanglorioso? Por Aquele que é o Senhor da humanidade! Breve perecerá, e tuas filhas e tuas viúvas e todos os consangüíneos que em ti residem, haverão de lamentar. Assim te informa o Onisciente, o Sapientíssimo.”
Tal foi o destino que atingiu o islã, tanto o xiita como o sunita, nos dois países em que haviam plantado suas bandeiras e erguido suas mais poderosas e célebres instituições. Tal foi seu destino nesses dois países, num dos quais Bahá’u’lláh faleceu em exílio e noutro o Báb sofreu martírio. Tal foi o destino daquele que se denominara Vigário do Profeta de Deus, como também dos ministros favoritos do Imame ainda esperado. “O povo do Alcorão”, assim testifica Bahá’u’lláh, “levantou-se contra Nós e afligiu-nos com tal tormento que o Espírito Santo deplorou, e o trovão rugiu e as nuvens choraram por Nós... Maomé, o Apóstolo de Deus, no excelso Paraíso, lamenta-se por causa de seus atos”. “Será visto por Meu povo o dia” – suas próprias tradições o condena – “em que nada haja remanescido do islã senão um nome, e do Alcorão nada, salvo uma simples aparência. Os doutores daquela era serão os mais maléficos já vistos pelo mundo. Deles o mal procedeu e sobre eles haverá de retornar”. E também: “Constituirão a maioria de Seus inimigos os sacerdotes. A Seu mando não obedecerão, mas sim farão protesto, dizendo: - Isso é contrário àquilo que nos foi transmitido pelos Imames da Fé.” E ainda: “Naquela hora descerá sobre vós Sua maldição, e vossa desgraça vos afligirá e vossa religião se tornará uma palavra vazia em vossas línguas. E quando estes sinais aparecerem entre vós, antecipai o dia em que o vento chamuscador terá soprado sobre vós, ou o dia em que tereis sido desfigurados, ou o dia em que pedras terão chovido sobre vós.”


25. UMA ADVERTÊNCIA A TODAS AS NAÇÕES

Esse bando de sacerdotes degradados, que Bahá’u’lláh estigmatizara de “doutores da dúvida”, “abjetos manifestantes do Príncipe da Treva”, de “lobos” e “faraós”, de “centros focais do fogo infernal”, de “feras vorazes apresando as almas dos homens” e, segundo atestam suas próprias tradições – de fontes bem como de vítimas de malvadez – esses sacerdotes se juntaram às várias aglomerações de sháhzádihs, emires e principelhos de dinastias caídas, como testemunho e advertência para todas as nações daquilo que há, de cedo ou tarde, sobrevir àqueles possuidores do domínio terreno, sejam reais ou eclesiásticos, que se possam atrever a desafiar ou perseguir os designados Instrumentos e as Personificações de autoridade e poder divinos.
O islã, a um tempo o progenitor e o perseguidor da Fé introduzida por Bahá’u’lláh, está – se lermos com acerto os sinais dos tempos – apenas principiando a sustentar o impacto desta Fé triunfante, invencível. Basta recordarmo-nos dos mil e novecentos anos de tribulações extremas e de dispersão pelos quais tiveram de passar, e ainda estão passando, aqueles que acompanharam o Filho de Deus durante o breve período de três anos. Bem nos podemos perguntar a nós mesmos, com sentimentos de temor e reverência, quão severas não deverão ser as tribulações dos que, por nada menos de cinqüenta anos, “atormentaram com um tormento novo a todo instante” Àquele que é o Pai e, além disso, fizeram que Seu Arauto – Ele Próprio um Manifestante de Deus – sorvesse, sob tão trágicas circunstâncias, a taça do martírio.
Nas páginas precedentes, tenho citado certas passagens dirigidas aos membros, coletivamente, da ordem eclesiástica, tanto islâmica como cristã, e depois anotado referências e discursos específicos aos sacerdotes muçulmanos, xiitas e sunitas igualmente, tendo então procedido à descrição das calamidades que afligiram essas hierarquias maometanas, seus chefes, seus membros, suas propriedades, suas cerimônias e instituições. Consideremos agora os discursos dirigidos especificamente aos membros da ordem clerical cristã, os quais, em sua maioria, desatenderam a Fé introduzida por Bahá’u’lláh, enquanto alguns deles, à medida que a Ordem Administrativa da Fé crescia e estendia suas ramificações sobre os países cristãos, se levantaram a fim de lhe deterem o progresso, menosprezarem a influência e obscurecerem o propósito.


26. SUAS MENSAGENS AOS DIRIGENTES CRISTÃOS

Um rápido olhar sobre os escritos do Autor da Revelação Bahá’í patenteará este fato importante e significativo: Aquele que dirigiu uma mensagem imortal a todos os reis da terra, coletivamente, e revelou uma Epístola a cada uma das proeminentes cabeças coroadas da Europa e da Ásia, fazendo Seu chamado aos principais sacerdotes do islã, tanto sunitas como xiitas, nem excluindo de seu âmbito os judeus e os zoroastrianos, também dirigiu mensagens especiais – além de numerosas e repetidas exortações e advertências ao inteiro mundo cristão – algumas gerais, outras precisas e desafiadoras, aos chefes bem como à generalidade das ordens eclesiásticas cristãs – a seu papa, seus reis, seus patriarcas, seus arcebispos, seus bispos, seus padres e seus monges -. Ao tratarmos das mensagens de Bahá’u’lláh às cabeças coroadas do mundo, já consideramos certas feições da Epístola ao Pontífice Romano, bem como as palavras escritas aos reis da cristandade. Que agora prestemos nossa atenção àquelas passagens nas quais a Pena de Bahá’u’lláh discrimina a aristocracia da igreja, e os ministros ordenados, para Suas exortações e advertências:
“Dize: Ó assembléia de patriarcas! Aquele que vos foi prometido nas Epístolas já veio. Temei a Deus e não sigais as vãs fantasias dos supersticiosos. Renunciai as coisas que possuis e segurai nas mãos firmemente a Epístola de Deus, por Seu poder soberano. Isso vos é melhor que todas as vossas possessões. Disso dá testemunho todo coração compreensível, e todo homem e discernimento. Vós vos orgulhais de Meu Nome e, no entanto, vos excluis de Mim como se o fosse por um véu? Isso, de fato, é coisa estranha!”
“Dize: Ó assembléia de arcebispos! Apareceu Aquele que é o Senhor de todos os homens. Na planície da iluminação, chama Ele à humanidade, enquanto vós estais contados no número dos mortos! Grande é a ventura daquele movido pelos Sopros Divinos, e que se tenha levantado dentre os mortos, neste Nome perspícuo.”
“Dize: Ó assembléia de bispos! Tremulam todas as raças da terra, e Aquele que é o Pai eterno clama entre a terra e o céu. Bem-aventurado o ouvido que tenha escutado, e os olhos que tenham visto, e o coração que se haja volvido para Aquele que é o Alvo da Adoração de todos os que estão nos céus e todos os que estão na terra”. “Ó assembléia de bispos! Sois as estrelas do céu de Meu conhecimento. Minha misericórdia não deseja que caiais à terra. Minha justiça, no entanto, declara: - Isto é o que o Filho (Jesus) decretou. – E tudo o que haja procedido de Seus lábios impecáveis, verazes, fidedignos, jamais se poderá alterar. Os sinos, em verdade, badalam Meu Nome e se lamentam por causa de Mim, mas Meu espírito exulta com evidente júbilo. O corpo do Amado anseia pela cruz, e Sua cabeça anela o dardo, no caminho do Todo-Misericordioso. A ascendência do opressor, de modo algum O poderá deter de Seu propósito”. E também: “As estrelas do céu do conhecimento caíram – aqueles que aduzem as provas em seu poder a fim de demonstrarem a verdade de Minha Causa, e fazem menção de Deus em Meu Nome. Quando Eu lhes vim em Minha majestade, porém, afastaram-se de Mim. São, em verdade, dos caídos. Foi isso que o Espírito (Jesus) profetizou quando veio com a verdade, e os doutores judeus Dele zombaram até que cometeram o que motivou a lamentação do Espírito Santo e fez chorarem os olhos dos que fruem proximidade de Deus.”
“Dize: Ó assembléia de padres! Deixai os sinos e saí, então, de vossas igrejas. Cumpre-vos, neste dia, proclamar em altas vozes, entre as nações, o Maior Nome. Preferis guardar silêncio, enquanto toda pedra e toda árvore clama: - Veio o Senhor em Sua grande glória! - ...Quem convoca os homens em Meu Nome é, em verdade, de Mim, e ele há de manifestar o que está além do poder de todos os que estão na terra... Que os sopros de Deus vos despertem. Em verdade, emanaram sobre o mundo. Bem-aventurado quem descobriu sua fragrância e se contra entre os firmes.” E outra vez: “Ó assembléia de padres! Apareceu o Dia do Juízo, Dia em que veio Aquele que estava no céu. Ele, em verdade, é Quem vos foi prometido nos Livros de Deus, o Santo, o Onipotente, Alvo de todo louvor. Quanto tempo vagareis na selva da negligência e da superstição? Volvei-vos, de coração, para vosso Senhor, o Clemente, o Generoso”.
“Dize: Ó assembléia de monges! Não vos enclausureis em igrejas e conventos. Saí por Minha permissão e ocupai-vos naquilo que possa trazer proveito às vossas almas e às almas dos homens. Assim vos ordena o Rei do Dia do Juízo. Enclausurai-vos na cidadela e Meu amor. Esta é, em verdade, uma reclusão digna – fosseis vós dos que isso percebem. Aquele que se confina a uma casa é de fato como um morto. Cumpre ao homem manifestar o que traga benefício a todas as coisas criadas; quem não produz fruto algum, é digno do fogo. Assim vos aconselha vosso Senhor, e ele é, em verdade, o Onipotente, o Todo-Generoso. Entrai em matrimônio, a fim de que alguém depois de vós encha vosso lugar. Nós vos vedamos atos pérfidos e não aquilo que possa demonstrar fidelidade. Tendes vós vos segurado às normas fixadas por vós mesmos, jogando atrás de vós as normas de Deus? Temei a Deus e não sejais dos imprudentes. Se não fosse o homem, quem faria menção de Mim em Minha terra, e como se haveriam revelados Meus atributos e Meu Nome? Ponderai e não sejais dos que se acham velados, profundamente adormecidos. Àquele que não entrou em matrimônio (Jesus) faltava onde se estabelecer ou reclinar a cabeça, por causa daquilo perpetrado pelas mãos dos traiçoeiros. Sua santidade não consiste naquilo que credes ou imaginais, mas, antes, nas coisas que Nós possuímos. Pedi, para que possais compreender Sua condição, elevada acima das fantasias de todos os que habitam a terra. Bem-aventurados os que isso percebem”. E também: “Ó assembléia de monges! Se a Mim elegerdes seguir, Eu vos farei herdeiros de Meu Reino; e se contra Mim transgredirdes, Eu com Minha tolerância suportarei isso pacientemente, e sou, em verdade, Quem sempre perdoa, o Todo-Misericordioso... Belém agita-se com o Sopro de Deus. Ouvimos sua voz dizer: - Ó mais generoso Senhor! Onde se estabeleceu Tua grande glória? As doces fragrâncias de Tua Presença vivificaram-me depois que eu me dissolvera em minha separação de Ti. Louvado sejas Tu por haveres levantado os véus e vindo com poder, em glória evidente. – A ela chamamos detrás do Tabernáculo da Majestade e Grandeza: - Ó Belém! Essa Luz surgiu no Oriente e se moveu para o Ocidente, até que te alcançou no anoitecer de sua vida. Dize-Me, então: Reconhecem os filhos ao Pai e aclamam-No, ou negam-No, assim como o povo de antanho O (Jesus) negou? Com isso ela exclamou, dizendo: - És, em verdade, o Onisciente, o Mais Informado”. E outra vez: “Considerai, também, quão numerosos, neste tempo, são os monges que se enclausuraram em suas igrejas, em Meu Nome, e que, ao chegar a hora marcada, quando lhes desvelamos Nossa beleza, não Me reconheceram, apesar de Me haverem invocado à alvorada e ao anoitecer.” “Ledes o Evangelho” – Ele ainda outra vez se lhes dirige – “e ainda vos recusais a aclamar o Senhor Todo-Glorioso? Isso, de fato, mal vos convém, ó assembléia de eruditos!... As fragrâncias do Todo-Misericordioso sopraram sobre toda a criação. Feliz o homem que renunciou a seus desejos e se segurou à guia.”
Essas “estrelas caídas” do firmamento da cristandade, essas “nuvens espessas” que obscureceram o brilho da verdadeira Fé Divina, esses príncipes da Igreja, os quais se recusaram a admitir a soberania do “Rei dos Reis”, esses iludidos ministros do Filho, os quais, com desdém, se afastaram do prometido Reino que o “Pai Eterno” fez descer do céu, e está agora estabelecendo na terra – estes estão passando por uma crise, neste “Dia do Juízo”, uma crise menos aguda, é verdade, do que aquela que a ordem sacerdotal do islã, os inveterados inimigos da Fé, tiveram de enfrentar, mas uma não menos significativa nem de alcance menor. “O poder foi tirado”, de fato, e cada vez mais está sendo tirado, desses eclesiásticos que falam no nome – mas estão muito longe do espírito – da Fé que professam.
Basta olharmos ao nosso redor, observando as fortunas das ordens eclesiásticas cristãs, para podermos apreciar a incessante deterioração de sua influência, o declínio do seu poder, o enfraquecimento de seu prestígio, o menosprezo à sua autoridade, a diminuição em suas congregações, o relaxamento em sua disciplina, a restrição de sua imprensa, a timidez de seus dirigentes, a confusão em suas forças armadas, o confisco progressivo de suas propriedades, a rendição de algumas de suas mais poderosas cidadelas e o extermínio de outras antigas e consagradas instituições. De fato, constantemente desde que se emitiu o chamado divino e se estendeu o convite, desde que a advertência soou e a condenação foi pronunciada, esse processo – o qual se iniciou, podemos dizer, com o colapso da soberania temporal do Pontífice Romano logo após se haver revelado a Epístola ao Papa – opera com crescente celeridade, ameaçando a própria base sobre que descansa a ordem inteira. Tal processo, facilitado pelas forças que o movimento comunista desencadeou, fortalecido pelas conseqüências políticas da última guerra, acelerado pelo nacionalismo excessivo, cego, intolerante e militarista que ora convulsiona as nações, e estimulado pelo crescente fluxo do materialismo, irreligião e paganismo – esse processo não só tende a subverter as instituições eclesiásticas mas também parece-nos estar levando para a descristianização das massas em muitos países cristãos.
Contentar-me-ei enumerando certas manifestações salientes dessa força que cad vez mais invade o domínio e ataca os mais firmes baluartes de um dos principais sistemas religiosos da humanidade: a virtual extinção do poder temporal do mais proeminente governante da cristandade, imediatamente após a criação do Reino da Itália; a onda de anti-clericalismo que varreu a França depois do colapso do império napoleônico e que culminou na separação completa da igreja católica e o estado, na laicificação da Terceira República, na secularização da educação e na supressão e debandada das ordens religiosas; o rápido e repentino surgir daquela “irreligião religiosa”, o ataque audaz, consciente e organizado lançado na Rússia Soviética contra a Igreja Grega Ortodoxa, que precipitou a separação entre a religião e o estado, massacrou vasto número de seus membros (que contavam originariamente mais de cem milhões de almas), e derribou, fechou ou converteu em museus, teatros e armazéns, muitos milhares de igrejas, conventos, sinagogas e mesquitas, espoliando a igreja de seis e meio milhões de acres de propriedades, assim tentando, com sua Liga de Ateus Militantes e a promulgação de um “plano qüinqüenal de impiedade”, desarraigar de seus fundamentos a vida religiosa das massas; o desmembramento da Monarquia Austro-Húngara, assim dissolvendo, por um só golpe, a mais poderosa unidade leal à Igreja de Roma, que com seus recursos lhe apoiava a administração; o divórcio entre o Estado Espanhol e a mesma Igreja, com o derribamento da monarquia, campeã da Cristandade Católica; a filosofia nacionalista que deu origem a um nacionalismo irrestrito, obsoleto, que, após haver destronado o islã, atacou indiretamente a vanguarda da igreja cristã em terras não cristãs, e está infligindo golpes tão pesados sobre as Missões Católicas, Anglicanas e Presbiterianas na Pérsia, na Turquia e no Extremo Oriente; o movimento revolucionário seguido pela perseguição da Igreja Católica no México; e, finalmente, o evangelho do paganismo moderno, aberto, agressivo e inexorável que, nos anos anteriores ao presente conflito, e cada vez mais desde que este rebentou, se tem estendido pelo continente europeu, invadindo as cidadelas e semeando confusão nos corações daqueles que apoiavam tanto a Igreja Católica como a Grega Ortodoxa e a Luterana, na Áustria, na Polônia, nos estados bálticos e escandinavos e, mais recentemente, na Europa Ocidental, sede das mais poderosas hierarquias da cristandade.


27. NAÇÕES CRISTÃS CONTRA NAÇÕES CRISTÃS

Que triste espetáculo de impotência e ruptura é apresentado por essa guerra fratricida travada por nações cristãs contra nações cristãs – anglicanos enfileirados contra luteranos, católicos contra gregos ortodoxos, católicos contra católicos, e protestantes contra protestantes – em apoio à chamada civilização cristã! Que triste espetáculo, aos olhos dos que já percebiam a bancarrota das instituições que se dizem falar em nome de Jesus Cristo e serem os custódios de sua Fé! A impotência e o desespero da Santa Sé diante dessa luta intestina entre filhos do Príncipe da Paz, que têm a benção e o apoio dos prelados de uma igreja fatalmente dividida – proclamam até que grau de subserviência caíram as instituições, outrora todo-poderosas, da Fé Cristã, e de um modo frisante fazem lembrar o estado paralelo de decadência das hierarquias de sua religião irmã.
Quanto a cristandade se tem desviado! E como é trágico seu desprezo pela alta missão que Aquele que é o verdadeiro Príncipe da Paz exortou todos os cristãos a cumprir, missão esta exposta nas passagens finais de Sua Epístola ao Papa Pio IX – passagens que estabelecem, uma vez por todas, a distinção entre a Missão de Bahá’u’lláh, nesta era, e a de Jesus Cristo: “Dize: Ó assembléia de cristãos! Nós, numa ocasião anterior, Nos revelamos a vós, e não Me reconhecestes. Esta é ainda outra ocasião que vos é concedida. É este o Dia de Deus; volvei-vos para Ele... Ao Amado não apraz que vos consumais pelo fogo de vossos desejos. Se fosseis excluídos Dele como se por um véu, não seria isso por outra causa senão pela vossa própria obstinácia e ignorância. Vós Me mencionais e não Me conheceis. Invocais a Mim e desatendeis Minha Revelação... Ó povo do Evangelho! Os que não estavam no Reino, aí agora entraram, enquanto Nós vos vemos deterdes à porta. Rompei os véus pelo poder de vosso Senhor, onipotente, o Todo-Generoso, e então, em Meu Nome, entrai em Meu Reino. Assim vos exorta Quem deseja para vós a vida eterna... Nós vos vemos, ó filhos do Reino, em trevas. Isso, em verdade, vos é indigno. Tendes medo, à face da luz, por causa de vossos atos? Dirigi-vos a Ele... Em verdade, Ele (Jesus) disse: - Segui a Mim e Eu vos farei pescadores de homens. Neste dia, porém, dizemos: - Segui a Mim para que vos possamos fazer vivificadores da humanidade”. “Dize:” – escreveu Ele, além disso, “Nós em verdade, viemos por vossa causa e suportamos os infortúnios do mundo para vossa salvação. Fugis Daquele que sacrificou a vida a fim de que vós fôsseis ressuscitados? Temei a Deus, ó vós que seguis o Espírito (Jesus) e não andeis nas pegadas de todo sacerdote que se tiver desviado para longe... Abri as portas de vossos corações. Aquele que é o Espírito (Jesus) está, em verdade, em sua frente. Por que razão vos mantendes longe Daquele que intentou vos fazer aproximar de um Lugar Resplandecente? Dize: Nós vos abrimos, em verdade, os portais do Reino. Quereis fechar as portas de vossas casas em Minha face? Isso, em verdade, nada mais é que erro lastimável.”
Tal é o estado ao qual se reduziu o clero cristão – um clero que se interpôs entre seu rebanho e o Cristo vindo de novo na glória do Pai. À medida que a Fé deste Prometido penetra cada vez mais no coração da cristandade, e se multiplicam os recrutas das cidadelas que seu espírito ora ataca, provocando isso uma ação unida e resoluta em defesa dos baluartes da ortodoxia cristã, e à medida que as forças do nacionalismo, do paganismo, do secularismo e do racismo se movem em conjunto para um clímax, não podemos pressagiar que o declínio no poder, autoridade e prestígio desses eclesiásticos se acentuará, demonstrando a verdade, e desdobrando mais plenamente as implicações do pronunciamento de Bahá’u’lláh que pressagia o eclipse dos luminares da Igreja de Jesus Cristo?
De vasto alcance, em verdade, foi a ruína causada nas fortunas da hierarquia xiita na Pérsia, e digna de lástima a sorte reservada para seu remanescente ora gemendo sob o jugo de uma autoridade civil que ela desde séculos havia dominado e desdenhado. Cataclísmico, de fato, foi o colapso da mais proeminente instituição do islã sunita, e irreparável a queda de sua hierarquia num país que fora campeã da causa do chamado vigário do Profeta de Deus. Persistente e inexorável é o processo que trouxe tanta destruição, ignomínia, cisma e fraqueza aos defensores das cidadelas do eclesiasticismo cristão, e negras, em verdade, são as nuvens que lhe obscurecem o horizonte. Em conseqüência das ações dos sacerdotes muçulmanos e cristãos – “ídolos” estigmatizados por Bahá’u’lláh como constituindo a maioria de Seus inimigos, que não Lhe atenderam a injunção de abandonar suas penas e rejeitar suas fantasias e que, se Nele tivessem acreditado, segundo Seu próprio testemunho, teriam realizado a conversão das massas – o islã e o cristianismo já entraram, podemos dizer sem exagero, na fase mais crítica de sua história.
Que ninguém se engane, porém, quanto a meu propósito, nem interprete erroneamente essa verdade cardeal que é da essência da Fé Bahá’í. A origem divina de todos os Profetas de Deus – inclusive Jesus Cristo e o Apóstolo de Deus, os dois maiores Manifestantes anteriores à Revelação do Báb – tem o apoio firme e sem reservas de cada um que segue a religião Bahá’í. É reconhecida claramente a unidade fundamental desses Mensageiros de Deus, afirmada a continuidade de Suas Revelações, admitida a autoridade divina bem como o caráter correlativo de Seus Livros; é proclamada a uniformidade de seus objetivos e propósitos, e acentuado o fato de ser inigualável Sua influência, enquanto se ensina e prevê a reconciliação final entre os ensinamentos de todos e os adeptos de todos. “Todos Eles” – segundo o testemunho de Bahá’u’lláh – “residem no mesmo tabernáculo, voam no mesmo céu, sentam-se no mesmo trono, pronunciam as mesmas palavras e proclamam a mesma Fé.”


28. A CONTINUIDADE DA REVELAÇÃO

A Fé que se identifica com o nome de Bahá’u’lláh não admite qualquer intenção de menosprezar um Profeta anterior, de Lhe diminuir um ensinamento ou ofuscar, no mínimo grau, o brilho de Sua Revelação, de desarraigá-Lo dos corações de Seus adeptos, de ab-rogar os fundamentos de Sua doutrina, de rejeitar qualquer dos Livros revelados ou suprimir as legítimas aspirações de Seus adeptos. Repudiando o suposto direito de qualquer religião de ser a revelação final de Deus ao homem, inclusive Sua própria Revelação, Bahá’u’lláh inculca o princípio básico de ser relativa a verdade religiosa, contínua a Revelação Divina, progressiva a experiência religiosa. Visa Ele a alargar a base de todas as religiões reveladas, e desvendar os mistérios de suas escrituras. Insiste sobre o reconhecimento incondicional de sua unidade de propósito, expressa novamente as eternas verdades que todas elas encerram, coordena-lhes as funções, distingue, em seus ensinamentos, o essencial e autêntico do não-essencial e espúrio, separa as verdades de origem divina das superstições de procedência sacerdotal e, nesta base, proclama ser possível, e até inevitável, sua unificação e a consumação de suas mais altas esperanças.
Quanto a Maomé, o Apóstolo de Deus – que ninguém dentre Seus adeptos pense por um momento, ao ler estas páginas, que o islã, ou seu Profeta, ou Seu Livro, ou Seus Sucessores designados, ou qualquer de Seus autênticos ensinamentos, tenham sido, ou devam ser, no mínimo grau, desprezados. A linhagem do Báb, o descendente do Imame Husayn; as várias evidências tão notáveis, na Narrativa de Nabíl, da atitude do Arauto de nossa Fé para com o Fundador, os Imames e o Livro do islã; a calorosa homenagem prestada por Bahá’u’lláh, no Kitáb-i-Iqán, a Maomé e aos Seus legítimos Sucessores, e, em particular ao Imame Husayn “sem igual e incomparável”; os argumentos que ‘Abdu’l-Bahá aduziu em público, em igrejas e sinagogas, poderosa e intrepidamente, a fim de demonstrar a validez da Mensagem do Profeta Árabe; e, por último, embora não de menor importância, o testemunho escrito da Rainha da Romênia, que apesar de haver nascido na fé anglicana e não obstante a estreita aliança de seu governo com a Igreja Grega Ortodoxa – a religião oficial de seu país adotivo – foi levada, sobretudo por haver lido os discursos públicos de ‘Abdu’l-Bahá, a proclamar seu reconhecimento da função profética de Maomé – tudo isso patenteia, em termos inequívocos, a verdadeira atitude da Fé Bahá’í para com sua religião materna.
“Deus” – é o tributo da Rainha Maria – “é o Todo, e o tudo. Ele é o poder atrás de todos os princípios... É Sua Voz dentro de nós que nos mostra o bem e o mal. Pela maior parte, porém, desatendemos ou interpretamos mal essa Voz. Por isso, fez Ele descerem à terra, para estarem entre nós, Seus Eleitos, a fim de esclarecer Sua Palavra, Seu verdadeiro significado. Por isso, os Profetas; por esta razão, Cristo, Maomé, Bahá’u’lláh, pois o homem necessita, de tempos em tempos, de uma voz na terra para lhe trazer Deus, para lhe aguçar a percepção da existência do Deus verdadeiro. Essas vozes, enviadas a nós, tiveram de se encarnar, a fim de que nós, com nossos ouvidos terrenos, pudéssemos ouvir e entender.”
Que prova maior – podemos perguntar pertinentemente – será exigida pelos sacerdotes da Pérsia, ou da Turquia, para demonstrar o fato de que os adeptos de Bahá’u’lláh reconhecem a excelsa posição do Profeta Maomé entre a inteira companhia dos Mensageiros de Deus? Que maior serviço esperam esses sacerdotes que prestemos à Causa do islã? Que maior evidência de nossa capacidade, poderão eles pedir, do que havermos avivado, em regiões tão além de seu alcance, a centelha de uma ardente e sincera conversão à verdade expressa pelo Apóstolo de Deus, e obtido da pena de uma realeza essa confissão pública e, de fato, histórica, de sua Missão divina?
Quanto à posição do cristianismo, seja afirmado, sem a menor hesitação ou equívoco, que se admite incondicionalmente sua origem divina, que se declara destemidamente a divindade de Jesus Cristo, reconhecendo, pois, plenamente a inspiração divina do Evangelho; que se confessa a realidade do mistério da imaculabilidade da Virgem Maria, e se apóia e defende a primazia de Pedro, Príncipe dos Apóstolos. Bahá’u’lláh denomina o Fundador da Fé Cristã o “Espírito de Deus”, proclamando-O como Aquele que “apareceu do sopro do Espírito Santo” e até O exalta como a “Essência do Espírito”. Descreve Sua mãe como “aquele semblante velado e imortal, o mais belo,” e elogia a posição de seu Filho como uma “posição exaltada acima do que possam imaginar todos os que habitam a terra”, enquanto reconhece a Pedro como aquele de cujos lábios Deus fez “manarem os mistérios da sabedoria e da pronunciação”. “Sabe tu” – atestou Bahá’u’lláh ainda – “que, quando o Filho do Homem entregou a Deus Seu fôlego, a criação inteira chorou, com grande pranto. Pelo Seu sacrifício, porém, se infundiu uma capacidade nova em todas as coisas criadas. As evidências disto, segundo testemunham todos os povos da terra, estão agora manifestas diante de ti. A mais profunda sabedoria pronunciada pelos sábios, a mais vasta erudição desvelada por mente alguma, as artes que as mãos mais hábeis já produziram, a influência que o mais potente dos governantes tem exercido, são apenas manifestações do poder vivificador emanado de Seu Espírito transcendente e esplendoroso que em tudo penetra. Damos testemunho de que Ele, ao vir para o mundo, derramou o esplendor de Sua glória sobre todas as coisas criadas. Por Seu intermédio, o leproso foi curado da lepra da perversidade e da ignorância. Por Seu intermédio, o impuro e o refratário restauraram-se. Graças a Seu poder, oriundo de Deus Onipotente, abriram-se os olhos do cego, e santificou-se a alma do pecador. Ele foi Quem purificou o mundo. Bem-aventurado o homem que, com a face irradiante de luz, se volveu para Ele.”
De fato, um dos requisitos essenciais para que sejam admitidos ao rebanho Bahá’í, judeus, zoroastrianos, hindus, budistas e os que seguem as outras crenças antigas, bem como agnósticos e mesmo ateus, é que aceitem de todo coração e incondicionalmente a origem divina tanto do islã como do cristianismo, as funções de Profeta exercidas por Maomé, bem como por Jesus Cristo, a legitimidade da instituição de Imame, e a primazia de São Pedro, Príncipe dos Apóstolos. Tais são os princípios centrais, sólidos, incontrovertíveis, que constituem a pedra fundamental da crença Bahá’í, princípios estes que a Fé promulgada por Bahá’u’lláh se orgulha de reconhecer, seus instrutores proclamam, seus apologistas defendem, sua literatura dissemina, suas escolas de verão expõem e a generalidade de seus adeptos atesta, tanto por palavra como por ação.
Nem se deve pensar por um momento que os seguidores de Bahá’u’lláh procurem degradar ou menosprezar a posição dos dirigentes religiosos do mundo, sejam cristãos, maometanos ou de qualquer outra fé, contanto que sua conduta esteja em harmonia com sua profissão e digna da posição que ocupam. “Aqueles sacerdotes”, Bahá’u’lláh afirmou, “... que realmente se aformoseam com o adorno do conhecimento, e de um caráter reto, são como uma cabeça para o corpo do mundo, como olhos para as nações. A orientação dos homens tem dependido em todos os tempos, e ainda depende, dessas almas abençoadas”. E também: “O sacerdote cuja conduta é íntegra, e o sábio que é justo, são como o espírito para o corpo do mundo. Feliz aquele cuja cabeça se atavia com a coroa da justiça e cujo templo se embeleza com o adorno da eqüidade”. E ainda: “O sacerdote que se tiver apoderado do mais santo Vinho e dele sorvido, em nome do soberano Ordenador, será como olhos para o mundo. Bem-aventurados os que lhe obedecem e dele se lembram”. “Grande é a bem-aventurança daquele sacerdote”, escreveu Bahá’u’lláh em outra ocasião, “que não tenha permitido que o conhecimento se tornasse um véu entre ele e aquele Ser, Objeto de todo o conhecimento e, ao aparecer o Subsistente por Si Próprio, se haja volvido para ele com a face irradiante. Em verdade, ele é contado entre os sábios. Os habitantes do Paraíso procuram a benção de seu sopro, e sua lâmpada brilha sobre todos os que estão no céu e na terra. Em verdade, ele se inclui no número dos herdeiros dos Profetas. Quem o vir terá, de fato, visto o Verdadeiro, e quem se volver para ele, se terá, realmente volvido para Deus, o Todo-Poderoso, o Onisciente”. “Respeitai os sacerdotes entre vós”, - é Sua exortação – “aqueles cujos atos estiverem em harmonia com o conhecimento por eles possuído, que observarem os estatutos de Deus e decretarem o que Deus decretou no Livro. Sabei que são as lâmpadas que guiam entre a terra e o céu. Os que não têm consideração pela dignidade e pelo mérito dos sacerdotes em seu meio, alteram, em verdade, a generosa graça de Deus que lhes foi concedida”.
Caros amigos! Nas páginas precedentes, tenho tentado apresentar essa tribulação mundial que se apoderou da humanidade, como sendo, primariamente, um juízo de Deus pronunciado contra os povos da terra, os quais, há um século, se recusam a reconhecer Aquele Cujo advento fora prometido a todas as religiões, e em cuja Fé, tão somente, todas as nações podem e devem, afinal, buscar sua verdadeira salvação. Tenho citado, dos escritos de Bahá’u’lláh e do Báb certas passagens que revelam o caráter e prognosticam a vinda dessa visitação de procedência divina. Já enumerei as penosas provações que afligiram a Fé, seu Arauto, seu Fundador e seu Exemplar, e expus a trágica falha da generalidade dos homens e de seus dirigentes que não protestaram contra essas tribulações nem admitiram a verdade da missão Daqueles que as suportaram. Indiquei que uma responsabilidade direta, terrível e inescapável cabia aos soberanos da terra e aos dirigentes religiosos do mundo que, nos dias do Báb e de Bahá’u’lláh, seguravam em suas mãos as rédeas da absoluta autoridade política e religiosa. Também tentei mostrar como, em conseqüência do antagonismo direto e ativo à Fé, por parte de alguns deles, e porque outros se descuidaram de seu inquestionável dever de investigar sua verdade, examinar suas declarações, vindicar sua inocência e punir aqueles que a injuriaram, tanto reis como eclesiásticos têm sofrido, e ainda estão sofrendo, os terríveis castigos que seus pecados de omissão e comissão provocaram. Por ser sua a responsabilidade principal, em vista de sua ascendência indisputável sobre súditos e adeptos, respectivamente, tenho citado extensamente as mensagens, exortações e advertências que lhes foram dirigidas pelos Fundadores de nossa Fé, e também discorrido longamente sobre as conseqüências dessas pronunciações momentosas e históricas.
Embora os responsáveis por essa grande calamidade retribuidora, segundo atesta Bahá’u’lláh, sejam, primariamente, os supremos dirigentes do mundo, tanto seculares como religiosos, não devemos considerá-la – se a quisermos avaliar com acerto – como somente uma visitação divina a um mundo que há cem anos persiste em se recusar a abraçar a verdade de uma Mensagem redentora que lhe é proferida, neste dia, pelo supremo Mensageiro de Deus. Deve ser vista, também, embora em menor grau, como uma retribuição divina pela perversidade da espécie humana em geral, por haver ela se desviado daqueles princípios elementares que, em todos os tempos, hão de governar a vida e o progresso dos homens e, tão somente, os podem salvaguardar. A humanidade, infelizmente, em vez de reconhecer e adorar o Espírito de Deus na forma em que se incorpora em Sua religião neste dia tem preferido, com uma crescente insistência, adorar aqueles ídolos falsos, conceitos inverídicos e meias-verdades que lhe obscurecem as religiões, corrompem a vida espiritual e convulsionam as instituições políticas, corroendo-lhe a textura social e demolindo sua estrutura econômica.
Não somente têm os povos da terra mostrado indiferença, e alguns até atacado uma Fé que é a um tempo a essência e a promessa de todas as religiões, destinada a reconciliá-las e unificá-las, mas também eles se têm afastado de suas próprias religiões, pondo sobre seus altares subvertidos outros deuses inteiramente alienados do espírito, bem como das formas tradicionais de suas antigas crenças.
“A face do mundo”, lamenta Bahá’u’lláh, “alterou-se. O caminho de Deus e a religião de Deus deixaram de ter valor aos olhos dos homens”. “A vitalidade da crença dos homens em Deus”, escreveu Ele também, “está morrendo em toda parte... A corrosão da impiedade consome as vísceras da sociedade humana”. “A religião”, Ele afirma, “é, em verdade, o instrumento principal para estabelecer ordem no mundo e realizar tranqüilidade entre seus povos... Quanto maior o declínio da religião, mais lastimável se torna a obstinação dos ímpios. Isso a nada poderá levar, afinal, senão ao caos e à confusão”. E também: “A religião é uma luz radiante e um baluarte invencível para a proteção e o bem-estar dos povos do mundo”. “Assim como o corpo do homem”, escreveu Ele em outra ocasião, “necessita de vestimenta para vesti-lo, também o corpo da humanidade deve adornar-se com o manto da justiça e sabedoria. Suas vestes são a Revelação que lhe é concedida por Deus.”


29. OS TRÊS FALSOS DEUSES

Essa força vital esmorece, ofusca-se essa luz radiante; é abandonado esse irreduzível baluarte, e rejeitada tão bela vestimenta. O próprio Deus foi, de fato, destronado dos corações dos homens, e um mundo idólatra saúda clamorosamente e adora apaixonadamente os falsos deuses que suas próprias vãs fantasias criaram com tamanha fatuidade. Os ídolos principais no templo execrado da humanidade não são outros que os tríplices deuses, do nacionalismo, racismo e comunismo, diante de cujos altares adoram atualmente, em várias formas e diferentes graus, governos e povos, sejam democráticos ou totalitários, do Oriente ou do Ocidente, cristãos ou islâmicos, quer estejam em paz ou em guerra. Seus sacerdotes são os políticos e os especialistas do mundo, os chamados sábios da época; seu sacrifício consiste na carne e sangue das multidões trucidadas; suas encantações, em shibboleths obsoletos e fórmulas insidiosas e irreverentes; seu incenso, na fumaça da angústia que se eleva dos corações dilacerados daqueles que perderam os entes queridos, daqueles excluídos e dos sem teto.
As teorias e políticas errôneas e perniciosas, que deificam o estado e exaltam a nação acima da humanidade, que visam a subordinar as raças irmãs do mundo a uma só raça superior, que discriminam entre preto e branco e toleram o predomínio de uma classe privilegiada sobre as demais – estas são as doutrinas obscuras, falsas e retorcidas que devem, cedo ou tarde, sujeitar aquele homem ou aquele povo que as seguir ou nelas acreditar à ira e punição de Deus.
“Movimentos”, é a advertência expressa por ‘Abdu’l-Bahá, “recém-nascidos e de âmbito mundial, exercerão seus máximos esforços pela promoção de seus desígnios. O Movimento Esquerdista adquirirá grande importância. Estender-se-á a sua influência.”
Em contraste com tais doutrinas que engendram a guerra e convulsionam o mundo, e irreconciliavelmente opostas a elas, vemos as verdades saneadoras, redentoras e ponderosas proclamadas por Bahá’u’lláh, o Divino Organizador e Salvador de toda a humanidade – verdades estas que devem ser vistas como a força animadora e o distintivo de Sua Revelação: “O mundo é apenas um país e os seres humanos seus cidadãos”. “Que nenhum homem se vanglorie de amar seu país; antes deve se gloriar disto, que ama a sua espécie”. E também: “Sois os frutos de uma só árvore e as folhas de um único ramo”. “Inclinai vossas mentes e vontades para a educação dos povos e raças da terra, a fim de que talvez... todos os seres humanos se possam tornar os sustentáculos de uma só ordem e os habitantes de uma mesma cidade... Viveis em um só mundo e fostes criados pela operação de uma só Vontade.” “Acautelai-vos para que os desejos da carne e de uma inclinação corrupta não motivem divisões entre vós. Sede assim como os dedos de uma só mão, os membros de um só corpo”. E ainda: “Todos os renovos do mundo apareceram de uma só árvore, todas as gotas de um mesmo oceano, e todos os seres devem sua existência a um único Ser”. E ainda mais: “Homem, em verdade, é aquele que se dedica hoje ao serviço da humanidade inteira”.


30. OS ENFRAQUECIDOS PILARES DA RELIGIÃO

Não somente a irreligião e sua monstruosa prole – a tríplice maldição que oprime a alma da humanidade neste dia – devem ser tidas por responsáveis pelos males que tão tragicamente a assediam, mas também outros males e vícios que, em sua maior parte, são conseqüências diretas do “enfraquecimento dos pilares da religião”, devem ser considerados fatores contribuintes para o múltiplo delito do qual indivíduos e nações já se provaram culpados. Os sinais de declínio moral, conseqüência do destronamento da religião e da entronização desses ídolos usurpadores, são muito numerosos e patentes demais para que um observador, mesmo superficial, do estado da sociedade hodierna deixasse de notá-los. O aumento da licenciosidade, da embriaguez, do jogo e do crime; o desmedido amor ao prazer, à riqueza e às outras vaidades terrenas; o desleixo moral, que se revelam na atitude irresponsável para com o casamento, no enfraquecimento do controle paterno, no crescente fluxo do divórcio, na deterioração de normas na literatura e na imprensa, e na promoção de teorias que são a própria negação da pureza, da moralidade e da castidade, todas estas evidências de decadência moral – invadindo tanto o Oriente como o Ocidente, atingindo cada estrato da sociedade e instilando seu veneno em membros de ambos os sexos, jovens e velhos igualmente – denigrem ainda mais o pergaminho sobre o qual se acham inscritas as múltiplas transgressões de uma humanidade impenitente.
Não é de se admirar haver Bahá’u’lláh, o Médico Divino, declarado: “Neste dia, os gostos dos homens mudaram e seu poder de percepção se alterou. Os ventos contrários do mundo, e suas cores, provocaram um resfriamento, assim privando as narinas dos homens das doces fragrâncias da Revelação.”
Transbordante e amargo, realmente, é o cálice à espera de uma humanidade que não respondeu ao chamado de Deus através da voz de Seu Mensageiro Supremo – uma humanidade que deixou ofuscar-se a lâmpada da fé em seu Criador, transferindo, em uma vasta escala, os deuses de sua própria invenção, a lealdade devida a Ele, e se poluindo com os males e vícios que tal transferência haveria forçosamente de engendrar.
Caros amigos! É à luz de tais considerações que nós, os seguidores de Bahá’u’lláh, devemos ver essa visitação de Deus, a qual nos anos finais do primeiro século da era Bahá’í, aflige a generalidade dos seres humanos, e a tal ponto lhes confunde as atividades. Por causa desse delito dual – das coisas que fizeram e das que deixaram de fazer, de suas ofensas bem como de sua falta, tão triste e tão insignificante, de cumprir seu dever claro e inequívoco para com Deus, Seu Mensageiro e Sua Fé – foi que essa penosa provação, nada importando quais, sejam suas causas políticas e econômicas imediatas, tão firmemente dos seres humanos se apoderou.
Deus, porém, assim como mostramos no princípio destas páginas, não somente pune as ofensas de Seus filhos. Ele castiga porque é justo; faz sofrer porque ama. Depois de os haver punido, Ele, com Sua grande misericórdia, não os pode abandonar a seu destino. Em verdade, pelo próprio ato de os castigar, Ele os prepara para o desempenho do papel que foi o motivo de sua criação. “Minha calamidade é Minha providência”, assegura-lhes Ele, pelos lábios de Bahá’u’lláh, “exteriormente é fogo e vingança, mas interiormente é luz e mercê.”
As chamas ateadas pela Sua justiça divina purificam uma humanidade ainda não regenerada e funde seus elementos discordantes, combatentes, como nenhum outro agente os pode purificar ou fundir. Não é apenas um fogo retribuidor e destrutivo, mas também um processo disciplinante e criador, que visa salvar, através da unificação, o planeta inteiro. Misteriosamente, com lentidão mas com poder irresistível, Deus efetua Seu desígnio, embora o espetáculo com que nossos olhos hoje se defrontam seja o de um mundo desesperadamente enredado em suas próprias maranhas, desatendendo por completo a Voz que há um século o chama a Deus, e miseravelmente servil às vozes de sereia que tentam seduzi-lo ao vasto abismo.


31. O DESÍGNIO DE DEUS

Não é outro o desígnio de Deus senão o de inaugurar – por meios que somente Ele pode usar e cuja plena significação Ele, tão somente, pode sondar – a Grande Idade Áurea de uma humanidade desde longo tempo dividida e angustiada. Seu estado atual é obscuro, como também o será, de fato, seu futuro próximo lastimavelmente obscuro. Seu futuro remoto, porém, será radiante, gloriosamente radiante – tão radiante que nenhuma visão o pode abranger.
“Os ventos do desespero”, escreve Bahá’u’lláh, enquanto contempla os destinos imediatos da humanidade, “sopram, infelizmente, de todos os lados, e a contenda que divide e aflige o gênero humano, aumenta dia a dia. Os sinais de convulsões e caos iminentes podem ser discernidos, já que a ordem prevalecente parece ser lamentavelmente defeituosa”. “Tão deplorável será seu estado”, declara Ele em outra ocasião, “que não seria apropriado revelá-lo agora”. “Essas lutas infrutíferas” – Ele, por outro lado, contemplando o futuro da humanidade, predisse enfaticamente durante sua memorável palestra com o orientalista, Edward G. Browne, “essas guerras ruinosas acabarão, e a Maior Paz virá... Essa contenda e essa carnificina e discórdia devem cessar, e todos os homens considerarem-se como uma única raça e uma só família.” “Breve”, Ele prediz, “será a ordem atual posta de lado, e uma nova se desdobrará em seu lugar”. “Após algum tempo”, escreveu Ele também: “todos os governos na terra transformar-se-ão. Opressão haverá de envolver o mundo. E após uma convulsão universal, o sol da justiça levantar-se-á do horizonte do reino invisível”. “Toda a terra”, afirmou Ele, além disso, “está prenhe. Aproxima-se o dia em que terá produzido seus frutos mais nobres, quando dela terão brotado as árvores mais altas, as mais encantadoras flores, as bênçãos mais celestiais”. “Todas as nações e raças”, escreveu ‘Abdu’l-Bahá igualmente, “hão de se tornar uma só nação. Serão eliminados os antagonismos entre religiões e seitas, a hostilidade entre raças e povos, as diferenças entre nações. Todos os homens aderirão a uma única religião, terão uma fé comum, fundir-se-ão numa mesma raça e se tornarão um só povo. Todos viverão numa pátria comum, a qual será o próprio planeta.”
O que testemunhamos no tempo atual, durante “esta mais grave crise na história da civilização”, fazendo lembrar os períodos em que “religiões têm perecido e nascido”, é a fase adolescente na lenta e dolorosa evolução da humanidade, preliminar ao alcance da etapa de adulto, da madureza, a promessa do que é fundamental nos ensinamentos de Bahá’u’lláh e encerrada em Suas profecias. O tumulto desta era de transição é característico da impetuosidade e dos instintos irracionais da mocidade, de suas extravagâncias, sua prodigalidade, sua arrogância, sua completa confiança em si própria, sua rebeldia e seu desdém pela disciplina.


32. A GRANDE ERA QUE ESTÁ POR VIR

Passaram-se as épocas da infância e da juventude, para nunca mais voltarem, enquanto a Grande Época, a consumação de todas as épocas, que há de assinalar o amadurecimento da humanidade inteira, está ainda por vir. As convulsões deste período transitório, o mais turbulento nos anais da humanidade, são os requisitos essenciais e prenunciam a vinda inevitável daquela Época das Épocas, “tempo do fim”, quando a inépcia e o tumulto da contenda que, desde os primórdios da história, enegrece os anais do homem, se terão transmudado na sabedoria e tranqüilidade de uma paz perfeita, universal e duradoura, quando a discórdia e a separação dos filhos dos homens serão substituídas pela reconciliação mundial e pela completa unificação dos diversos elementos que constituem a sociedade humana.
Será isso, de fato, o apropriado clímax daquele processo de integração que, principiando com a família, a menor unidade na escala da organização humana, e manifestando-se sucessivamente na formação de tribo, cidade-estado e nação, deverá continuar a operar até atingir seu ponto culminante na unificação do mundo inteiro – o objeto final e a glória suprema da evolução humana neste planeta. Esta é a etapa da qual a humanidade, querendo ou não, se está aproximando, irresistivelmente. É para esta etapa que a vasta e chamejante provação que ora atribula a humanidade, está preparando, misteriosamente, o caminho. É com esta etapa que se ligam indissoluvelmente, os fortúnios e o propósito da Fé introduzida por Bahá’u’lláh. Foram as energias criadoras oriundas de Sua Revelação no “ano sessenta” e, mais tarde, reforçadas pelas sucessivas efusões de poder celestial concedido no “ano nove” e no “ano oitenta” a todo o gênero humano, que instilaram no homem a capacidade de alcançar essa etapa final em sua evolução orgânica e coletiva. Será com a Idade Áurea de Sua Dispensação que se associará para sempre a consumação desse processo. Será a estrutura de Sua Nova Ordem Mundial, que ora se agita no ventre materno das instituições administrativas por Ele Próprio criadas, que há de servir tanto de padrão como de núcleo para aquela comunidade mundial que é o destino certo, inevitável dos povos e nações da terra.
Assim como a evolução orgânica da humanidade foi lenta e gradativa, envolvendo, sucessivamente, a unificação de família, tribo, cidade-estado e nação, também tem sido lenta e progressiva a luz emitida pela Revelação de Deus em várias etapas na evolução da religião, e refletida nas sucessivas Dispensações do passado. De fato, a medida da Revelação em cada época é proporcional e adaptável ao grau de progresso social atingida nessa época por uma humanidade que constantemente evolui.
“Foi pro Nós decretado”, explica Bahá’u’lláh, “que a Palavra de Deus e todas as suas potencialidades se devem manifestar aos homens em absoluta harmonia com tais condições como foram preordenadas por Aquele que é o Onisciente, o Sapientíssimo... Se fosse permitido que a Palavra libertasse subitamente todas as energias nela latentes, nenhum homem poderia sustentar o peso de tão poderosa Revelação”. “Todas as coisas criadas”, afirmou ‘Abdu’l-Bahá, elucidando essa verdade, “têm seu grau ou etapa de madureza. A idade madura na vida de uma árvore é o tempo de sua frutificação... O animal atinge a etapa de pleno crescimento e consumação e, no reino humano, o homem chega à maturidade quando a luz de sua inteligência alcança seu grau máximo de poder e desenvolvimento... De modo semelhante, há períodos e etapas na vida coletiva da humanidade. Num tempo estava passando pela etapa infantil, num outro, pelo período da mocidade, mas agora entrou em sua fase de madureza, há tanto tempo predita, e cujas evidências se mostram em toda parte... O que era aplicável às necessidades do homem nos primórdios de sua história não podem satisfazer os requisitos deste tempo, deste período de novidade e consumação. A humanidade já emergiu de seu estado antigo de limitação e treino preliminar. O homem agora deve imbuir-se de novos poderes e virtudes, novos padrões morais e novas capacidades. Novas graças, dádivas perfeitas, esperam-no e já se fazem descer sobre ele. Os dons e as bênçãos do período juvenil, embora oportunos e adequados durante a adolescência da humanidade, estão agora incapazes de corresponder aos requisitos de sua madureza”. “Em toda Dispensação”, escreveu Ele além disso, “a luz da Divina Guia focaliza-se num tema central... Nesta maravilhosa Revelação, neste século glorioso, o fundamento da Fé Divina e a feição que mais distingui a Lei de Deus, é a consciência da unidade do gênero humano.”


33. RELIGIÃO E A EVOLUÇÃO SOCIAL

A Revelação associada com a Fé trazida por Jesus Cristo focalizou sua atenção primariamente na redenção do indivíduo e no ajuste de sua conduta, frisando como seu tema central a necessidade de inculcar um elevado padrão de moralidade e disciplina no homem individual, como a unidade fundamental na sociedade humana. Em parte alguma do Evangelho encontramos referência à unidade das nações ou à unificação do gênero humano como um todo. Ao falar com as pessoas em Seu redor, Jesus dirigiu-se a elas como indivíduos em vez de partes componentes de uma só entidade indivisível e universal. Não se havia explorado ainda toda a superfície da terra e, por conseguinte, nem se poderia ter concebido a organização de todos os seus povos e suas nações em uma só unidade, e, muito menos, tê-la proclamado ou estabelecido. Que outra interpretação podemos dar a estas palavras dirigidas por Bahá’u’lláh especificamente aos que seguem o Evangelho? Nelas, pois, se acha definitivamente estabelecida a distinção fundamental entre a Missão de Jesus Cristo, que concerne primariamente ao indivíduo, e Sua própria Mensagem, que é dirigida mais em particular à humanidade como um todo: “Em verdade, Ele (Jesus) disse: Vinde após Mim e Eu vos farei pescadores de homens. Neste dia, porém, dizemos: - Vinde após Mim para que vos possamos tornar os vivificadores da humanidade.”
A Fé Islâmica, elo sucessivo na corrente de Revelação Divina, introduziu – assim atesta o próprio Bahá’u’lláh – o conceito da nação como unidade e etapa vital na organização da sociedade, e incorporou isso em seu ensino. É de fato o que significa a seguinte pronunciação de Bahá’u’lláh, breve, porém altamente significativa e iluminadora: “De antanho (Dispensação Islâmica) se revelou: - Amor à pátria é elemento da Fé Divina”. O Apóstolo de Deus estabeleceu e frisou esse princípio, desde que a evolução da sociedade humana a exigia naquele tempo. Nem se poderia ter concebido uma etapa acima e além dessa, por serem inatingíveis ainda as condições mundiais preliminares ao estabelecimento de uma forma superior de organização. O conceito de nacionalidade, e o alcance à qualidade de nação, podem, pois, ser considerados as características que distinguem a Dispensação Maometana, durante a qual as nações e raças do mundo, em particular na Europa e na América, unificaram-se e atingiram independência política.
O próprio ‘Abdu’l-Bahá elucida essa verdade em uma de Suas Epístolas: “Em ciclos passados, se bem que fosse estabelecida alguma harmonia, não teria sido realizável a unificação de toda a humanidade, por falta de meios. Os continentes permaneciam largamente separados; ainda mais, até entre os povos do mesmo continente, a associação e o intercâmbio de pensamento eram quase impossíveis. Não se podia, pois, estabelecer entendimento e relações mútuas, ou união entre todos os povos e raças da terra. Neste dia, entretanto, multiplicaram-se os meios de comunicação, e os cinco continentes da terra fundiram-se, virtualmente, em um só... De modo semelhante, todos os membros da família humana, tanto povos como governos, cidades e aldeias, têm-se tornado cada vez mais interdependentes. Não mais é possível, para qualquer um, a auto-suficiência, desde que laços políticos unem todos os povos e nações, e os vínculos do comércio e da indústria, da agricultura e da educação, fortalecem-se dia a dia. Assim, pois, pode-se realizar hoje a união de toda a humanidade. Isso, de fato, não é senão uma das maravilhas desta era admirável, deste século glorioso. Disso as épocas passadas foram privadas, pois este século – o século da luz – foi dotado de glória, poder e iluminação incomparáveis, sem precedentes. Por isso vemos o milagroso desabrochar de uma nova maravilha todo dia. Ver-se-á, afinal, com que intensidade suas velas brilharão na assembléia do homem.”
“Vede”, explica Ele ainda, “como sua luz ora amanhece sobre o tenebroso horizonte do mundo. A primeira vela é unidade no domínio político, da qual se percebem já os primeiros vislumbres. A segunda vela é unidade de pensamento em projetos mundiais, da qual se verá, dentro em breve, a consumação. A terceira vela é unidade em liberdade, que há seguramente de se realizar. A quarta vela é a unidade na religião, sendo esta a pedra angular do próprio alicerce, destinada, pelo poder de Deus, a revelar-se em todo o seu esplendor. A quinta vela é a unidade das nações – unidade essa, a ser estabelecida seguramente neste século, e em conseqüência da qual todos os povos do mundo virão a considerar-se os cidadãos de uma pátria comum. A sexta vela é a unidade da raça, fazendo dos que vivem na terra os membros da mesma raça. A sétima vela é a unidade de língua, isto é, a escolha de uma língua que será ensinada a todos os povos, facilitando-lhes assim a conversação. Sucederá, inevitavelmente, tudo isso, dado que o poder do Reino de Deus haverá de ajudar em sua realização.”
“Um dos grandes acontecimentos”, afirmou ‘Abdu’l-Bahá, em “Respostas a Algumas Perguntas”, “a ser visto no Dia da manifestação daquele Ramo Incomparável (Bahá’u’lláh) será a elevação do Estandarte de Deus entre todas as nações. Quer isso dizer que todas as nações e raças se reunirão à sombra dessa Bandeira Divina, que não é senão o próprio Ramo Senhoril, e se tornarão uma só nação. O antagonismo entre religiões e seitas, a hostilidade entre raças e povos, e as divergências entre nações, serão eliminados. Todos os homens aderirão a uma única religião, tendo uma Fé comum; fundir-se-ão numa mesma raça e se tornarão um só povo. Todos viverão numa pátria comum, que será o próprio planeta.”
É desta etapa que o mundo agora se aproxima, etapa da unidade mundial, que, segundo nos assegura ‘Abdu’l-Bahá, será firmemente estabelecida neste século.
“A Língua da Grandeza”, afirma o próprio Bahá’u’lláh, “proclamou... no Dia de Sua Manifestação: - Não se deve orgulhar quem ama seu país, mas sim quem ama o mundo”. E acrescenta: “Através do poder libertado por estas palavras excelsas, prestou Ele um novo impulso e fixou uma nova direção para as aves dos corações humanos, e obliterou todo vestígio de restrição e limitação do Santo Livro de Deus.”


34. A LEALDADE MAIS LARGA, INCLUSIVA

Convinha pronunciarmo-nos, através de uma palavra de advertência, sobre este assunto. O amor à pátria, incutido e acentuado pelos ensinamentos do islã, como “elemento da Fé Divina”, não é condenado nem depreciado por essa declaração, esse toque de clarim, de Bahá’u’lláh. Não se deve – de fato, não se pode – interpretar Suas palavras como sendo um repúdio, ou vê-las como uma censura pronunciada contra um patriotismo são e inteligente; não visam a minar a lealdade de um indivíduo a seu país, nem estão em conflito com as legítimas aspirações ou os devidos direitos e deveres de qualquer estado ou nação individual. Tudo o que Sua declaração realmente envolve e proclama é a insuficiência do patriotismo em vista das mudanças fundamentais efetuadas na vida econômica da sociedade, em face da interdependência das nações e em conseqüência da contração do mundo, por haverem sido revolucionados os meios de transporte e comunicação – condições que não existiam nem podiam existir nos dias de Jesus Cristo ou de Maomé. Sua declaração exige uma lealdade mais larga, que não deve estar em conflito – e de fato não está – com lealdades menores. Insufla um amor que, dado seu âmbito, deve incluir, e não excluir, o amor à pátria. E, através dessa lealdade que ela inspira, e desse amor que infunde, lança o único alicerce sobre o qual o conceito de cidadão do mundo possa evoluir, e a estrutura da unificação mundial possa descansar. Sobre este ponto, entretanto, ela insiste que considerações nacionais e interesses particularistas se subordinem aos requisitos imperativos e supremos da humanidade como um todo, já que, num mundo de nações e povos interdependentes, é da melhoria do todo que deriva a melhoria da parte.
O mundo, em verdade, move-se para seu destino. A interdependência dos povos e nações da terra, - não obstante o que digam ou façam os que incentivam as forças divisoras do mundo – já é fato consumado. Compreende-se e reconhece-se agora sua unidade na esfera econômica. O bem-estar da parte significa o bem-estar do todo, e o sofrimento da parte traz sofrimento ao todo. A Revelação de Bahá´u´lláh – para usarmos Suas próprias palavras – “prestou um novo impulso e fixou uma direção nova” a esse vasto processo que opera atualmente no mundo. Os fogos ateados por essa grande provação são as conseqüências da falha dos homens, por não haverem-na reconhecido. Ainda mais, apressam sua consumação. A longa adversidade mundial, aflitiva, aliada aos caos e à destruição universal, há de convulsionar as nações, despertar a consciência do mundo, desiludir as massas, precipitar uma transformação radical no próprio conceito da sociedade, e coligar, afinal, os membros desunidos e sangrentos da humanidade num só corpo organicamente unido e indivisível.


35. COMUNIDADE MUNDIAL

Ao caráter geral, às implicações e feições dessa comunidade mundial, destinada a emergir, cedo ou tarde, da carnificina, agonia e destruição dessa grande convulsão mundial, já me referi em comunicações anteriores. Basta dizer que esta consumação, por sua própria natureza, há de ser um processo gradativo e deve primeiro, como o próprio Bahá’u’lláh antecipou, levar à realização daquela Paz Menor que as nações da terra por si mesmas estabelecerão, pois embora despercebendo ainda Sua Revelação, estão executando, no entanto, os princípios gerais por Ele enunciados. Esse passo momentoso e histórico, envolvendo a reconstrução da humanidade, em conseqüência do reconhecimento universal de ser ela uma só, de formar um todo, conduzirá à espiritualização das massas, uma vez reconhecido o caráter da Fé introduzida por Bahá’u’lláh e admitida a verdade de suas declarações – condição esta essencial àquela fusão final de todas as raças, crenças, classes e nações, o que deve assinalar o surgir de Sua Nova Ordem Mundial.
Então o amadurecimento de todo o gênero humano será proclamado e celebrado por todos os povos e nações da terra. Içar-se-á, então, a bandeira da Maior Paz. Então a soberania mundial de Bahá’u’lláh – Aquele que estabeleceu o Reino do Pai predito pelo Filho e antecipado pelos Profetas de Deus antes e depois Dele – será reconhecida, aclamada e firmemente estabelecida. Nascerá, então, uma civilização mundial, fadada a florescer e a perpetuar-se, uma civilização com uma plenitude de vida que o mundo jamais viu nem pode ainda conceber. Então se cumprirá completamente o Convênio eterno. Redimir-se-á a promessa encerrada em todos os Livros de Deus, cumprindo-se todas as profecias pronunciadas pelos Profetas de antanho, e sendo assim realizada a visão de videntes e poetas. Então o planeta, galvanizado pela crença universal de seus habitantes em um só Deus, e pela sua lealdade a uma Revelação comum, espelhará, dentro dos limites que lhe forem impostos, as fulgentes glórias da soberania de Bahá’u’lláh, brilhando na plenitude de seu esplendor no Paraíso de Abhá, e se fará os escabelo de Seu Trono no alto; será aclamado como o céu terrestre, capaz de cumprir aquele destino infalível que lhe foi determinado desde tempos imemoriais, pelo amor e sabedoria de seu Criador.
Não cabe a nós, fracos mortais que somos, tentarmos atingir, em tão crítica etapa da longa e variada história do gênero humano, uma compreensão precisa e satisfatória dos sucessivos passos que devam conduzir uma humanidade sangrenta, miseravelmente esquecida de seu Deus e desatenta a Bahá’u’lláh, de seu calvário à sua ressurreição final. Não cabe a nós, testemunhas viventes da potência predominante de Sua Fé, duvidarmos – nem por um momento sequer, e nada importando a negrura da miséria que amortalha o mundo – do poder de Bahá’u’lláh de forjar, com o martelo de Sua Vontade e o fogo da tribulação, sobre a bigorna desta era angustiada, e na forma especial concebida pela Sua mente, estes fragmentos dispersos e mutuamente destrutivos em que um mundo perverso se converteu, fundindo-os em uma só unidade, sólida e indivisível, dotada da capacidade de executar Seu desígnio para os filhos dos homens.
Cabe-nos, sim, o dever – não nos importando a confusão da cena, nem a perspectiva sombria do momento atual, nem a escassez dos recursos a nosso dispor – de trabalharmos serenamente, prestando nosso quinhão de apoio, confiantes e incansáveis, de qualquer modo que as circunstâncias nos permitirem, à operação das forças dispostas e guiadas por Bahá’u’lláh, que deverão conduzir a humanidade fora do vale da miséria e da vergonha, para as mais sublimes alturas de poder e glória.


Shoghi


Haifa, Palestina
28 de março, 1941


36. NOTAS EXPLICATIVAS

Para melhor entendimento de importantes referências que integram o texto completo desta livro, preparamos estas notas, capítulo a capítulo, sempre que ocorre alguma menção a pessoas, locais e eventos históricos especiais.


1. O Dia Prometido Chegou

Longa mensagem escrita por Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í e seu líder mundial de 1921 a 1957.
Datada de 28 de março de 1941, durante a II Guerra Mundial, a mensagem em questão, que forma este livro, foi enviada a Haifa, Israel, o Centro Mundial da Fé Bahá’í, dirigida aos Bahá’ís do mundo inteiro.
Analisa a receptividade que a Mensagem de Bahá’u’lláh teve de parte dos governantes e líderes religiosos de Seu tempo, o destino de muitos deles, as palavras de admoestação aos Seus contemporâneos, o pensamento Bahá’í quanto à religião, os líderes religiosos, à política internacional e aos governantes em geral. Conclui com as previsões decorrentes da Revelação de Bahá’u’lláh sobre o destino glorioso que a humanidade atingirá, no tempo devido.

2. Este Juízo de Deus:

* Maior Prisão, p. 10. A prisão de ´Akká, na Palestina, onde Bahá’u’lláh e Sua família estiveram encarcerados por dois anos, de 1868 a 1870.
* Ofereceu Seu filho martirizado... p. 10.
Refere-se a Mirzá Mihdi, filho de Bahá’u’lláh, nascido em 1848 e que acompanhou
o Pai em Seus exílios, até ´Akká. Em 1870, na Maior Prisão, enquanto caminhava no teto da prisão, orando, caiu por uma clarabóia, ferindo-se mortalmente. Mirzá Mihdi disse que preferia dar a vida para que todos os seguidores de Bahá’u’lláh pudessem ter acesso a Ele na prisão, em vez de ser possivelmente salvo por intercessão milagrosa de Seu Pai.


3. Qual a resposta ao Seu Chamado?

* Islã Xiita, p. 10
Ramificação do Islamismo, religião fundada por Maomé, na Arábia, no século
sétimo.
Existem duas grandes ramificações do Islã, o grupo sunita e o grupo xiita, decorrentes das divergências havidas entre os seguidores, após a morte de Maomé. Os sunitas adotaram os Califas como os sucessores da Fé islâmica, enquanto que os xiitas seguem a sucessão dos Imames. No Irã, predomina o Islã xiita.
* Lord Curzon, de Kedleston, p. 11
Famoso orientalista e escritor inglês.
* Shaykhu´l-Islám, p. 12
Uma posição elevada no clero islâmico.
* Muhammad Sháh (o Xá) – p. 13
O terceiro monarca da dinastia Qajár.
Reinou de 1834 a 1848.
* Makú, p. 13
Fortaleza no extremo noroeste da Pérsia, em Adharbáyján, na qual o Báb ficou preso por nove meses, em 1847/1848.
* “Epístola ao Filho do Lobo”, p. 15
A última obra grandiosa revelada por Bahá’u’lláh, dirigida a um sacerdote, de nome Xeique Muhammad-Taqí, líder muçulmano conhecido como “o Filho do Logo”, da cidade de Isfáhán, cujo pai, estigmatizado por Bahá’u’lláh como o “Lobo”, havia provocado o martírio de dois ilustres irmãos Bahá’ís daquela cidade, que ficaram conhecidos como o “Rei dos Mártires” e o “Bem-amado dos Mártires”.
* Dr. John E. Esslemont, p. 16
Médico inglês que passou um período na Terra Santa, na época de Shoghi Effendi, sendo o autor do famoso livro “Bahá’u’lláh e a Nova Era”.
* Kad-Khudás, de Teerã, p. 16
Prefeito ou administrador de uma aldeia.
* Aldeia de Niyalá, p. 16
Lugar de veraneio ao norte de Teerã.
* Mazindarán, p. 16
Província ao norte do Irã, da qual Núr faz parte, um distrito onde nasceu Bahá’u’lláh.
* Bastonada, p. 16
Castigo infligido a prisioneiros no Irã, com açoites de chicote na sola dos pés.
* Siyyeds, p. 16
Descendentes do profeta Maomé.
* Mujtadhids, p. 16
Sacerdotes especializados em jurisprudência islâmica.
* Amúl, p. 16
Cidade capital de Mazindarán.
* Xá Nasiri´d-Din, p. 17
O 4o monarca da Dinastia Qajár (1848-1896), foi o rei que autorizou o fuzilamento do Báb e as execuções de milhares de Seus seguidores.
* Siyáh-Chál, p. 17
A Fossa Negra, local onde Bahá’u’lláh ficou preso em Teerã, de 15.8.1852 a 15.12.1852 (4 meses).
* Sulaymániyyih, p. 17
Cidade montanhosa ao norte do Iraque, onde Bahá’u’lláh passou dois anos (1854/1856) em reclusão.
* Constantinopla, p. 17
Capital do Império Turco. Hoje, Istambul. Cidade onde Bahá’u’lláh viveu cerca de 4 meses, após deixar Bagdá, no Iraque em 2 de maio de 1863, onde chegou em 16 de agosto.
* Adrianópolis, p. 17
Cidade situada na região européia da Turquia para onde Bahá’u’lláh foi banido, de Constantinopla, em dezembro de 1863, e onde viveu até agosto de 1868, quando foi exilado para a Terra Santa.

4. Feições deste Drama Comovente:

* Sultão ´Abdu´l-Azíz, p. 18
Sultão que exilou Bahá’u’lláh para Adrianópolis e, depois, para ´Akká, na Palestina.
Governou o Império Turco Otomano de 1861 a 1876. Bahá’u’lláh dirigiu duas Epístolas ao Sultão ´Abdu´l-Azíz, em defesa de Sua inocência, mas não recebeu resposta.
Em 1876, foi deposto após uma revelação palacial e condenado à morte.
A guerra de 1914/1918 resultou na dissolução do Império Otomano, na abolição do Sultanato e na proclamação da república, após um domínio de mais de seis séculos.
* ´Abdu´l-Hamid, p. 21
Sultão, no tempo de ‘Abdu’l-Bahá. Governou de 1876 a 1909. Perdeu o poder com a revolução dos Jovens Turcos, em 1909. Faleceu em 1918.
* Jamal Pashá, p. 21
Comandante do exército turco durante a Primeira Guerra Mundial. Prometera enforcar ‘Abdu’l-Bahá assim que voltasse da batalha contra os ingleses. Foi assassinado, quando refugiado no Cáucaso, para onde fugira para salvar a vida. Um armênio foi quem o matou, cujos compatriotas Jamal Pashá tinha tão impiedosamente perseguido.

6. Os receptores da Mensagem:

* Napoleão III, p. 29
Imperador da França que recebeu duas Epístolas de Bahá’u’lláh. Monarca famoso de um grande império.
Sofreu fragorosa derrota na Batalha de Sedam, em 1870. Perdeu seu reino, passando no exílio os últimos anos da vida. (ver página 72 deste livro).
* Papa Pio IX, p. 29
Chefe da Cristandade no tempo de Bahá’u’lláh. Recebeu Epístola especial. Sofreu humilhação, ao perder os Estados Papais e a própria Roma, nas quais a bandeira papal reinou por mil anos.
A virtual extinção do poder temporal do Papa ocorreu com o reconhecimento formal do Reinado da Itália, restringindo apenas o Vaticano como o território oficial da Igreja.
* Alexandre II, p. 29
Imperador da Rússia, que também recebeu Epístola de Bahá’u’lláh. Acabou sendo assassinado.
* Guilherme I, p. 29
Imperador da Alemanha, foi quem derrotou Napoleão III. Sofreu dois atentados à sua vida.
Recebeu Epístola especial de Bahá’u’lláh, com afirmativas proféticas sobre o fim de seu reino e as lutas sangrentas que ocorreriam às margens do rio Reno, em Berlim. (citado no parágrafo 90 do livro “Kitáb-i-Aqdas).
* Francisco José, p. 30
Imperador da Áustria e Hungria, a quem Bahá’u’lláh se dirige em Seu Livro Sacratíssimo, o Kitáb-i-Aqdas. (parágrafo 85).
* Súriy-i-Múluk, p. 30
Tradução: Epístola aos Reis.
Revelada por Bahá’u’lláh em língua árabe, em Adrianópolis, é uma Epístola dirigida coletivamente aos reis de Sua época. Proclama a posição de Bahá’u’lláh e divulga Seus postulados como Manifestante de Deus para esta era.
* Sublime Porta, p. 30
A corte dos Sultãos da Turquia.

7. Epístolas aos Reis:

* Kitáb-i-Aqdas, p. 35
O Livro das Leis, o Livro Sacratíssimo de Bahá’u’lláh. Revelado em 1873, enquanto Bahá’u’lláh residia na Casa de ´Abbúd, na cidade de ´Akká.
Está traduzido e publicado em português, em edição especial com Notas e uma Sinopse e Codificação.
Os parágrafos 78 a 90 são Epístolas aos Reis.

8. Revelada a Maior Lei:

* Paz Menor, p. 38
Paz a ser assinada entre as nações para eliminar voluntariamente com as guerras. Preparatória à Paz Maior.
* Paz Maior, p. 38
Período, mencionado por Bahá’u’lláh, no qual a paz mundial será definitivamente estabelecida, com a adoção dos ensinamentos revelados pelo Mensageiro Divino para nossa era, livremente aceitos pelos povos do mundo.
* Qayyúmull-Asmá, p. 39
Primeira obra revelada pelo Báb.
Trata-se de um comentário sobre o Surih de José, parte do Alcorão, o seu primeiro capítulo foi revelado na presença do primeiro discípulo do Báb, Mullá Husayn, na noite de 23 de maio de 1844, em Shiráz.
Bahá’u’lláh escreveu que essa obra é “o primeiro, o maior e o mais poderoso de todos os livros”, do Báb.
* Era Apostólica, p. 41
Período na história da Fé Bahá’í que durou de 1844, com a Declaração do Báb em 23 de maio daquele ano, até 1921, com o falecimento de ‘Abdu’l-Bahá, em 28 de novembro. (77 anos)
* Era Formativa da Fé Bahá’í, p. 41
Período iniciado em 1921, com a abertura do Testamento de ‘Abdu’l-Bahá, e que alcançará seu ponto culminante com o início da Era Áurea da Fé, em data ainda não prevista.
* Guerra da Criméia, p. 42
Guerra na qual os turcos, com o apoio de Napoleão III, venceram os russos.

10. Outras Epístolas aos Governantes do Mundo:

* Mesquita de Aqsá, p. 49
Situada em Jerusalém, de cujo lugar, dizem as tradições muçulmanas, Maomé subiu até o 7o céu.
* Bat´ha, p. 49
A cidade de Meca.
* Ancião dos Dias, p. 49
Bahá’u’lláh.

11. Que o Opressor Desista:

* Lawh-i-Sultán, p. 56
Epístola dirigida por Bahá’u’lláh ao Xá da Pérsia, Nasiri´d-Din. É a mais extensa das Epístolas dirigida aos reis.
* ´Akká, p. 56
Cidade prisão do governo turco, na Palestina, para onde Bahá’u’lláh, Seus familiares e alguns discípulos foram banidos em agosto de 1868, em caráter de prisão perpétua.
* Pena da Glória, p. 58
Pena de Bahá’u’lláh, através da qual Suas Palavras foram reveladas.
* Pombo da Eternidade, p. 58
Bahá’u’lláh.
* Ponto Primaz, p. 60
O Báb.

12. O Vigário de Deus na Terra:

* Lawh-i-Ráís, p. 64
Duas Epístolas de Bahá’u’lláh dirigida a ´Alí Pashá, o Primeiro Ministro do Sultão ´Abdu´l-Azíz.
* Súriy-i-Haykal, p. 65
Epístola do Templo. Nesta Epístola, Bahá’u’lláh revela a majestade e a glória do Templo, que é Seu próprio Ser, e desvela novas facetas da Revelação de Deus.
* Impulsor Primaz, p. 67
Bahá’u’lláh.
* Súrih de José, p. 67
Capítulo do Alcorão relatando a história, do Gênese, do Velho Testamento, de José, filho de Jacó, que foi vendido como escravo por seus irmãos, e após alguns anos elevado ao posto de um ministro do Egito. É dito que Maomé revelou este Súrih para provar a veracidade de Sua Missão, em resposta a um desafio.
O comentário do Báb sobre esta Epístola chama-se Qayyúmú´l-Asmá.
* Dinastia dos Romanoffs, p. 68
da Rússia.
* Dinastia dos Honenzollern: p. 68
da Alemanha.
* Dinastia dos Hapsburgos: p. 68
da Áustria e Hungria.

13. Humilhação Imediata e Completa:

* Batalha de Sedán, p. 72
Batalha na qual o exército da França foi derrotado pelo rei da Prússia e Napoleão III foi feito prisioneiro, em 1870.
* Conde Mastai-Ferreti, p. 73
Bispo de Ímola.
* Rei Vitor Emanuel I, p. 75
Rei da Itália, na época de Bahá’u’lláh.
Em 1870, fez guerra aos Estados Papais e suas tropas entraram em Roma, acabando com uma autoridade intocável havia dez séculos.
* Bismarck, p. 76
Primeiro Ministro de Guilherme I, rei da Prússia.
* Inocente III, p. 76
Papa, no período de 1198 a 1216.

16. Qual o destino da Turquia e da Pérsia?

* Casa Turca de ´Uthmán, p. 83
Imperio Otomano.
* ´Abdu´l-Hamid II, p. 84
Sultão do Império Turco, contemporâneo de ‘Abdu’l-Bahá. Reinou de 1876 a 1909, deposto pela Revolução dos Jovens Turcos de 1908. Faleceu em 1918.
* Islã Sunita, p. 85
Uma das duas ramificações mais importantes do Islã, compondo aproximadamente 90% dos muçulmanos.
* Lawh-i-Fuád, p. 86
Epístola de Bahá’u’lláh a Fuad Páshá, Ministro das Relações Exteriores do Sultão ´Abdu´l-Azíz.
* Fuad Páshá, p. 86
Ministro das Relações Exteriores do Governo Turco.
Bahá’u’lláh denunciou-o como o “instigador” de Seu banimento para a prisão de ´Akká, e que assiduamente insistiu junto ao seu colega de ministério, ´Alí Páshá, para instigar medo e suspeita sobre a pessoa de Bahá’u’lláh. Faleceu em 1869, um ano após ter banido Bahá’u’lláh para a Palestina.

17. O lúgubre destino da Turquia Imperial:

* ´Alí Pashá, p. 86
Primeiro Ministro turco, denunciado por Bahá’u’lláh no Lawh-i-Raís (Epístola aos reis) e cuja queda foi prevista no Lawh-i-Fuád em termos inequívocos.
* ´Abdu´l-Majid, p. 87
Sultão da Turquia, avô do Sultão ´Abdu´l-Hamíd.
* Murad V, p. 87
Sultão da Turquia, irmão de ´Abdu´l-Hamid e seu antecessor.
* Rumélia oriental, p. 88
Parte da Turquia européia onde fica Adrianópolis.
* Shaykhu´l-Islam, p. 88 (e pgs. 126 e 135)
Posição elevada no clero muçulmano.
* Xerife, de Meca, p. 89
Principal líder na cidade de Meca.
Posição considerada sagrada.
* Mustafá Kamal, p. 89
Primeiro presidente da República da Turquia, que acabou com o Sultanato, intitulado de Atá Turk (pai dos turcos). Faleceu em 1938.

18. A Retribuição Divina na Dinastia Qajar.

* Grão Vizir, p. 90
Primeiro Ministro do Xá da Pérsia.

* Aqá Muhammad Khán, p. 92
Fundador da Dinastia Qajár, no Irã.

* Xá Fath´Alí, p. 92
Segundo Rei da Dinastia Qajár.

* Qa´Ím-Maqám, p. 92
O eficiente Primeiro Ministro de Muhammad Xá, o qual, por causa de intrigas de invejosos na corte, acabou matando-se.
* Haji Mirzá Aqási, p. 92
Substituto de Qá-im-Magám (considerado o anti-Cristo do Báb).
* Azerbayeján, pgs. 92/93
Província ao noroeste da Pérsia (Irã), onde o Báb ficou prisioneiro durante os últimos três anos de Sua vida e em cuja capital, Tabriz, foi martirizado em 9 de julho de 1850.
* ´Abdu´l-Azím, p. 93
Um santuário ao sul de Teerã.
* Sultão, p. 95
Título aos reis turcos.
* Rei de Rúm, p. 95
Sultão da Turquia.
* Xá Muzaffari´d-Din, p. 95
Substituiu Nasiri´d-Din Xá após seu assassinato, em 1896.
* Xá Ahmad, p. 95
O último Xá da Dinastía Qajár.

19. O Declínio das Fortunas da Realeza:

* Shaykh Salmán, p. 98
Devoto Bahá’í que serviu a Bahá’u’lláh como seu carteiro, levando e trazendo cartas e Epístolas para a Pérsia, na época em que Bahá’u’lláh era prisioneiro em ´Akká.

20. O Reconhecimento da Realeza:

* Ridvánu´l-Adl – p. 102
Literalmente: Paraíso da Justiça.
* Terra de Tá, p. 102
A cidade de Teerã.

22. Palavras dirigidas aos Eclesiásticos Muçulmanos:

* Imame-Husayn – p. 119
Terceiro Imame, dos xiitas, que foi martirizado.
* Pena de Abhá, p. 120
O mesmo que “Pena da Glória”.
* O Livro de Fatiméh, p. 224
Refere-se a Fátima, filha de Maomé. Trata-se do livro “Palavras Ocultas”, revelado por Bahá’u’lláh.
* Lawh-i-Burhán, p. 122
Epístola da Prova, de Bahá’u’lláh.
Revelada em ´Akká, é dirigida ao Imame Jum´ih, de Isfahán, cúmplice do Shaykh Muhammad Báqir, o “Lobo”, no martírio dos irmãos “Rei dos Mártires” e “Bem-Amado dos Mártires”.
* Califado, p. 123
Sistema de governo estabelecido após o falecimento do Profeta Maomé e que se findou com a deposição do Sultão ´Abdu´l-Hamid, em 1908.

23. As Minguantes Fortunas do Islã Xiita:

* Shaykh ´l-Islám, p. 126
Sumo Sacerdote.
* Mujtahids, p. 127
Doutores da Lei (muçulmana)
* Mulás, p. 127
Sacerdotes (padres) Muçulmanos.
* Fuqahás, p. 127
Juristas.
* Imames, p. 127
Condutores de oração.
* Muezins, p. 127
Os que chamam à oração.
* Vu´ázz, p. 127
Pregadores.
* Mutavallís, p. 127
Custódios.
* Madrisis, p. 127
Seminários.
* Mudarrisins, p. 127
Professores.
* Tallábs, p. 127
Noviços.
* Qurrá´s, p. 127
Os que entoam o Alcorão.
* Um ´abbirins, p. 127
Vaticinadores.
* Muhaddithins, p. 127
Narradores.
* Musakhkhirins, p. 127
Domadores de espírito.
* Dhákirins, p. 127
Lembradores.
* ´Umaál-i-dhakát, p. 127
Os que recolhem as esmolas.
* Mugaddasins, p. 127
Santos.
* Munzavís, p. 127
Reclusos.
* Sufís, p. 127
Membros da seita mística do Islã, Sufí.
* Hají, p. 127
Muçulmano que fez peregrinação a Meca.
* Kuláh-i-farangi, p. 127
Chapéu europeu.
* Wagfs, p. 128
Doações de terras e imóveis.
* Mashhád, p. 129
Cidade ao nordeste da Pérsia (Irã), onde se encontra o santuário do oitavo Imame. Ponto de peregrinação.
* Aqá, p. 130
Senhor.
* Xá ´Abbás, p. 130
Grande rei do Irã no século XVII.
* Isfahán, p. 131
Importante cidade da parte central do Irã.

24. O Colapso do Califado:

* Império Otomano, p. 132
Império Turco.
* Califado Muçulmano, p. 132
Sistema de governo no qual o chefe espiritual e temporal é um califa, líder religioso muçulmano.
* Templo de Salomão, p. 132
Histórico templo em Jerusalém, construído pelo rei Salomão. Destruído algumas vezes, tem sido reconstruído. Atualmente, é o conhecido templo em Jerusalém onde está o famoso muro das lamentações.
* Santo dos Santos, p. 132
O Templo de Salomão.
* A cidade de Davi, p. 132
Jerusalém.
* Califa, p. 132
Líder espiritual do Islã Sunita. Em sua capacidade de representante do Profeta na terra, era considerado também o protetor das cidades santas de Meca e Medina.
* Lei canônica Shari´áh, p. 135
* Muftí, Juiz religioso entre os sunitas.
* Qádhi, Juiz.
* Shaykh, sacerdote sunita.
* Mawlaví, seguidor de um ramo do Sufismo.
* Dervixe, seguidor de um ramo do Sufismo.
* Santa Sofia, p. 135
Grande e famosa igreja em Istambul, Turquia.

25. Uma advertência a todas as nações:

* Sháhádih, p. 137
Príncipe.
* Emir, p. 137
Quem comanda; dá ordens.


37. ÍNDICE REMISSIVO


A

Abdu´l-Aziz, Sultão da Turquia, 18, 30, 70, 84, 87, 90, 96
Mensagens de Bahá’u’lláh a, 52, 56, 84/85
‘Abdu’l-Bahá, 21, 68, 80, 84, 87, 89, 117, 124, 149, 156, 161
´Abdu´l-Hamíd, Sultão da Turquia, 21, 84, 87, 88
Abraão, 11, 121
Adhirbáyján, 12, 93/93
Administração, V. Ordem Administrativa da Fé
Adrianópolis, 18, 62, 68/69, 84
Advertências ao mundo, 5/8, 12, 21, 22, 28, 29, 36, 39/42, 137, 152
V. também: Epístolas de Bahá’u’lláh
´Akká, 18/19, 21, 51/52, 56, 64, 70, 73, 84, 86, 87, 106
Alcorão, 105, 119
Alemanha, 76, 79/81
Bismarck, Chanceler da, 76, 80
Política imperial, 79/81
República da, 81
Guilherme I, Imperador da, 29, 73, 80
Mensagem de Bahá’u’lláh a, 51, 79/8’1
Guilherme II, Imperador da, 80/81
Alexandre II, Tzar da Rússia, 30, 42, 77/78
Epístola de Bahá’u’lláh a, 45/49, 77/78
Alexandre III, Tzar da Rússia, 78
´Áqá Muhammad Khán, 92
Aqdas, Livro de, 35/39, 51/52, 56, 79/80, 81, 86, 100, 102, 113
Armamentos, utilidade de, 32, 38/39
redução em, ordenada, 32
Armênios, massacre dos, 88
Atitude do mundo para com a Fé Bahá’í, 10/12, 18, 20/21, 23/25, 89, 108
Áustria-Hungria, 74/75, 79
Francisco José, Imperador da, 30, 81/82
Mensagem de Bahá’u’lláh a, 51/52, 81/82


B

Báb, 7, 12, 13, 15, 21, 24, 28/29, 31, 39/40, 60, 68, 92, 97, 118, 149
martírio do, 12/13, 24, 91, 95, 138
posição do, 61/62
Badí, ´Orgulho dos Mártires´, 90/91
Bagdád, 117/118
Bahá’u’lláh
declaração de Sua qualidade de Profeta, 15/16, 57
missão de, 10, 36/37, 64/65, 100/101, 147/148
perseguições a: 10/11, 13/17, 34/35, 55/56, 59/60, 91
profecias de, 6/7, 8/9, 26, 29, 34/35, 39, 42/43, 50/51, 52/53, 56/61, 69/73, 79/80,
81/82, 102/103, 159/160
posição de, 45/46, 48/49, 73, 138/139, 142/143, 157, 169
Epístolas de, 15, 19, 30/40, 31/61, 73/74, 84/86, 91/92, 97/98, 102/103, 105/106, 119/124, 134, 136, 139/142, 146/147
Túmulo de,
Bayán, 13
Belém, 142
Berlim, 51, 79, 81
Bishárát (Boas Novas), 100
Bismarck, Chanceler da Alemanha, 75/76, 80
Bolshevismo, 77
Browe, Professor Edward G., 160


C

Calamidades, 7/10, 23/27, 68/69, 76/77, 154/155, 158/159, 160
Califa, 87, 132/136
Califado, declínio do, 30, 68/69, 86/87, 123/124, 132/136
Casa de Bahá’u’lláh em Bagdád, 25
Castigo, de Deus, 5/7, 33/34, 126, 127, 154/155, 158/159
Catolicismo: Igreja Católica, declínio de poder, 142/144
V. também: Papado; Papado Pio IX
Causa de Deus, 36, 48, 61/63, 121
Civilização:
crise na história da, 159/161
destruição da, 5/6, 23/26
mundial, 9/10, 168/170
predita pelos Profetas, 170, 171
Clero,
cristão, 26, 103, 107/108, 113/114, 116
decadência do, 103/105, 139/142
muçulmano, 12, 15, 26/27, 30, 59/60, 63/64, 107, 113/114, 117/120, 137
posto a prova por Bahá’u’lláh, 117/118
poder do, 28, 154
poder tirado do, 29, 73/77, 98, 103/105, 113, 132/137, 142/146
sacerdotes pios, 152/153
zoroástrico, 107
Comunismo, 81, 143/144, 156
Constantinopla, 17, 56, 70, 85, 89, 123, 133, 135
Coração, pureza de, 55
Corações, dos homens, pertencem a Deus, 37, 55, 100/101
Confiança em Deus, 32/33, 36, 52/54
Criméia, Guerra da, 42, 72, 75, 87
Crise, significado da mundial, 9, 159/160, 162
Cristandade e a Revelação Bahá’í, 18/19, 27/28, 30, 39/41, 43/45, 66/67, 73/78
Cristãos, Epístolas de Bahá’u’lláh aos, 19/20, 66/67, 105
Cristo, V. Jesus Cristo
Cruzon de Kedleston, Lord, 11


D

Destino do mundo, 5/9, 165/171
Destruição do mundo, 5
Deus, Dia de, 6/7, 15/16, 25/26, 36, 42, 44/45, 105, 140, 146, 165/171
proximidade do, 23/24
objetivo do, 159/160
Deuses, falsos, 156/157
Dia de Deus, Prometido, 6/7, 15/16, 25/26, 36, 41/42, 44/45, 105, 119, 131, 146, 165/175
Dirigentes eclesiásticos: V. Clero
Dispensação (Era ou Revelação)
do Báb, 13, 39, 63
de Bahá’u’lláh, 8, 13, 63


E

Egito, 88
Encarceramento
do Báb, 12, 13
de Bahá’u’lláh, 15/20, 47, 87
Epístolas, excertos das, de
‘Abdu’l-Bahá, 23/24, 124/125
Báb, 7, 13, 27/28, 39/40, 59/61, 91/92, 118/119, 134/135
Bahá’u’lláh, 9/10, 62/66, 69/73, 84/86, 99/102, 139/142
aos cristãos, 73
aos dirigentes eclesiásticos, 105, 108/116, 119/121
aos muçulmanos, 117/123, 134
ao Papa Pio IX, 44/45
aos zoroástricos, 107
ao “Filho do Lobo”, 15, 70, 99, 106, 120
aos judeus, 106
Lawh-i-Ra´ís, 64, 84/85, 102
aos reis, 29/34, 64/65, 97/98
a Alexandre II, Tzar da Rússia, 46/47, 77
a ´Abdu´l-Aziz, sultão da Turquia, 52/56, 84/86
a Francisco José da Áustria, 52, 81/82
a Guilherme I da Alemanha, 31, 79/81
a Napoleão III, Imperador a França, 41/42, 69/70
a Vitória, Rainha da Inglaterra, 28/39, 49, 50
ao Xá Násiri´d-Din, da Pérsia, 56/61, 63/64, 91, 102, 121
Era Bahá’í, primeiro século da, 8/10, 23/25, 29, 40/41, 68, 83/84, 104, 159
Escravidão, proibida, 49
Esslemont, Dr. J. E., 16
Exílio de Bahá’u’lláh, 18, 21, 64, 68, 69/70, 86, 95


F

Fath-´Alí-Sháh, da Pérsia, 92/93
“Filho do Lobo” Epístola ao, 15, 70, 99, 106, 120
França, Napoleão III, Imperador da, 29/31, 69/70, 90
Epístolas de Bahá’u’lláh a, 30/34, 69/73
Francisco Ferdinando, Arqueduque da Áustria, 82
Francisco José, Rei-Imperador da monarquia autro-húngara, 30, 81/83
Mensagem de Bahá’u’lláh a, 52, 81/86
Frederico III, Imperador da Alemanha, 80


G

Gladstone, W.E, citado, 88
Governantes, atitude de, para com
Revelação Bahá’í, 18/21
humilhação, de, 66/67
responsabilidade de, 25/28, 36/39, 66/69, 154/155
Guerra
da Criméia, 42, 72, 76, 88
européia, de 77, 81, 82, 89
franco-germânica, 74
russo-turca (1877/1878), 88/90
Guilherme I, Rei da Prússia e Imperador da Alemanha, 29, 72, 79, 80
Mensagem de Bahá’u’lláh a, 51/52, 79/80
Guilherme II, Imperador da Alemanha, 80/81


H

Hapsburg, Casa de, 68, 77, 82, 96
Hohenzollern, Casa de, 68, 77, 83, 96
Humanidade,
madureza da, 98, 160/164, 168/172
unidade da, 157, 160, 161/164
Humilhação dos governantes, 66/76
Hungria: V. Áustria-Hungria


I

Idade Áurea, 9, 161/164
Igreja católica, declínio no poder da, 143/144
Igreja e Estado, separação de,
cristã, 145/146
muçulmana, 125/131
Igrejas cristãs, desunião das, 145/146
Imanes, 103/105, 117/120, 128/129, 134/137, 149
Império Santo Romano, 75, 82/83
Inglaterra, Vitória, Rainha da, 29, 49/51
Epístola de Bahá’u’lláh a, 38/39, 49/51
Injustiça, 24/25, 32/33, 47, 126
Íqán, Livro de, 74, 109/110, 149
´Iráq, 17, 129
Isaías, profecias do Livro de, 48, 106
Isfáhán, 117, 129, 130, 131
Islã, 10, 19, 30, 60, 86, 103/105, 117/120, 125/131, 132/136
característica distinta do, 165
V. também: clero muçulmano
Itália, 75/74


J

Jamál Pashá, 21, 89
Jerusalém (Aqsá), 49, 52, 106, 132, 136
Jesus Cristo, 14, 28, 39, 44/45, 47, 66, 99, 111, 116, 140, 145, 146, 147, 168
missão de, 146/147, 165
posição de, 150/151
Judeus, 106, 138/139
Juízo, de Deus, 8/9, 23/25, 84/85, 86/89, 140/143, 153/155, 158/160
V. também: Retribuição divina
Justiça, 25/66, 32/33, 38/39, 45, 54, 58, 101/102, 160
Justiça divina, 9/10, 55, 158/159, 160


K

Kitáb-i-Aqdas (Livro de Aqdas), 36, 51/52, 56, 79/80, 85, 100/101, 113
Kitáb-i-Íqán (Livro da Certeza), 74, 109/110, 117, 149


L

Latrão, Tratado de, 76
Lawh-i-Burhám (Epístola de Bahá’u’lláh), 122/123, 134
Lawh-i-Fu´ad (Epístola de Bahá’u’lláh), 86
Lawh-i-Haykal, Epístola de Bahá’u’lláh, 65
Lawh-i-Ra´is (Epístola de Bahá’u’lláh), 64, 66, 84/85, 102
Lawh-i-Sultán (Epístola ao Xá da Pérsia), 63, 66
Leis, Livro das (Aqdas): V. Aqdas, Livro de


M

Mákú, 13
Manifestante de Deus, divinamente inspirado, 57
Maomé, 27, 111, 116, 123, 125, 136, 146, 149, 165
Maria, Virgem: V. Virgem Maria
Marie, Rainha da Romênia, 149, 150
Mashhad, 131
Mashriqu´l-Adhkár em ´Ishqábád (Matriz), 25
Meca, 89, 117, 133
Medina, 117, 133
Missão de Bahá’u’lláh, 10, 37, 64/65, 99/100, 146, 148
Missões, cristãs, 143, 145/147
Moderação recomendada, 54, 85
Moisés (Sarça Ardente), 47, 111, 113
Monges, 44, 141/142
Moralidade, decadência de, 143/144
Muhammad-Sháh, da Pérsia, 13, 59/60, 93/94
Mensagem do Báb a, 59/60/61
Mundo, condição do, 5, 8/9, 23/24, 66/67, 137/138
destino do, 9, 10, 168/171
Ordem do, (Ordem Mundial de Bahá’u’lláh), 8, 10, 162/163, 170
unidade do, 165/168


N

Nabíl, Narrativa de, 16, 72, 87, 149
Nacionalismo, 24/25, 143/144, 156/157, 167/168
Napoleão III, Imperador da França, 29, 51, 69, 74, 79, 90
Epístola de Bahá’u’lláh a, 41, 69/70
Násiri´d-Din, Xá da Pérsia, 15/16, 30/31, 84, 90, 92/93
Epístolas de Bahá’u’lláh a, 56/59, 90, 100, 121
Nicolas II, Czar da Rússia, 77/78
Niilismo, 11, 77/78
Novo Testamento (Evangelho), 48, 143


O

Obediência aos reis, 56, 98, 99
Oposição do clero a Revelação Bahá’í, 25/26, 103/105, 108/109, 122/123, 137/138, 154
V. também: clero.
Ordem Administrativa, da Fé Bahá’í, 24/25, 84, 108, 138, 163
Ordem Mundial, de Bahá’u’lláh, 8/10, 162/163, 169/171
Ordem social, evolução da, 162/169


P

Pai, vinda do, 44/45, 48/49, 63, 74, 138, 141/142, 147, 170
Palavra, de Deus, 44/45, 163
Palavras Ocultas, (Livro de Fátimih),
passagem de, 120
Papa Pio IX, 29, 68, 73/76
Epístola de Bahá’u’lláh a, 44/46, 73, 146
Papado, declínio de, 74/77, 142/143
Paris, Congresso de, 76
Patriotismo, 165/166
Paulo, São, passagem do Evangelho segundo, 100
Paz, Menor, 38/170
Paz, a Maior, 38, 170
Pedro, São, 45, 73, 152
Perseguições
de ‘Abdu’l-Bahá, 21/22, 83/84, 89
do Báb, 12/13, 31, 95
de Bahá’u’lláh, 10/11, 13/15, 35, 55/56, 59, 91, 95
Pérsia
clero da, 113/116
dinastia Qájár da, 68, 84, 90/96
Xás da, 12/13, 15/16, 30, 84, 90/96, 130/131
Epístolas relativas à, 57/61, 63/64, 91/96, 123
Pobres (o povo) tratamento dos, 33/34, 37/38, 53
Preconceito, de classe e raça, 156/157
de religião, 44/45, 47/48, 58/59
Profecias,
do Báb, 6, 60/61, 118/119, 134
de Bahá’u’lláh, 6, 8/9, 26, 29, 33, 39, 42/43, 51/52, 69/71, 84/86, 102/103, 160/161
relativas a ´Abdu´l´Aziz, da Turquia, 84/86
relativas a Constantinopla, 56, 86
relativas a Napoleão III, da França, 41/43, 69/72
relativas ao Papa Pio IX, 73/76
relativas a Vitória, da Inglaterra, 49/51
relativas a Guilherme I, da Alemanha, 51/52, 79/80
de Jesus Cristo, 39
do Velho Testamento, 48, 65, 106
Profetas, unidade dos, 148/149, 152
Progressão, da Revolução, V, Revelação progressivo
Provocações, da humanidade, 5/7, 170
Prússia, Guilherme I, Rei da,


Q

Qájár, dinastia de (Pérsia), 68, 83, 92/95
Qayyúmu´l-Asmá´ (Comentário do Báb sobre a Súrih de José), 6, 39, 60/61, 68, 93,
118/119, 134


R

Racismo, 24, 106
Realeza, declínio nas fortunas da, 24, 68, 97/98
reconhecimento da, 98/102
Reis,
declínio dos, 24, 68, 72, 73/74, 98
Mensagens de Bahá’u’lláh aos, 39/40, 61/62
V. também Epístolas aos reis
Mensagens designadas por nomes, 64/65
oposição à Fé Bahá’í, 25/26, 27, 31/32
poder dos, 29/30, 62/63
verdadeira posição e glória dos, 31, 34/35, 42/43, 48/49, 52/53, 58
Religião, decadência da, 23/25, 28, 41, 123/124, 142/143, 157/159
unidade de, 148/152, 155, 160/161, 170/171
Renan, Ernest, palavras de, citadas, 104
Reno, o Rio, aposrofado por Bahá’u’lláh, 51, 81
Representação em governo, recomendada, 50
Retribuição, Divina, 5/10, 76/77, 82/83, 87/88, 95/96, 103/105, 124/125, 132/136, 153/155
V. também: Juízo de Deus
Revelação de Bahá’u’lláh, 9/10, 13, 15, 20, 23/24, 36/37, 49, 63/64, 66/67, 161/162
em relação ao cristianismo e ao islã, 146/148, 164/167
Revelação, progressiva, 139/140, 145/146, 148/152
Revolução
alemã, 81
persa, 93/94, 96, 132/133
russa, 80
turca, 87/90, 132/133
Ridvánu´l ´Adl (Escrito de Bahá’u’lláh), 102
Roma, 74/75, 76
Romanov, Casa de (Rússia), 83
Rumênia, 88
Marie, Rainha da, 149/150
Rússia, 77/78, 88, 144
Alexandre II, Tzar da, 29, 42, 77/78
Epístola de Bahá’u’lláh a, 46/48, 77/78
Alexandre III, Tzar da, 78
Nicolas II, Tzar da, 77/78


S

Sacerdotes: V. clero
Santo Império Romano, 82/86
Sarajevo, 82
Sedan, Batalha de, 72, 76
Seita sunita do islã, 86, 123/124, 132/133, 134/137, 165/166
Seita xiita do islã, 12, 15/16, 29, 86/88, 117/120, 147
“Sete Provas”, Dalá´il-i Sab´ih (Escritos do Báb), 26
Sháh-Bahrám, 107
Shíráz, 12
Síria, 88/89
Sulaymániyyih, 17
Sultanado, abolição do, 83/85, 133/134
Sultãos, da Turquia, 18/19, 30, 52/57, 63/64, 70, 84/89, 95
Sunitas: V. Seita sunita
Súriy-i-Haykal (Escrito de Bahá’u’lláh), 68
Súriy-i-Múluk (Súrih dos Reis: Escrito de Bahá’u’lláh), 30/36, 52/55, 97/98, 123/124


T

Tabríz, 12
Teerã (Tá), 15, 16, 60, 91, 102, 119, 121
“Templo”, mencionado em profecia do Velho Testamento, 65
Templo (Matriz) em `Ishqábád, Turquestão (Império Russo), 25
Tora, 48, 106
Tribulações
de ‘Abdu’l-Bahá, 21/22
do Báb, 12/15
de Bahá’u’lláh, 13/17, 34/35, 59/61, 70/71, 138
Turcos, Novos, 88
Turquia, 83
queda da, 86/90
República da, 132, 133
Sultões da, 18/19, 30, 52/53, 64, 69/70, 83/89
Mensagens aos, 52/54, 84/85


U

Unidade, ordenada, 32, 39, 160, 161, 165/167
Unidade
econômica, 168
do gênero humano, 157, 160/161, 164/169
de religião, 146/148, 157/159, 164/167
mundial, 168/171


V

Vaticano, 73, 74, 75, 76
Velho Testamento, profecias do, 48, 65, 106
Versailles, Tratado de, 81
Viena, Congresso de, 74/75
Virgem Maria, 74, 150/151
Vitor Emanuel, Rei da Itália, 75
Vitória, Rainha da Inglaterra, 29, 90
Epístola de Bahá’u’lláh a, 38/39, 40/50


W

Weimar, constituição de, 81


X

Xás, da Pérsia, 13/14, 15, 17, 30, 83, 90/96, 130/131
Epístolas concernentes a, 56/61, 63/64, 91/93, 95, 117, 121
Xiitas: V. Seita xiita


Z

Zoroástricos (Magos), 107, 151


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)


Effendi, Shoghi
O dia prometido chegou / Shoghi Effendi; tradução portuguesa de Leonora
Stirling Armstrong. – 2. ed. ver. E ampl. – São Paulo: Bahá’í do Brasil, 1998.

Título original: The promised day is come.
ISBN 85-320-0033-9


1. Bahá’í 2. Bahá’u’lláh, 1817 – 1892

3. Movimento da Nova Era I. Título.


98-2273 CDD-297.93092

Índices para catálogo sistemático:

1. Bahá’í: Líderes religiosos: Biografia e obra 297.93092
2. Fé Bahá’í: Líderes religiosos: Biografia e obra 297.93092


O DIA PROMETIDO CHEGOU

Este livro extraordinário é um desafio a todas as pessoas. Rápida e dramaticamente conta a história do último dos Mensageiros de Deus que se revelou à humanidade – Bahá’u’lláh (1817/1892) – destacando as Epístolas que enviou aos dirigentes religiosos de Sua época, incluindo o Papa Pio IX, e a reis e governantes do oriente e do ocidente, como Napoleão III, da França, Rainha Vitória, da Inglaterra, e muitos outros soberanos famosos da segunda metade do século passado.
Mostra as assustadoras conseqüências do desatendimento deles ao chamamento de Bahá’u’lláh, quanto à sua integração no processo de transformação da sociedade humana para a Nova Era que Ele veio inaugurar. Descreve a queda da velha ordem social, política e religiosa do mundo, e o nascimento, obscuro inicialmente, da nova era, de paz, progresso e fraternidade para a humanidade inteira.
Acima de tudo, o livro relembra ao homem moderno, com toda a clareza e seriedade, não estar ele sozinho no universo, que sua existência não é algo sem significado, que seu destino é para uma vida muito superior à dos dias atuais, e que o caminho que conduz à verdade e a Deus está novamente aberto para ele.


Shoghi Effendi, o autor deste livro majestoso nasceu em 1897, em ´Akká, na Palestina, (hoje Israel), filho de pais iranianos. Faleceu em 1957, em Londres, Inglaterra.
Nos sessenta anos de vida deixou um acervo de realizações como raros seres humanos puderam fazê-lo.
Aos 25 anos, foi-lhe dada a incumbência de dirigir mundialmente a infante comunidade Bahá’í, então restrita a alguns paises. À época de seu falecimento, tal número cresceria para centenas de países, em todos os continentes.
Sua vida foi também destacada como tradutor das principais obras escritas por seu bisavô, Bahá’u’lláh, para o inglês, idioma no qual foi realmente insuperável, pelo estilo elevado, belo e sintético que utilizava.

Principais traduções:

A NARRATIVA DE NABIL,
AS PALAVRAS OCULTAS DE BAHÁ’U’LLÁH,
KITAB-I-IQAN
ORAÇÕES E MEDITAÇÕES
SELEÇÃO DOS ESCRITOS DE BAHÁ’U’LLÁH
EPÍSTOLA AO FILHO DO LOBO

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